O agronegócio brasileiro vive um paradoxo. É um dos setores mais potentes da nossa economia, responsável por tecnologia de ponta, escala produtiva e relevância global. A participação do agro no Produto Interno Bruto do país tende a alcançar 29,4%, a maior dos últimos 22 anos, segundo estudo da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil em parceria com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada. Ao mesmo tempo, o setor convive diariamente com pressões relacionadas à sustentabilidade, conflitos socioambientais, exigências regulatórias cada vez mais complexas e uma disputa permanente pela sua imagem pública.
No meio dessa complexidade, uma constatação se repete em diferentes territórios, culturas e cadeias produtivas: o crescimento sustentável do agro depende do diálogo. Produtores, indústrias, cooperativas, instituições financeiras, pesquisadores, organizações ambientais e consumidores estão interligados em um mesmo sistema. E quando um sistema é complexo, nenhuma parte isolada tem condições de responder sozinha.
O que tenho observado, ao longo de quase vinte anos facilitando conversas multissetoriais, é que não é a falta de conhecimento técnico que impede avanços consistentes. O que frequentemente falta é criar condições adequadas para que as pessoas envolvidas conversem sobre o que realmente importa, de um jeito que gere compreensão, criação de soluções possíveis apenas a partir de múltiplos pontos de vista, corresponsabilidade e ação coletiva.
Há alguns anos, acompanhei um processo que ilustra com força o papel do diálogo estruturado no setor. Naquela ocasião, um programa nacional voltado à melhoria da qualidade e à ampliação da quantidade de água no país vivia, entre 2016 e 2018, o desafio de desenvolver modelos inovadores de negócios em manejo florestal, recuperação florestal, agricultura de baixo carbono, eficiência energética e hídrica, além de aprimorar as diretrizes de sustentabilidade aplicadas ao crédito e aos critérios socioambientais.
Para avançar nessa agenda, foi projetado um conjunto de dez workshops dedicados a mapear riscos socioambientais de diversas commodities, reunindo atores de cada cadeia produtiva para cocriar planos de mitigação aplicáveis à análise de crédito rural. Diante das necessidades de análise, aprofundamento e apreciação dos indicadores socioambientais, da criação de ações mitigadoras para os impactos associados a esses indicadores, da importância de tornar o dia dinâmico e propício à interação e da restrição de tempo, um único dia de workshop por commodity, optou-se por trabalhar com grupos pequenos, de até seis participantes, acompanhados por um representante técnico da organização promotora e por um facilitador ou facilitadora da CoCriar.
A percepção dos participantes foi unânime: aquele espaço de diálogo era fundamental para o desenvolvimento das cadeias produtivas e, se ao menos parte do que havia sido cocriado pudesse ser implementado, já haveria impacto significativo.
As alterações propostas na matriz de avaliação de risco e as ações de mitigação construídas coletivamente foram consolidadas e encaminhadas como insumos para o planejamento das intervenções seguintes.
Em outro contexto igualmente marcante, acompanhei por vários anos um projeto no Cerrado Mineiro, região reconhecida pela produção de cafés especiais destinados à exportação. Ali, uma iniciativa financiada por recursos internacionais, tanto da iniciativa privada quanto do terceiro setor europeu, buscava fomentar a conservação de matas e a qualidade da água, dois elementos essenciais para a sustentabilidade ambiental e econômica das lavouras.
Reunimos produtores de diferentes portes, desde grandes fazendeiros até agricultores familiares, para dialogar sobre recuperação de mata ciliar, uso sustentável do solo e boas práticas de conservação hídrica. O mais transformador desse processo não vinha das falas técnicas, embora fundamentais, mas da troca entre os próprios produtores. Aqueles que estavam mais avançados inspiravam quem ainda ensaiava os primeiros passos. Dúvidas ganhavam respostas práticas e medos se dissolviam quando percebiam que não estavam sozinhos diante dos desafios. Era um exemplo vivo de como a inteligência coletiva se manifesta quando as pessoas têm espaço seguro para conversar sobre o que é real no seu dia a dia.
Por ser uma região onde a facilitação não é amplamente conhecida, fora do eixo tradicional Rio-São Paulo, o impacto foi ainda mais profundo. Em determinado momento, o trabalho evoluiu para conversas com federações de cafeicultores e certificadoras, abrindo espaço para alinhar critérios socioambientais com a realidade de quem está no campo e precisa cumpri-los. Não foi uma intervenção pontual, mas uma jornada que se consolidou ao longo do tempo e que segue revelando o quanto o diálogo cria possibilidades que nenhum ator isolado conseguiria construir.
Quando o grupo percebe que não está ali para defender posições, mas para construir clareza, a conversa muda de lugar. É nesse ponto que a inteligência coletiva emerge.
