É irônico pensar que, justamente quando Warren Buffett começa a sair de cena, o mercado americano parece flertar com uma distorção intrigante: ações de empresas de qualidade comprovada negociando a níveis de valuation que não eram vistos há algum tempo. Baratas, ao menos relativamente.
Buffett atribui parte significativa do seu sucesso a uma lição aprendida com Charles Munger (in memoriam): a mudança de filosofia de investimento. Ele deixou de procurar “negócios justos a preços maravilhosos”, o estilo cigar-butt de Benjamin Graham, para comprar “negócios maravilhosos a preços justos”. A frase virou quase um manifesto, repetida e reexplicada ao longo das lendárias cartas da Berkshire Hathaway. E talvez o ponto mais importante esteja justamente aí: qualidade não costuma aparecer barata com frequência. Quando aparece, vale ao menos olhar duas vezes.
Pois bem. Chama atenção, hoje, que ações de empresas reconhecidas como de alta qualidade, com lucros e geração de caixa crescentes, balanços sólidos e elevados retornos sobre o capital, vêm ficando para trás. Em um movimento que lembra episódios como o fim dos anos 1990 ou o pós‑crise de 2009, o mercado voltou a premiar negócios mais frágeis, altamente alavancados ou ainda distantes da lucratividade, enquanto empresas maduras e previsíveis perderam espaço relativo.
Segundo levantamento do J.P. Morgan, a defasagem recente da “qualidade” foi incomum mesmo para padrões históricos. O S&P 500 Quality Index ficou cerca de 11,5 pontos percentuais atrás do S&P 500 em seis meses, um descolamento comparável a extremos vistos em 1999. Os dados também mostram que o “preço da qualidade” caiu de forma consistente: o prêmio de P/E forward do fator qualidade nos EUA foi para perto de mínimas de vários anos.
O ponto não passou despercebido por outras casas globais. Também em nota recente, o Barclays classificou o momento atual como um dos períodos de pior performance relativa do “fator qualidade” em mais de duas décadas. A leitura é de que a combinação de concentração extrema de retornos, narrativa tecnológica dominante e realocação agressiva de capital criou um ambiente particularmente desfavorável para empresas mais previsíveis e disciplinadas.
Episódios como esse costumam ter um componente comportamental claro. Quando o mercado se torna excessivamente animado com uma narrativa dominante, o capital tende a se concentrar onde a história é mais visível e empolgante, deixando menos espaço para negócios cuja criação de valor é mais incremental e menos óbvia.
Há uma hipótese pouco explorada por trás desse fenômeno: um efeito de segunda ordem do boom da IA. O ciclo recente foi marcado por uma concentração extrema de retornos em poucos nomes diretamente ligados à IA, à infraestrutura de dados e a semicondutores. A corrida pela inteligência artificial redirecionou capital de forma agressiva para esses temas dominantes, e esse deslocamento, mais do que qualquer deterioração generalizada, pode estar pressionando valuations em outros segmentos do mercado. Uma distorção silenciosa.
Falando de casos concretos: empresas como Waste Management, líder em coleta e destinação de resíduos na América do Norte, Roper Technologies, um conglomerado de softwares verticais e negócios industriais de nicho, com perfil asset-light, Watsco, a maior distribuidora norte‑americana de equipamentos de ar‑condicionado, aquecimento e refrigeração, e Constellation Software, uma empresa canadense focada na aquisição e consolidação disciplinada de softwares verticais críticos, têm em comum um histórico excepcional de criação de valor e retornos elevados para investidores de longo prazo. Ainda assim, atravessaram recentemente um período de compressão relevante de múltiplos de valuation. Isso não elimina desafios específicos de cada negócio, mas reforça a leitura de uma reprecificação simultânea em empresas de qualidade com perfis semelhantes.
E aqui há um ponto interessante: muitas dessas empresas, fazendo jus ao seu “selo de qualidade”, não estão alheias à tecnologia, pelo contrário. Embora não sejam AI plays óbvios, negócios desse perfil podem se beneficiar bastante do uso crescente de IA. Isso pode aparecer em ganhos de produtividade, automação de processos, redução de custos e até no desenvolvimento de novos produtos e serviços ao longo do tempo. Ou seja, o mercado corre atrás dos beneficiários diretos e imediatos, mas pode estar subestimando os ganhos incrementais que a IA traz para empresas já bem geridas. São negócios do tipo que o lendário investidor Peter Lynch sempre gostou: distantes de narrativas “sexy”, mas sustentados por disciplina, boa execução e uma longa história de retornos sólidos para seus investidores.
A história, no entanto, nos lembra que esse tipo de inversão tende a ser transitório. Sempre que o mercado privilegiou narrativas em detrimento de fundamentos, o ajuste veio depois, não necessariamente de forma abrupta, mas por meio da reprecificação gradual do que sustenta retornos no longo prazo: lucro, caixa e disciplina de capital. O ponto tampouco é antecipar o timing da reversão, mas reconhecer quando o desequilíbrio se torna excessivo.
Não por acaso, alguns dos melhores investimentos de longo prazo costumam surgir quando o mercado está olhando para outro lugar.
O ambiente atual lembra outros momentos em que a qualidade foi temporariamente ignorada e depois redescoberta. As figuras que moldaram essa visão de privilegiar qualidade, Munger, Buffett e Lynch, já não ocupam o centro do palco, mas as lições permanecem. Quando o mercado volta a cobrar fundamentos, a qualidade tende a prevalecer: pode até atrasar, mas não costuma falhar.
*William Castro Alves é estrategista-chefe da Avenue
