A relação comercial entre Brasil e África carrega raízes históricas profundas, mas ainda está longe de refletir todo o seu potencial econômico. Apesar de avanços recentes, a África ainda responde por uma fatia tímida do comércio exterior brasileiro. Em 2025, as exportações para o continente somaram US$ 15,5 bilhões, enquanto as importações totalizaram US$ 8,2 bilhões, segundo dados do governo federal.
Em comparação, as vendas do Brasil para países da América do Sul alcançaram US$ 43,2 bilhões, enquanto as compras chegaram a US$ 36,9 bilhões. A Ásia foi o maior parceiro comercial brasileiro, com US$ 150,1 bilhões em exportações e US$ 109,1 bilhões em importações.
Em entrevista ao BRAZIL ECONOMY, João Canda, fundador e CEO da Expo África-Brasil, ressaltou que “está na hora de o Brasil olhar a África não só como destino de exportações, mas também como destino de investimentos”. Para o executivo angolano, ainda há um desconhecimento profundo sobre o potencial africano para o crescimento e a consolidação das empresas brasileiras.
Infraestrutura, energia, alimentos e tecnologia são algumas das áreas em que pode haver um avanço mais consistente na relação entre o País e as nações africanas. Confira abaixo os principais trechos da entrevista:
BRAZIL ECONOMY – Como tem evoluído as relações comerciais entre Brasil e África?
JOÃO CANDA – Evolui a partir de uma relação histórica já existente. Não é de agora: ela acompanha os processos históricos que envolvem a África e o Brasil desde o período colonial e nunca mais parou. Entendo que, com as novas políticas comerciais implementadas, principalmente pelo Brasil, houve um fortalecimento da relação comercial entre o Brasil e os diversos países africanos. Obviamente, alguns países ainda estão muito tímidos nessa relação, mas isso ocorre também pela falta de uma participação mais efetiva do próprio Brasil, que é um país muito mais desenvolvido em comparação aos africanos. Essa evolução foi influenciada, em grande parte, por questões políticas no Brasil, que é bastante estratégico e importante nesse contexto.
Essa relação está aquém do potencial?
A participação da África no total do que o Brasil exporta globalmente ainda é relativamente baixa, na ordem de 4,5% do total das exportações. Mas entendo que as dinâmicas que vêm sendo implementadas a partir do fortalecimento dessa relação, especialmente no campo diplomático, têm avançado. Temos cada vez mais governos africanos assinando memorandos de entendimento, o que vem abrindo muitas portas e criando oportunidades para trabalhar os negócios existentes tanto no Brasil quanto nos vários países africanos.
Então vem sendo melhorada de que forma?
Sim. Temos cada vez mais instituições brasileiras se firmando nos países africanos. As exportações Brasil–África seguem em crescimento, ainda que de maneira tímida, mas os números recentes demonstram essa evolução. Se olharmos os dados de 2023, percebemos um recorde nas exportações, de US$ 13,2 bilhões. Em 2024, houve um ligeiro aumento. Em comparação com 2021 e 2022, quando as exportações ficaram entre US$ 10 bilhões e US$ 12 bilhões, essa evolução é significativa. É uma relação que cresce, se fortalece e, com a nova geopolítica, tende a se intensificar ainda mais. Precisamos olhar o continente africano cada vez mais como um parceiro estratégico, para além das questões culturais.
Por quais razões?
Por uma série de razões. O Brasil tem também a responsabilidade de ser um ponto de conexão com o restante da América Latina. O continente africano ainda não faz negócios relevantes com outros países da região, e o Brasil desempenha um papel central nessa conexão, o que também fortalece sua posição. Muitos negócios entre países da América Latina e da África passam necessariamente pelo Brasil, que é estratégico nessa relação comercial, tanto com os vizinhos latino-americanos quanto com os Estados Unidos e a América do Norte. Por isso, é fundamental que a relação comercial entre Brasil e África seja uma agenda diária e constante.
O que tem sido feito para avançar nessa relação?
Tem sido feito muito trabalho, com missões empresariais e abertura de novos mercados no continente africano. O mais interessante é que o próprio continente africano passa por um processo de reestruturação que facilita esse fortalecimento, com a criação de zonas de livre comércio. Entendo que estamos vivendo um momento histórico na relação comercial África–Brasil.
Há outros pontos da geopolítica que podem beneficiar essa conexão?
O continente africano projeta gerar, até 2030, um mercado consumidor de US$ 5,5 trilhões. Estamos falando de um continente em franco desenvolvimento, criando zonas de livre comércio. São países que, estrategicamente, desenvolvem corredores logísticos muito interessantes, como o Corredor do Lobito, em Angola — um projeto ferroviário e logístico que liga o Porto do Lobito, no Atlântico, ao Cinturão de Cobre da África Central —, que despertou o interesse dos Estados Unidos e da China. Ainda não vejo o Brasil muito interessado nesse processo. Esperamos que o país se antecipe e não chegue tarde, como ocorreu em outros momentos.