Muitos dos desafios do agro não são lineares. Eles não se resolvem com uma decisão de gabinete nem com um relatório técnico impecável. Envolvem pessoas com diferentes valores, histórias, necessidades, tempos e prioridades.
Em ambientes assim, os modelos tradicionais de reunião ou negociação rapidamente se esgotam. O que funciona é criar processos conversacionais capazes de ampliar a compreensão coletiva antes de buscar soluções, incluir atores que normalmente não se encontram na mesma mesa, transformar divergências em fontes de aprendizagem, gerar sentido compartilhado para decisões difíceis e, sobretudo, produzir acordos que realmente sejam implementados.
É exatamente nesse território que métodos como Círculo, Aquário, World Café e Open Space se tornam ferramentas estratégicas por meio da facilitação. Eles ajudam grupos a explorar o que está vivo, nomear tensões reais, enxergar relações de causa e consequência que não estavam claras e, principalmente, assumir corresponsabilidade pelos caminhos cocriados.
Quando um produtor entende o que a indústria precisa para garantir rastreabilidade, quando a indústria compreende o impacto real de uma exigência no cotidiano do campo, quando condições de trabalho decente em toda a cadeia produtiva são consideradas cruciais por todos os envolvidos, quando instituições financeiras conseguem dialogar sobre risco ambiental sem apontar culpados e quando organizações ambientais escutam as restrições operacionais de forma construtiva, o cenário começa a mudar.
Essas conversas não substituem a técnica. Elas habilitam a técnica a acontecer de forma efetiva.
Diálogo não é romantização.
Facilitar conversas potentes dentro do agro exige muito preparo prévio. Antes de colocar qualquer pessoa em sala, é fundamental compreender qual é a necessidade real que motivou o encontro, o que já está decidido, quem precisa estar presente para que o diálogo faça sentido, quais perguntas podem abrir novas possibilidades e que condições de confiança precisam ser criadas.
Diálogo estruturado não é sobre reunir pessoas para conversar de forma genérica. É sobre projetar um processo que respeite a realidade do campo, o tempo das pessoas, o que já foi tentado e as decisões que não podem ser alteradas. É sobre convidar, e nunca convocar, os participantes certos, de forma clara, acolhedora e responsável, para gerar engajamento genuíno.
Também é sobre lembrar que toda conversa é parte de algo maior. Ela só ganha legitimidade quando seus resultados continuam vivos no dia seguinte, no plano de ação, nas decisões de financiamento, nas práticas de manejo e nas relações entre os elos da cadeia, nos encaminhamentos adotados e, por fim, na identificação e condução de novas conversas para apoiar os próximos passos.
O agro tem buscado cada vez mais processos conversacionais por diferentes razões. Entre elas estão a preocupação com reputação e imagem pública, já que o setor sabe que não basta comunicar, sendo necessário envolver sociedade, consumidores e organizações ambientais em conversas reais. Há também o aumento dos conflitos socioambientais, que tornam as relações entre produtores, comunidades e reguladores mais tensas e exigem espaços seguros de escuta e mediação. Soma-se a isso a necessidade de fortalecer a governança das cadeias produtivas, alinhando expectativas, critérios e responsabilidades entre cooperativas, compradores e fornecedores, além do desafio da transição sustentável, que demanda decisões construídas coletivamente e coerentes ao longo de toda a cadeia.
Em todos esses pontos, o diálogo aparece como fio condutor.
O futuro do agro será de quem souber conversar melhor.
Se existe algo que aprendi vivendo processos no campo, com comunidades, empresas e instituições, é que convocar não funciona. Convidar transforma.
Quando as pessoas entendem por que estão ali, qual é o propósito da conversa e como sua contribuição importa, elas se comprometem. É desse compromisso que surgem soluções mais maduras, sustentáveis e viáveis.
O agro brasileiro tem tudo para continuar sendo referência global. Para isso, porém, precisa fortalecer sua capacidade de conversar com responsabilidade, escuta e presença. Não há inovação tecnológica que substitua esse elemento. Pelo contrário, é ele que garante que a inovação se torne prática.
Fica o convite para que o setor dê esse próximo passo, criando espaços de encontro onde divergências possam ser atravessadas com coragem e respeito, cultivando perguntas que desbloqueiem caminhos e confiando na inteligência que emerge quando conversamos de verdade.
Porque o futuro do agro não é apenas produtivo. Ele é interdependente. E a interdependência só se sustenta com diálogo.
*Tamara Azevedo é cofundadora da CoCriar, facilitadora de conversas e especialista em processos colaborativos, sustentabilidade e diálogo intersetorial. Atua também como mentora e formadora de novos facilitadores.

