O que a captura de Maduro ensina ao mundo (e ao Brasil) sobre defesa cibernética?

Ação dos EUA no "quintal" do Brasil liga o alerta para a necessidade de o País investir em defesa e, em especial, em segurança cibernética

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Imagens: Divulgação

Nicolas Maduro preso após intervenção dos EUA no início do mês

Nicolas Maduro preso após intervenção dos EUA no início do mês

O ataque dos EUA para capturar e prender Nicolas Maduro em pleno território venezuelano impressionou o mundo não apenas pela ousadia de Donald Trump, mas também pela maneira como se deu: a operação foi feita por meio do domínio do espectro eletromagnético e do ciberespaço neutralizando completamente as forças armadas de Caracas que, inclusive, contam com sistemas avançados de origem russa, como caças, tanques e baterias antiaéreas.

Em resumo: com poucos tiros e sem uma invasão prolongada, os EUA provocaram um apagão de energia elétrica e de eletromagnetismo na defesa de Maduro que simplesmente não conseguiu se comunicar, mostrando que a guerra eletrônica se tornou não mais uma opção, mas sim, algo decisivo em operações militares.

De acordo com Flávio Neri Jasper, professor de poder aeroespacial na Universidade da Força Aérea Brasileira, a ação norte-americana na Venezuela, por mais que tenha chamado a atenção da opinião pública global pelo papel da tecnologia, não é algo inédito.

“Quando os EUA invadiram o Iraque em 2003, os radares iraquianos foram neutralizados. Similar ao ataque contra as instalações iranianas pelos EUA e Israel, inclusive com ação de tropas especiais infiltradas”, disse o professor. Ele cita que a captura de Maduro demonstra a evolução da capacidade de interoperabilidades da Força Aérea norte americana, algo essencial em ações que envolvem atualizações da doutrina de segurança daquele país.

Isso mostra que o investimento em hiperconectividade, o que inclui 5G e 6G, já se tornou uma política de defesa em detrimento de plataformas convencionais.

Na visão de Robert Huber, chefe de segurança cibernética da consultoria Tenable, que auxilia algumas das maiores empresas do mundo a se prevenirem de ataques cibernéticos, o Brasil é, sim, um país com altíssimo grau de exposição.

“Ao analisarmos o cenário em 2026, o Brasil se encontra em uma encruzilhada crítica. O País passou por uma transformação digital massiva, que expandiu significativamente sua superfície de ataque”, disse Huber, que serviu na Força Aérea dos EUA por 22 anos e atuou na área de segurança cibernética do JP Morgan Chase.

“Segurança é um esporte em equipe. Ao focar na gestão da exposição, o Brasil não está apenas se defendendo de uma nação ou ator específico, está criando uma defesa coletiva que protege sua soberania contra qualquer ameaça futura, seja ela geopolítica ou criminal”, afirmou.

Invasão da Venezuela pode se repetir em outros países?

Para Antônio Patriota, ex-ministro das relações exteriores durante o governo Dilma Rousseff e atual embaixador do Brasil na Inglaterra, o governo Lula acertou ao condenar a captura de Maduro.

“As declarações dos embaixadores do Brasil na ONU foram perfeitas. Temos que sair em defesa do Direito Internacional que não permite uma ação como a feita por Trump na Venezuela”, disse Patriota.

O diplomata ainda pontua: “Tem gente por aí criticando uma possível ‘neutralidade’ do Brasil neste assunto por não ter demonstrado um apoio maior ao governo da Venezuela. Temos que deixar claro que não houve qualquer neutralidade, o País tomou o lado certo que é o do Direito Internacional”.

Porém, Donald Trump já mostrou que é um presidente ousado e isso ninguém duvida.

Para Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington e Londres, a postura do governo brasileiro pode sim despertar a ira dos EUA e colocar o Brasil em rota de colisão com a gestão Trump, assim como outros países da América Latina presididos por presidentes de esquerda. 

De acordo com Barbosa, os EUA já mostraram que o mundo pautado por respeito ao Direito Internacional, ao papel da ONU ou da OEA não existe mais. “Existe a possibilidade de Trump fazer o mesmo que fez com Maduro na Colômbia e em Cuba, enquanto no Brasil eu vejo a chance de interferência nas eleições. A grande sofisticação tecnológica utilizada no ataque, por meio de táticas de cyber war, corte de luz no momento da captura e a ação da CIA com a colaboração de parte dos militares venezuelanos deve ser a tônica de como os EUA farão guerras daqui em diante”, sinalizou.

Para ex-ministro da Defesa, Brasil deve atualizar política de defesa com urgência

Na visão de Aldo Rebelo, que atuou como ministro da Defesa no segundo mandato de Dilma Rousseff, o Brasil está atrasado em termos de defesa não só na parte de segurança cibernética, mas também em assuntos convencionais.

“O Brasil deve investir e muito não só em tecnologia, mas também em política de defesa, como o mundo inteiro está fazendo. É o caso dos países da OTAN, EUA, China, Rússia e nossos vizinhos da América do Sul. A grande maioria está aumentando os orçamentos de defesa. Então, o País deve promover a reestruturação da sua agenda, a ocupação demográfica e econômica da Amazônia, a multiplicação dos tiros de guerra dos pelotões de fronteira, a transformação da base aérea de Roraima. Tudo isso são exemplos de uma agenda de defesa”, disse.

Ele também defende a criação de bases espaciais e a transformação de Fernando de Noronha em um uma espécie de “porta-aviões fixo”, além de uma base militar na ilha. Rabello acredita que os programas brasileiros de defesa estão obsoletos em áreas estratégicas e que o atual governo não aproveita o potencial do País.

O ex-ministro também acredita na possibilidade de potências hostis tomarem conta do sul do Atlântico, local que deve ser “protegido” pelo Brasil diante da proximidade geográfica. “Temos ainda que promover parcerias com países amigos para a criação de tecnologia e inovação na área de defesa, como atualizar os programas nuclear e espacial como forma de dissuasão no mundo que é cada vez mais inseguro e perigoso”, disse Rabelo.

O BRAZIL ECONOMY procurou José Mucio, atual ministro da Defesa, e o Almirante Aguiar Freire, chefe do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas, mas ambos não quiseram se manifestar.

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