A África é um continente que precisa de tudo. Entre 55% e 60% de suas terras ainda não são utilizadas. Possui a segunda maior população do mundo, em um continente jovem. Há todas as condições para ser um parceiro forte e estratégico do Brasil. O País tem muito a ganhar, não apenas com exportações, mas também com investimentos. China, Índia, Turquia e Estados Unidos já perceberam isso. O Brasil ainda não tem um perfil investidor relevante no continente africano, e isso precisa mudar para que o País se reafirme além da pauta exportadora.
Tem ainda a situação tarifária do Brasil com os Estados Unidos…
Recentemente houve esse problema, que não foi totalmente superado. O recado é claro: a relação com a África é mais segura do que com outros países. Existe também uma forte vontade dos governos africanos e de seus povos de que o Brasil se fortaleça cada vez mais nessa relação.
Falta esse olhar para quais setores?
Falta uma atenção maior não só das empresas brasileiras, mas também das instituições bancárias. O BNDES, em outros anos, fez investimentos importantes em países africanos. Há intenções do Banco do Brasil e de outras instituições, mas é preciso transformar essas intenções em ações concretas. O Brasil é forte no setor industrial, mas ainda não temos uma presença industrial brasileira relevante operando na África. Os governos africanos buscam uma industrialização sustentável, e o Brasil tem expertise nisso. O País também desenvolve projetos importantes em energias renováveis, de interesse direto dos países africanos, além da questão da segurança alimentar, em que a África pode ter papel estratégico. Está na hora de o Brasil olhar a África não só como destino de exportações, mas também como destino de investimentos. Ainda há um desconhecimento profundo sobre o potencial africano para o crescimento e a consolidação das empresas brasileiras.
Quais setores oferecem mais oportunidades nessa relação?
Há muitas oportunidades mapeadas, que incluem agronegócio, agroindústria, energia e transição energética, infraestrutura, mineração, saúde, educação, tecnologia, logística, construção civil e serviços financeiros. Esses setores refletem tanto as demandas estruturais dos países africanos quanto a competitividade e a expertise das empresas brasileiras.
Não falta mais publicidade e visibilidade da África para intensificar essa relação?
Sim. Mas já há um movimento dos governos africanos. No passado, muitos ficaram esperando que o Brasil batesse à nossa porta. Hoje entendemos que somos nós que precisamos apresentar nossas oportunidades. Isso já vem acontecendo, com iniciativas governamentais no Brasil, fóruns de negócios, reuniões de alto nível e missões empresariais. Há cada vez mais africanos vindo ao Brasil para conhecer o sistema e as oportunidades.
E o turismo?
A África ainda não é vista pelo brasileiro como um destino prioritário. Falta também um trabalho do Brasil nesse sentido. Há destinos africanos que competem com os melhores do mundo: Botsuana no turismo de luxo, Tanzânia competindo com o Caribe, Zanzibar, Cidade do Cabo. Falta promoção turística estruturada pelos próprios governos. O brasileiro viaja muito, mas a África ainda é desconhecida. Cabe a nós promover tanto o turismo quanto as oportunidades de negócios.
Quais outros obstáculos impedem avanços?
As empresas precisam ser mais dinâmicas. Há questões regulatórias. Já houve investidores africanos interessados no Brasil que recuaram devido às altas taxas e impostos. A reforma tributária pode ajudar a tornar o País mais atrativo. Além disso, o sistema jurídico brasileiro é complexo. Em alguns países africanos, é mais flexível. Há produtos africanos de alta qualidade que enfrentam barreiras regulatórias no Brasil, muitas vezes baseadas em preconceitos históricos. Essas barreiras tendem a diminuir com mais diálogo institucional.
Que tipos de produtos enfrentam mais dificuldades?
Bebidas, produtos de beleza, alimentos processados. Há vontade de melhorar essa relação. O Brasil já sinaliza essa intenção. Um exemplo é o memorando de parceria técnica entre a São Paulo Negócios e a Expo África-Brasil, que busca promover investimentos cruzados. Ainda há muito a ajustar, mas estamos avançando.
Qual é o papel da Expo África-Brasil nesse contexto?
Nosso propósito é trazer a África para fazer negócios diretamente no Brasil. Instituições públicas e privadas e empresários africanos apresentam suas demandas, enquanto o Brasil mostra o que pode oferecer. A edição de 2025 demonstrou uma evolução clara, com centenas de reuniões B2B, assinaturas de memorandos e acordos em setores como imobiliário, educação e treinamento. Nosso pipeline real de negócios soma R$ 500 milhões. Queremos transformar o evento anual em uma plataforma permanente de negócios, diplomacia econômica e integração produtiva. Por isso criamos a EXAB365. Mais de 50% do PIB africano vem de micro, pequenas e médias empresas, que representam 90% das companhias do continente. Esse é o nosso foco prioritário.

