O economista Roberto Giannetti da Fonseca é um daqueles tucanos que não abandonaram a essência dos fundadores do PSDB. Após a perda de relevância do partido nos últimos anos, principalmente com os escândalos envolvendo Aécio Neves, Fonseca segue como um social-democrata convicto, diferente de muitos nomes que ocupam o PSDB atualmente. “A social-democracia é minha visão de mundo”, disse em entrevista exclusiva ao BRAZIL ECONOMY.
Formado em economia pela USP no início da década de 1970, já ocupou posições de destaque em organismos empresariais e públicos: foi presidente da Cotia Trading, secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior (CAMEX) durante o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, diretor da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e presidente da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (FUNCEX). Hoje, atua como head do LEAD Comércio Exterior, empresa do grupo comandado por João Dória.
Entre outros pontos, ele falou sobre as semelhanças entre o PT e o PSDB, analisou as políticas fiscais e monetárias do governo Lula e criticou a atuação de Gabriel Galípolo à frente do Banco Central. Confira a entrevista completa.
O senhor concorda com a taxa Selic no patamar que está atualmente?
Não tem qualquer sentido em se manter neste patamar. A reunião desta semana tem que dar início a um processo gradual de cortes que até o fim do ano a coloque em cerca de 12% em termos nominais e 6 ou 7% em termos reais. Deve ir caindo entre 0,25% e 0,5% a cada reunião. É a maneira de garantir uma normalidade para que as empresas possam investir mais. Da maneira que está, o ânimo fica bastante reduzido. Aliás, acredito que a taxa deve baixar principalmente por ser ano eleitoral, caso o governo tenha alguma intenção de causar um impacto positivo na economia para melhorar sua popularidade.
A meta de inflação atual no Brasil tem impactado nessa manutenção constante da Selic em patamares altos?
Sim, sem dúvida. Temos que rever a meta de inflação de 3% que é altamente excessiva e rigorosa no Brasil. Até o governo do presidente Michel Temer ela era de 4%, mas foi reduzida e isso não faz qualquer sentido do ponto de vista prático. Esse 1% a menos na meta exige um sacrifício para chegar aos 3% de maneira obsessiva. O ideal é que volte a ser de 4% com uma banda de 2% onde a inflação possa se acomodar. Um outro ponto que eu destaco é que no começo do ano passado os agentes financeiros diziam que o câmbio e a inflação iam disparar, mas ocorreu o contrário. Isso dá base para o Copom baixar a taxa de juros. O Banco Central (BC) tem que pegar o mercado de surpresa.
Como o senhor analisa a queda de braço entre Gabriel Galípolo, presidente do BC, e Lula sobre essa questão dos juros?
Isso ocorre de maneira intensa no Brasil e EUA, mas, em menor grau, também vem acontecendo em países da África e da Ásia. Os Bancos Centrais têm que ser independentes, mas as análises devem ser técnicas e quando não se resolve o problema precisam ser criticados. No Brasil, o BCl está exagerando na dose com esses juros atuais. Isso evita a cura da doença e pode até matar o paciente. Quem está na instituição agora deve ouvir os especialistas de várias correntes econômicas, não só a ortodoxa.
Lembrando que para cada subida de 1% nos juros do Brasil, o setor público paga R$ 40 bilhões por ano a mais de despesas que só alimenta a poupança de rentistas. Isso aumenta a concentração de renda no País e os rentistas ganham muito com 15% ficando em casa sem qualquer empreendimento.
Um dos grandes temores do mercado quando Lula tomou posse no terceiro mandato era os efeitos da revogação do Teto de Gastos e a instauração do Arcabouço Fiscal. Como o senhor vê o funcionamento deste novo mecanismo agora que o governo vai chegando ao fim?
Ele teve por finalidade colocar uma restrição na área de despesas do governo, já que aumentar a área tributária não é o ideal. O problema é que tem sido tão grande o número de exceções abertas no arcabouço que ele perdeu a credibilidade e agora precisa de um novo pacto para se criar expectativas com equilíbrio fiscal, onde a economia e a inflação se ajustem. Mas, quando a dívida vem crescendo e o déficit é maior do que se esperava, como ocorre agora, as expectativas pioram.
