Em um mundo pressionado pela urgência climática, pela recorrência de crises sanitárias e pela necessidade de novas respostas tecnológicas, a disputa por inovação ganhou contornos estratégicos. Nessa corrida, o Brasil costuma aparecer mais como fornecedor de talentos e publicador científico do que como protagonista de descobertas traduzidas em produtos, serviços e soberania tecnológica. É exatamente nesse intervalo entre ciência forte e mercado frágil que a Sthorm, núcleo de inteligência brasileiro voltado à ciência de fronteira, afirma estar construindo uma rota alternativa.
A organização se define como uma infraestrutura privada de inovação profunda, com equipe multidisciplinar e atuação em saúde, ciência, meio ambiente e biodiversidade. Na prática, a Sthorm diz operar como um ecossistema que integra ciência básica, aplicação tecnológica e arquitetura econômica, com o objetivo de acelerar projetos com alto grau de complexidade e longos ciclos de maturação, típicos de deep tech. O conceito orientador é People and Planet (Pessoas e Planeta), que coloca impacto socioambiental e viabilidade econômica na mesma equação.
Na visão de Wilson Ferreira Junior, presidente do conselho, a tese exige reposicionar a inovação como um ativo estratégico e, sobretudo, criar instrumentos para sustentar risco e tempo. “No Brasil, isso também tem de ser bem claro que isso é da área econômica. É um país que tem taxa de juros muito alta”, afirmou ao BRAZIL ECONOMY. Para ele, a cultura financeira do curto prazo afasta capital paciente justamente onde o ciclo é mais longo. “Ele preferiu pela renda fixa com liquidez do que optar pelo visto das ações. É. Na área de ciência e tecnologia, de ciência em particular, quando a duração desse empreendimento é ainda maior, ele fica ainda mais afugentado”, disse Ferreira Junior.
O diagnóstico conversa com um fenômeno conhecido no setor: o chamado “Vale da Morte” da inovação, quando iniciativas saem do ambiente acadêmico com provas de conceito promissoras, mas travam por falta de capital e de estrutura para prototipagem, regulação e escala. O descompasso, segundo a própria Sthorm, é ampliado pela baixa profundidade do mercado local para risco tecnológico e pela dependência do fomento público, frequentemente sujeito a contingenciamentos.
A estratégia da plataforma, nesse contexto, é formar uma holding e compartilhar o risco entre projetos em estágios diferentes de maturidade. Ferreira Junior descreve esse desenho como uma solução de governança e de alinhamento econômico. “Acordei para abrigar esta plataforma e compartilhar com os investidores de cada uma das plataformas”, afirmou. De acordo com ele, o grupo é composto por mais de uma centena de sócios, todos pessoas físicas, e o capital está na casa de R$ 150 milhões. Parte relevante desse universo é formada por cientistas, especialmente no capital das empresas investidas.
A lógica é próxima, ainda que com identidade própria, do que ecossistemas mais maduros fazem ao combinar ciência, financiamento e mecanismos de saída. Em 2025, o Prêmio Nobel de Economia reconheceu Joel Mokyr, Philippe Aghion e Peter Howitt por pesquisas que explicam o crescimento econômico impulsionado pela inovação e pela “destruição criativa”, reforçando a leitura de que prosperidade sustentada depende de progresso tecnológico e de estruturas capazes de substituir continuamente o antigo pelo novo.
Dentro dessa tese, a Sthorm posiciona sua atuação como um catalisador no Sul Global, onde a tradução do conhecimento acadêmico em produto costuma ser mais rara. A COO Marina Domenech descreveu a lacuna como estrutural e cultural. “A gente não tem um mercado, uma indústria de inovação radical no Brasil. A gente reage a essa inovação, a gente vive uma diáspora científica”, afirmou. Na leitura da executiva, o País ainda carece de planejamento de longo prazo para pesquisa e desenvolvimento, especialmente quando o tema exige anos de validação técnica, clínica e regulatória.
Domenech sustenta que a plataforma combina impacto com geração de receita, evitando tratar ciência como projeto filantrópico ou como aposta especulativa. “A gente é, como o Wilson falou, uma plataforma com esse foco muito grande em impacto, mas que tem todo o viés também de geração de receita”, disse. Ela observa que valores que parecem altos no contexto nacional podem ser modestos quando comparados aos budgets globais de P&D, sobretudo na saúde. “Quando a gente fala de R$ 150 milhões, mas quando a gente olha a geração de recursos que essa indústria de pesquisa e desenvolvimento pode gerar, as ordens de grandeza e os budgets são muito maiores”, afirmou.

