O ano de 2025 consolidou a renda fixa como um dos grandes protagonistas do mercado financeiro brasileiro. Em um ambiente marcado por juros elevados, volatilidade internacional e busca por previsibilidade, investidores institucionais e pessoas físicas ampliaram de forma expressiva sua exposição a títulos públicos e privados. O resultado foi um recorde histórico de liquidez e negociações no mercado secundário, reforçando o papel estratégico da renda fixa na alocação de recursos.
Dados divulgados pela B3 mostram que o volume negociado no mercado secundário de renda fixa somou R$ 4,2 trilhões em 2025, alta de 49% em relação ao ano anterior. As operações foram realizadas por meio da plataforma eletrônica Trademate e englobam Títulos Públicos Federais, Títulos Privados e Créditos de Descarbonização (CBIO).
A Selic mantida em patamar elevado (encerrando o ano em 15%) foi um dos principais motores desse desempenho. O cenário favoreceu estratégias de carregamento, operações táticas de curto prazo e maior giro de carteiras, especialmente entre investidores profissionais.
Somente os Títulos Públicos Federais movimentaram R$ 2,9 trilhões em 2025, crescimento de 9% frente a 2024. Já o segmento de Títulos Privados teve uma expansão ainda mais expressiva: o volume negociado saltou de R$ 184 bilhões para R$ 1,3 trilhão no período, refletindo maior profundidade do mercado de crédito, avanço das debêntures, CRIs e CRAs, além de maior apetite por spreads atrativos.
Os CBIOs também ganharam relevância, com crescimento de 56% no volume negociado, alcançando R$ 2 bilhões, em linha com o fortalecimento da agenda ESG e da transição energética no mercado de capitais brasileiro.
Além do crescimento financeiro, o mercado secundário de renda fixa registrou um salto expressivo no número de operações. Em 2025, foram mais de 5,17 milhões de negócios realizados na plataforma, quase seis vezes mais do que em 2024. O Trademate encerrou o ano com mais de 650 instituições ativas, incluindo bancos, corretoras, gestoras e entidades de previdência.
O avanço foi acompanhado por recordes mensais. Em outubro, o volume de Títulos Públicos atingiu R$ 328 bilhões, com um pico diário de R$ 29,7 bilhões. Em novembro, os Títulos Privados alcançaram R$ 146 bilhões negociados em um único mês, reforçando o amadurecimento do mercado secundário.
Segundo Fernando Bianchini, superintendente de Produtos de Renda Fixa da B3, os resultados refletem um esforço contínuo de modernização. Em 2025, a bolsa lançou programas de formadores de mercado para aumentar a liquidez, assegurar spreads competitivos e garantir presença mínima em tela durante a maior parte do pregão, além de manter o reconhecimento do Tesouro Nacional como principal plataforma de negociação de títulos públicos.
Perspectivas para 2026: menos juros, novas estratégias
O desempenho robusto de 2025 cria uma base sólida para 2026, mesmo diante de mudanças relevantes no cenário macroeconômico. A expectativa predominante é de início de um ciclo de cortes da Selic ao longo do ano, à medida que a inflação ceda e o Banco Central ganhe espaço para flexibilizar a política monetária.
Esse movimento tende a alterar a dinâmica da renda fixa. Se, por um lado, a redução dos juros diminui o retorno nominal de novas aplicações pós-fixadas, por outro, abre oportunidades relevantes em títulos prefixados e indexados à inflação, com potencial de ganho de capital. A maior volatilidade internacional, com tensões geopolíticas, incertezas fiscais globais e ajustes de política monetária em economias centrais, também reforça a busca por ativos defensivos e previsíveis.
Além disso, a consolidação do mercado secundário deve seguir como tendência estrutural. Mais liquidez, transparência de preços e diversidade de instrumentos ampliam o papel da renda fixa não apenas como instrumento de proteção, mas também como ativo de gestão ativa e geração de valor.
Após um ano histórico, a renda fixa entra em 2026 mantendo seu status de pilar central das carteiras. O cenário pode deixar de ser excepcionalmente favorável como em 2025, mas continua oferecendo oportunidades relevantes para investidores atentos ao ciclo de juros, à qualidade de crédito e à sofisticação crescente do mercado brasileiro. Em tempos de incerteza, previsibilidade e liquidez seguem sendo ativos valiosos.

