“Haddad age como atacante jogando contra um time retrancado”, diz Luiz Belluzzo

Um dos principais economistas ligados ao PT defende atuação do ministro da Fazenda contra as pressões da oposição e dos críticos da Faria Lima

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Imagens: Divulgação

Luiz Gonzaga Belluzzo, economista e conselheiro econômico do PT: ideia de risco fiscal deve ser superada

Luiz Gonzaga Belluzzo, economista e conselheiro econômico do PT: ideia de risco fiscal deve ser superada

Luiz Gonzaga Belluzzo é advogado, cientista social e doutor em economia. Atualmente é professor emérito da Unicamp e economista-chefe do Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa (IREE). Na área pública, atuou como secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (1985-1987) durante o governo de José Sarney e, de 1988 a 1990, foi secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo durante a gestão de Orestes Quércia.

Ex-professor de Dilma Rousseff e amigo de longa data do presidente Lula, para quem ainda é um conselheiro na área econômica, Belluzzo é um adversário nato da ideia de corte de gastos pelo Estado. Como ex-presidente da Sociedade Esportiva Palmeiras, Belluzzo se utilizou de uma metáfora futebolística para analisar o atual momento do ministro Fernando Haddad na pasta da Fazenda: um atacante jogando contra um time retrancado.

Em entrevista exclusiva ao BRAZIL ECONOMY, Belluzzo falou sobre a política fiscal do governo Lula, perspectivas para as eleições de 2026, temor de um calote na dívida pública e outros assuntos. Confira.

Os economistas que seguem uma linha mais liberal são críticos contumazes da política fiscal do governo Lula, alegando que em breve a situação econômica do Brasil ficará insustentável. O que o senhor acha disso?
Eu acho isso inacreditável e acredito que é uma incompreensão sobre o funcionamento do sistema econômico e financeiro. Em 1694, o Banco da Inglaterra começou a operar com títulos da dívida pública, mostrando que isso é algo comum na história. O balanço dos bancos tem uma composição grande da dívida pública porque é um ativo importante. Quando falam de calote eu gosto de dizer: se você me apontar um calote de moeda nacional, não vai encontrar um.

Portanto, o senhor acha improvável um calote da dívida pública?
A dívida pública é em moeda nacional e por isso não há como imaginar que haverá calote. O que se tem é um crescimento dela. Hoje, a dívida  pública brasileira está em torno de 88% do PIB, mas nos EUA é mais ou menos 130% e no Japão é 260%. Alguém vai dizer que EUA e Japão vão dar calote? Claro que não.

Mas, o que explica esse temor de tantos economistas com uma possível crise fiscal?
Quando você ameaça com uma crise da dívida pública faz com que o governo recue nos investimentos, como aconteceu desde o impeachment da presidente Dilma Rousseff. São economistas defensores da ideia de que estava tudo errado, mesmo com a economia com superávit primário durante a maior parte do governo dela. Dilma foi minha aluna e eu a conheço bem. Quando essas críticas começaram, no fim do primeiro mandato, ela ficou atemorizada e chamou o Joaquim Levy para comandar a Fazenda. O resultado foi uma política econômica que derrubou o PIB.

O Brasil está preparado para a iminente subida dos juros pelo FED nos próximos meses?
Sim. Quando houve o aumento abrupto da taxa de juros feito pelo FED em 1979, isso quebrou a América Latina. Aquilo provocou inflação aqui já que o Brasil não tinha capacidade de receber esse impacto, então teve uma fuga do cruzeiro, nossa moeda na época. Hoje nós temos reservas e por isso protegemos a moeda nacional.

Como você avalia a gestão de Fernando Haddad na Fazenda?
Fernando Haddad enfrentou uma situação muito difícil, mais até do que o meu amigo Guido Mantega passou em outros mandatos do PT. E muito dessa dificuldade do Haddad é porque ele gerencia a economia no meio desse vício de se falar da dívida pública. Para responder a isso, o governo fez o arcabouço fiscal para poder sair do teto de gastos feito pelo Michel Temer. O atual ministro foi muito limitado pela Faria Lima com essa história de se falar em calote. Imagina um jogo de futebol onde um time faz a retranca e o adversário tenta tocar a bola pra passar pela barreira. É o que acontece agora. Haddad age como atacante jogando contra um time retrancado.

