A intensificação das investigações conduzidas pela Polícia Federal contra o sistema financeiro ampliou a pressão sobre João Carlos Mansur, fundador da Reag Investimentos, liquidado pelo Banco Central na manhã da quarta-feira (14), e passou a gerar efeitos diretos no ambiente político da Sociedade Esportiva Palmeiras, onde o empresário ocupa uma cadeira no Conselho Deliberativo. Segundo fontes ligadas ao clube, a avaliação interna é de que Mansur deve ser instado a se afastar voluntariamente do colegiado, como forma de preservar a imagem institucional do Palmeiras diante do agravamento das acusações.
A nova camada de pressão surgiu após a deflagração, na manhã desta quarta-feira (14), da segunda fase da Operação Compliance Zero. A ação investiga o esquema financeiro atribuído ao extinto Banco Master e colocou oficialmente Mansur no radar da PF. Por determinação do Supremo Tribunal Federal, mandados de busca e apreensão foram cumpridos em endereços ligados ao empresário, ampliando o alcance da apuração.
De acordo com a investigação, a Reag aparece como administradora de fundos que teriam sido utilizados para inflar artificialmente o patrimônio do Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro. A suspeita central é de que estruturas financeiras complexas tenham sido empregadas para simular operações de crédito, criar lastro fictício e conferir aparência de solidez a ativos que não correspondiam à realidade contábil da instituição.
Fontes com acesso às investigações indicam que parte relevante dos indícios surgiu a partir da análise de movimentações consideradas atípicas em fundos sob gestão da Reag. Entre os pontos que chamaram a atenção dos investigadores estão operações de curtíssimo prazo com rentabilidades extraordinárias, incompatíveis com padrões usuais do mercado financeiro e com o perfil de risco declarado desses veículos. A avaliação da PF é de que essas operações podem ter servido para mascarar perdas, circular recursos e sustentar artificialmente balanços.
A operação desta quarta-feira incluiu a apreensão de documentos, equipamentos eletrônicos e materiais digitais que devem auxiliar na reconstrução do fluxo de recursos entre fundos, empresas e pessoas físicas. O objetivo dos investigadores é identificar quem se beneficiou diretamente das operações suspeitas, qual foi o papel de cada agente envolvido e se houve coordenação deliberada para manipular demonstrações financeiras.
Esse novo estágio da investigação elevou o grau de desconforto dentro do Palmeiras. Dirigentes ouvidos pela reportagem afirmam que o clube não pode correr o risco de ter seu nome associado, ainda que indiretamente, a um caso que envolve o sistema financeiro, suspeitas de fraude e, em outras frentes investigativas, possíveis conexões com o Primeiro Comando da Capital (PCC). O entendimento é de que, no atual ambiente de escrutínio público, a simples permanência de um conselheiro sob investigação desse porte representa um passivo reputacional.
Procurado pelo BRAZIL ECONOMY, o Palmeiras informou que não vai comentar o caso. Já a assessoria jurídica de Mansur não foi encontrada.
A situação ganha contornos ainda mais sensíveis em razão da estrutura de poder do clube. O Palmeiras mantém relação estratégica com a Crefisa, sua principal patrocinadora, grupo que também tem ligação direta com a presidente Leila Pereira. Internamente, a leitura é de que a coerência entre discurso de governança, prática institucional e perfil dos dirigentes tornou-se um ativo central do clube nos últimos anos, e qualquer ruído pode gerar impactos que extrapolam o campo esportivo.
Nesse contexto, o afastamento voluntário de Mansur passou a ser tratado como a solução menos traumática. Conselheiros avaliam que a medida permitiria ao empresário concentrar sua defesa no campo jurídico, ao mesmo tempo em que protegeria o Palmeiras de um desgaste prolongado. A alternativa, que envolveria debates públicos, pressões de patrocinadores e eventual judicialização interna, é vista como prejudicial à estratégia institucional do clube.
O episódio também praticamente enterra qualquer possibilidade de Mansur vir a disputar a presidência do Palmeiras no futuro. Embora o empresário já tenha sinalizado interesse em assumir o comando do clube em ciclos eleitorais posteriores, dirigentes afirmam que, diante do atual cenário, essa hipótese está descartada. Mesmo em um eventual desfecho favorável no Judiciário, o dano reputacional é considerado profundo demais para sustentar um projeto de poder.
Mais do que um caso individual, a situação expõe a transformação do futebol brasileiro em um ambiente cada vez mais sensível a temas como compliance, integridade e governança. Clubes que se profissionalizaram, ampliaram receitas e se aproximaram do mercado financeiro passaram a operar sob padrões semelhantes aos de grandes corporações. Nesse novo paradigma, a biografia e as conexões de seus dirigentes deixaram de ser um assunto interno e passaram a integrar a equação de risco institucional.
Ao se movimentar para blindar sua imagem, o Palmeiras envia um recado claro ao mercado, aos patrocinadores e à sua base de torcedores: a preservação da reputação do clube está acima de interesses individuais. Para Mansur, o desafio agora é atravessar uma das fases mais delicadas de sua trajetória empresarial, sob investigação das autoridades e com um isolamento crescente no ambiente esportivo onde, até pouco tempo atrás, ainda projetava ambições de liderança.
