A entrada em operação da duplicata escritural, prevista para avançar ao longo deste ano dentro do cronograma do Banco Central, tende a redefinir a forma como o crédito B2B é estruturado, monitorado e precificado no Brasil. Mais do que uma mudança formal no registro de títulos, o novo modelo cria uma infraestrutura capaz de reduzir riscos históricos do sistema, ampliar a transparência das operações e acelerar o acesso das empresas ao financiamento. A avaliação é de Edson Silva, CEO da Nexxera, que vê na duplicata escritural um dos principais vetores de crescimento do setor financeiro corporativo nos próximos anos.
Segundo o executivo, a duplicata escritural consolida um processo de transformação que já vinha sendo construído gradualmente, sobretudo após a pandemia, quando muitas empresas interromperam investimentos, revisaram custos e buscaram maior eficiência operacional. Nesse período, a Nexxera promoveu uma mudança estratégica relevante, segundo ele, ao migrar de um modelo centrado na venda de tecnologia para uma operação baseada em serviços financeiros integrados aos fluxos reais de negócios entre empresas.
“A duplicata escritural transforma a nota fiscal em um ativo digital rastreável, único e confiável. Por trás da duplicata está a nota, o aceite do cliente e o pagamento efetivo. É isso que garante a segurança do processo”, afirmou Silva.
Hoje, a Nexxera opera um ecossistema com mais de 1,2 milhão de empresas, um avanço expressivo frente à base de cerca de 100 mil companhias registrada em anos anteriores. A expectativa é mais do que triplicar os negócios, com faturamento inédito de R$ 1 bilhão em três anos. Para o CEO, esse crescimento reflete a capacidade da empresa de se posicionar no centro das relações B2B, conectando fornecedores, compradores e instituições financeiras em um ambiente padronizado, seguro e escalável.
“A grande vantagem desse modelo é que, à medida que as empresas entram no ecossistema, ele se multiplica. Eu passo a conhecer melhor quem paga, quem recebe e como essas relações acontecem. Isso amplia o mercado de forma natural”, disse.
Na avaliação de Silva, a duplicata escritural altera de forma estrutural a dinâmica do crédito corporativo ao permitir o acompanhamento de todo o ciclo da operação. Diferentemente do modelo tradicional, no qual a duplicata circulava de forma fragmentada, o novo sistema vincula o título à nota fiscal eletrônica, ao aceite do sacado e à liquidação financeira, criando um histórico confiável e contínuo.
“Na duplicata escritural, no instante em que o pagamento acontece, o sistema já sabe que aquela duplicata foi liquidada. Isso elimina duplicidade, reduz fraude e dá uma visibilidade que o mercado nunca teve”, explicou.
Esse nível de rastreabilidade tende a impactar diretamente a forma como o risco é avaliado e precificado. Com mais informações disponíveis, bancos, fintechs e fundos passam a operar com maior segurança, o que abre espaço para redução de perdas, combate à inadimplência estrutural e, ao longo do tempo, queda no custo do crédito.
A expectativa da Nexxera é que a consolidação desse novo modelo gere um incremento relevante de negócios a partir de 2026. Segundo o executivo, a empresa projeta dobrar de tamanho no próximo ano, impulsionada não apenas pelo aumento do volume financeiro transacionado, mas também pela ampliação do uso da plataforma e pela expansão contratual junto às empresas do ecossistema.
“A nossa projeção é dobrar de tamanho em 2026. Esse crescimento é muito mais contratual e estrutural do que apenas financeiro. Ele vem do aumento do uso da plataforma ao longo da cadeia”, afirmou Silva.
Para capturar essa oportunidade, a Nexxera estruturou sua operação para atuar como um hub de antecipação de recebíveis, integrado às registradoras autorizadas e preparado para operar em larga escala. Nesse modelo, as duplicatas já nascem registradas e habilitadas para operações financeiras, o que reduz prazos, elimina etapas burocráticas e permite acesso mais rápido à liquidez.
“Se o fornecedor precisa de dinheiro no momento da venda, a operação já está pronta. Ele não precisa esperar dias para registrar a duplicata. O sistema está habilitado para operar no momento em que a necessidade surge”, disse o CEO.
Além da eficiência operacional, a empresa aposta no uso intensivo de dados para aprimorar a análise de risco. A Nexxera desenvolveu soluções capazes de monitorar continuamente o comportamento de pagamento e recebimento das companhias, permitindo identificar bons pagadores que, muitas vezes, não possuem histórico tradicional de crédito junto ao sistema financeiro.
“Eu consigo enxergar quem paga, quem recebe e como esse fluxo acontece. Muitas empresas nunca tiveram crédito formal, mas sempre honraram seus compromissos. Esse dado passa a ter valor e muda a lógica da concessão de crédito”, afirmou Silva.
Questionado sobre o risco de desintermediação em um ambiente totalmente digitalizado, o executivo descartou essa possibilidade. Segundo ele, a complexidade das relações B2B exige um agente capaz de orquestrar padrões, segurança, integração tecnológica e governança de dados entre milhares de empresas e múltiplas instituições financeiras.
“Uma grande empresa pode ter milhares de fornecedores e se relacionar com diversos bancos. As companhias não querem e não vão administrar essa complexidade sozinhas. A intermediação continua sendo essencial”, disse.
Na visão do CEO, embora o mercado ainda esteja em fase de adaptação à duplicata escritural, os ganhos potenciais são claros. A redução de fraudes, a possibilidade de travar fluxos futuros de recebíveis como garantia e a maior transparência das operações criam as condições para um ambiente de crédito mais eficiente e sustentável.
“A duplicata, sozinha, não resolve tudo. O que reduz o risco é o monitoramento constante do processo comercial e financeiro. Quando isso acontece, o impacto para o mercado é muito relevante”, completou.
Com a duplicata escritural, o crédito B2B brasileiro avança para um patamar mais moderno, integrado e seguro. Para empresas que se anteciparam a esse movimento, como a Nexxera, o novo modelo não apenas valida a estratégia adotada nos últimos anos, como inaugura um novo ciclo de crescimento sustentado por infraestrutura regulatória, dados e tecnologia aplicada ao negócio real.