Então, acha que ele fez um bom trabalho?
Sim, Haddad vem se saindo bem como ministro, diante de todas essas pressões da Faria Lima.

Estes mesmos economistas de uma linha liberal acusam o senhor e seu pensamento heterodoxo de não se importar com o controle dos gastos públicos. Concorda com isso?
Todo governo tem que ter gasto público. Se a gente pegar a crise de 1929, os EUA só saiu da crise porque o governo fez uma política de gastos que tirou o país de uma situação difícil. O grande comandante da política econômica naquela época era John Keynes que defendia a ideia de efeito multiplicador, ou seja, quando um governo investe ele gera emprego, renda e isso vai se multiplicando por toda a economia. Isso de crise ocasionada por gasto público é mais um temor que o mercado vem criando. Se o governo gastar mais, é bom para a economia brasileira que no momento está desacelerando.

Estamos em ano de eleição. Quem o senhor acha que será o candidato da Faria Lima?
Eles vão querer alguém conservador, mas não sei exatamente quem ainda. A família Bolsonaro e adjacentes são muito conservadores politicamente, mas são liberais economicamente. Eles querem um novo teto de gastos, como vai acontecer agora no Chile. Aliás, importante dizer o seguinte: o autoritarismo na América Latina anda de mãos dadas com o neoliberalismo. Quando o Pinochet deu um golpe em 1973, ele começa uma política liberal. Veja o caso do Milei na Argentina, um grande fã da ditadura daquele país. Apesar do superávit que ele conseguiu, a pobreza e a miséria subiram muito por lá. A inflação estava em mais de 100% e caiu para 30% mais ou menos. Isso se deu em paralelo com o aumento da pobreza, o que era muito previsível. Outro exemplo é o próprio Bolsonaro que se pudesse teria dado um golpe.

O senhor acha que Gabriel Galípolo faz uma boa política monetária no BC?
A subida da taxa de juros para 15% tem a ver mais com a relação do dólar com o real. Há uma conexão entre câmbio e juros. Quem tem o poder para definir essa relação é a moeda conversível, que é o dólar. Então o que importa é mais o movimento da moeda norte-americana do que a brasileira, já que o real não é conversível. Imagina alguém viajando para a França e tenta pagar com uma nota de R$ 100 reais. A pessoa da loja não vai aceitar. Tirando dólar, euro, libra e a moeda chinesa, as outras moedas têm essa dificuldade. O que o Galípolo está fazendo é usar a taxa de juros para impedir que impacte a inflação, já que as importações ficam mais caras e aí os preços podem subir.

A sua escola econômica é defensora de um plano de longo prazo para o desenvolvimento industrial do Brasil, aos moldes do que ocorre na China. O senhor ainda acredita que isso é possível aqui?
A China consegue desvalorizar sua moeda por causa da produção mais barata. Você produz mais em grande escala e aí barateia para exportar. Infelizmente o Brasil ainda não tem condições políticas de fazer isso. Os chineses vieram ao Brasil em 1980 em uma época onde a participação da indústria no PIB lá era menor que aqui. Até porque nós tínhamos um plano de desenvolvimento, especialmente no governo JK, que perdurou após a Segunda Guerra Mundial por muito tempo. Isso acabou a partir do Plano Real, que foi bom para a inflação, mas derrubou a indústria brasileira com a taxa de juros alta.

Até pouco tempo, o brasileiro votava baseado principalmente na situação econômica do País. Com a ascensão da pauta de costumes nos partidos conservadores o senhor acha que isso mudou?
Tenho visto que a segurança é mais importante que a economia atualmente, o que é peculiar. As condições de vida melhoraram muito nos últimos anos. Mas, se a economia desacelerar, aí sim o povo volta a se preocupar com o tema.

Qual sua previsão para a economia brasileira em 2026?
As previsões, inclusive do Focus, são inferiores ao que o Brasil tem conseguido. Então, isso precisa ser compensado com projetos de investimentos públicos que alavanquem a renda e a economia, apesar da pressão da Faria Lima pelo contrário. Esses economistas precisam entender que não sabemos tudo e não podemos entrar em dogmas. A história do risco fiscal nada mais é do que um dogma que precisa ser superado.

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