Aproveitando esse gancho, a dívida pública brasileira cresceu cerca de 6,5% neste terceiro mandato de Lula e o Tesouro Nacional admite que até o fim do mandato deve passar de 82% do PIB. O senhor acredita que a situação pode ficar insustentável?
Isso é uma teoria do pânico que eu não concordo de maneira alguma. Temos que reduzir gastos e não aumentar a receita tributária, mas eu não vejo a dívida pública extrapolando limites e se tornando impagável. Países desenvolvidos têm dívidas enormes sobre seus PIBs e nem por isso são impagáveis. Afinal, parte da dívida pública brasileira está empenhada em reservas internacionais que são ativos líquidos. Temos que ter mais crescimento econômico, já que com maior PIB o Estado arrecada mais. É uma maneira de fazer isso sem aumentar a carga tributária. Isso cria uma dívida com liquidez e a taxa de juros pode cair de maneira segura.
O ano de 2025 ficará marcado na economia como o das tarifas impostas por Trump ao Brasil. Passados alguns meses e com maior normalidade nas relações entre os dois países, qual sua análise sobre o desempenho do Brasil nas negociações?
As tarifas foram totalmente inaceitáveis da forma como foram feitas, desprezando todas as regras do comércio internacional. Vai demorar algum tempo para que o mundo se recupere como um todo. O Brasil se saiu bem, já que conseguimos renegociar em cerca de dois terços dos produtos afetados com apoio dos empresários norte-americanos. E também o governo brasileiro conseguiu desviar as exportações brasileiras para outros países, especialmente da Ásia e América Latina. Foi uma vitória do Brasil ao se portar de maneira pragmática durante essa crise das tarifas. Mas, é importante lembrar que as autoridades dos EUA viram que não tinha sentido fazer retaliações políticas dessa maneira.
O senhor é conhecido como um “tucano raiz”, mas muitos analistas dizem que o PSDB se perdeu na social-democracia nos últimos anos e que o PT é o verdadeiro partido social-democrata do Brasil, diante das políticas econômicas dos governos petistas. Qual sua opinião sobre isso?
Esse rótulos são muito nebulosos no sentido de onde começa um e termina o outro. PT e PSDB têm muitas coisas em comum, mas o PT é mais trancado enquanto o PSDB é mais aberto na pluralidade de ideias. Uma questão que nós defendemos e o PT ainda resiste é a da privatização. Foi nos governos de FHC que privatizamos a telecomunicação, por exemplo. Imagina se tivéssemos a Telesp ou a Telebras ainda? Hoje em dia temos aí o 5G que é um sucesso. Algumas empresas devem sim ser privatizadas, veja o caso da Vale ou da Embraer que é a maior companhia de aviação regional do mundo. Já a ideia de proteção social foi uma criação dos social-democratas. É uma pena que o Bolsa Família tenha virado uma política eleitoreira, diferente de quando no governo FHC as políticas assistencialistas exigiam condições para que as pessoas pudessem receber os auxílios. Hoje basta o indivíduo dizer que é pobre e está desempregado e já recebe o Bolsa Família. A eficiência da gestão é fundamental.
Neste ponto da privatização, o senhor acha que o próximo governo pode avançar de que maneira?
Muitas empresas ainda podem ser privatizadas. Atualmente se fala dos Correios, mas é algo complexo, já que tem lugares do Brasil onde ele atende e que talvez a iniciativa privada tenha dificuldade em chegar. Mas, os Correios também não podem servir de cabide de cargos públicos. Acredito que ainda podem privatizar muitas companhias na área de saneamento ou algumas partes da própria Petrobras. Quando o setor privado assume com mais eficiência, o Estado pode focar que no interessa. Social-democracia é minha visão de mundo, já que une políticas liberais e humanitárias. Acho que só o mercado não resolve os problemas e o governo tem que induzir mais capital e financiamento.
O senhor tem interesse em voltar a atuar no setor público?
De jeito nenhum. Nem tenho mais idade para isso. Ajudei vários amigos em campanhas em todas as esferas já que passei grande parte da minha juventude durante a ditadura militar, então acredito na importância de atuar em movimentos democráticos. Mas, agora vou focar na iniciativa privada apenas.
