O ouro e a prata atingiram patamares históricos de preço nas últimas semanas, refletindo o aumento da incerteza global e a intensificação de riscos geopolíticos, incluindo guerras em várias regiões e tensões entre os Estados Unidos e aliados europeus em torno da Groenlândia e de possíveis tarifas comerciais. Os dois metais preciosos, tradicionalmente considerados ativos de proteção, passaram a ocupar posição central nas estratégias de investidores que buscam preservar valor em meio à volatilidade dos mercados financeiros.
Nesta terça-feira (20), o ouro ultrapassou a marca de US$ 4.700 por onça troy, renovando máximas históricas, enquanto a prata se aproximou de US$ 95 por onça, níveis inéditos nos registros globais de preços. O movimento ocorre em um contexto de aversão ao risco crescente, com investidores reduzindo exposição a ativos considerados mais sensíveis ao ciclo econômico e ampliando posições em instrumentos defensivos.
“A busca por segurança tem sido um dos principais motores da valorização do ouro e da prata”, afirmou Danilo Moreno, analista da gestora Investo. “Quando o investidor passa a desconfiar do cenário macroeconômico e político, o ouro volta a cumprir seu papel clássico de preservação de valor.”
A dinâmica recente dos mercados internacionais reforça essa leitura. Durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, líderes políticos e executivos destacaram o aumento do risco geopolítico como uma das maiores ameaças à estabilidade econômica global em 2026. Relatórios apresentados no encontro apontaram a confrontação geoeconômica como um dos principais fatores de risco para o crescimento mundial, um cenário que historicamente favorece a demanda por metais preciosos.
O rali ganhou intensidade após novas declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, defendendo a aquisição da Groenlândia e sugerindo a adoção de medidas econômicas contra países europeus contrários à iniciativa. A retórica elevou a percepção de risco de uma escalada diplomática e comercial entre os EUA e aliados da Otan, com reflexos imediatos nos mercados financeiros globais.
Para analistas internacionais, a valorização do ouro reflete uma reprecificação estrutural do risco. “Os investidores estão incorporando um prêmio maior de incerteza geopolítica aos preços dos ativos”, afirmou o estrategista Renan Paiva. “O ouro próximo de recordes históricos e a prata em níveis inéditos indicam um movimento claro de proteção diante de um cenário global mais fragmentado.”
Além das tensões políticas, fatores macroeconômicos também sustentam a alta. O ouro tende a se beneficiar em ambientes de maior volatilidade cambial e de questionamentos sobre a trajetória futura dos juros reais. Quando o custo de oportunidade de manter ativos sem rendimento diminui, o metal ganha atratividade como reserva de valor. A prata, por sua vez, combina essa característica defensiva com uma demanda industrial relevante, especialmente em setores como eletrônicos, equipamentos médicos e energia solar.

“A prata tem uma dinâmica própria, porque além de ativo de proteção, é um insumo estratégico para a indústria”, explica Ricardo Evangelista, analista da ActivTrades. “Isso faz com que o metal possa se valorizar de forma ainda mais intensa em momentos de estresse, embora com volatilidade maior.”
Segundo dados do Silver Institute, o mercado global de prata tem operado com déficits recorrentes de oferta, o que amplia a sensibilidade do preço a choques de demanda. Em períodos de incerteza, o fluxo financeiro se soma à demanda industrial, criando um ambiente propício para movimentos abruptos de alta.
No Brasil, a valorização internacional tem impacto direto sobre os preços domésticos e sobre produtos financeiros lastreados em metais preciosos. Gestores e consultores têm observado aumento na procura por fundos, ETFs e contratos vinculados ao ouro e à prata como forma de diversificação e proteção patrimonial.
Apesar do otimismo, especialistas recomendam cautela. Deepak Shenoy, fundador da Capitalmind, ressalta que a exposição a metais preciosos deve ser equilibrada dentro da carteira. “Ouro e prata funcionam como seguro em períodos de incerteza, mas não devem ser vistos como aposta de retorno elevado. Uma alocação moderada ajuda a reduzir riscos sem comprometer a estratégia de longo prazo.”
Bancos de investimento globais também mantêm projeções construtivas, mas condicionadas à persistência das tensões geopolíticas e da instabilidade econômica. Relatórios recentes apontam que, caso o ambiente de conflito e fragmentação comercial se prolongue, o ouro pode testar níveis ainda mais elevados ao longo de 2026. Por outro lado, uma eventual redução das tensões ou mudança no cenário monetário poderia provocar correções relevantes.
Daniel Almeida, economista especializado em commodities, resume o momento vivido pelos metais preciosos. “Ouro e prata estão subindo porque o mundo está mais imprevisível. O investidor não está buscando ganhos extraordinários, mas proteção contra eventos extremos. O preço reflete o custo desse seguro em um cenário global cada vez mais instável.”
Diante de guerras persistentes, ruídos diplomáticos e ameaças à arquitetura econômica internacional, a valorização do ouro e da prata volta a cumprir um papel simbólico e prático. Mais do que ativos financeiros, os metais preciosos funcionam como termômetro do nível de incerteza que atravessa a economia global e como refúgio em momentos em que a confiança se torna um bem escasso.