A frente de saúde é hoje um dos principais exemplos do que a Sthorm chama de infraestrutura: a construção de uma CDMO, sigla para Contract Development and Manufacturing Organization, voltada a biotechs de base científica. A iniciativa, chamada Biotimize, pretende atacar um gargalo que limita a capacidade nacional de transformar descobertas em lotes para ensaios clínicos. Domenech resumiu o problema com um dado direto: “Hoje 100% dos lotes que a gente vai operar em pesquisa no Brasil precisam ser produzidos fora.” Segundo ela, a ausência dessa cadeia encarece e retarda o desenvolvimento local, além de ampliar a dependência externa em vacinas, biofármacos e terapias avançadas.
A operação já atua com um laboratório em Piracicaba (SP), com serviços pré-clínicos e apoio a projetos regulados. A expansão prevê uma fábrica para produção de lotes piloto voltados à pesquisa clínica, com cronograma para estar operando em 2028. “A ideia é começar essa construção logo mais para que essa fábrica esteja pronta, operando em 2028”, disse a COO. O investimento projetado, segundo ela, é de R$ 180 milhões, e a prefeitura teria doado o terreno. Domenech afirmou ainda que o hub já prestou serviços e mantém relacionamento com instituições e empresas como Biomanguinhos, unidade da Fiocruz, Instituto Butantan, Bionovis, Cristália e Ouro Fino, o que indica demanda reprimida por infraestrutura bioindustrial.
Em termos de potencial econômico, Marina apresentou uma estimativa preliminar para a Biotimize: “Dentro da nossa projeção de biotinismo, e é uma projeção que eu te digo até conservadora, US$ 54 milhões.”
Além da CDMO, o portfólio em saúde inclui iniciativas de diagnóstico e terapias avançadas. Um dos casos citados no ecossistema é um teste de biópsia líquida para detecção de câncer de mama, com foco em logística, acesso e ampliação de cobertura em regiões distantes de grandes centros.
Outra iniciativa descrita na plataforma é a iOz, que explora engenharia genética a partir do Zika vírus. A tese, segundo os executivos, nasceu da observação de que uma cepa brasileira apresentou capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica, o que abriu caminho para pensar o vírus como vetor de entrega de medicamentos no cérebro, um desafio central em tumores cerebrais e doenças neurológicas. Wilson resumiu o conceito com uma metáfora. “O Zika vírus, na verdade, virou um. Uber. do medicamento”, afirmou. Domenech complementou o estágio de maturidade tecnológica e o roteiro regulatório: “Hoje a gente está no TRL 4, já quase no 5, entrando para a pesquisa clínica”, disse, destacando que a estratégia foi construída com participação de stakeholders e interlocução com a Anvisa.
Na frente de biofármacos, a Sthorm também cita o desenvolvimento de uma biblioteca virtual de anticorpos monoclonais e a conexão com o Butantan como parte do esforço para reduzir dependência de importação em terapias de alto custo. Na leitura da organização, soberania tecnológica em saúde passa menos por importar soluções prontas e mais por dominar infraestrutura, regulação e escala industrial.
O pilar Planet, por sua vez, aparece com a PlanetaryX, descrita como uma climate tech que transforma ecossistemas preservados em ativos financeiros certificados, combinando mapeamento por satélite, tecnologia e conhecimento local. Wilson defendeu que a lógica não é a de um crédito abstrato, mas de um ativo ambiental rastreável e com prevenção de dupla contagem, com uso de blockchain e monitoramento. A ambição é conectar empresas e investidores a iniciativas que remunerem diretamente quem preserva, como comunidades indígenas e populações ribeirinhas.
A agenda internacional reforça o posicionamento global. Nesta semana, Pablo Lobo, fundador da Sthorm, participou de compromissos ligados ao ecossistema de Davos, incluindo painéis sobre capital responsável e saúde planetária associados ao Basel Investor Forum, na edição 2026. A proposta, segundo materiais públicos do evento, é discutir como alinhar alocação de capital a limites planetários e resiliência sistêmica, em um momento em que risco climático e risco sanitário já se traduzem em risco econômico.
A mensagem central que a Sthorm tenta consolidar é que deep tech não se sustenta apenas com bons cientistas e boas ideias. Exige governança, instrumentos financeiros adequados, infraestrutura industrial e capacidade de atravessar o período mais arriscado da jornada, do laboratório ao mercado. Para Ferreira Junior, o ponto de partida não é o lucro como fim, mas o desenho de incentivos para que a inovação exista e alcance escala. “O objetivo não é ganhar dinheiro”, disse. “Promover um pacto com pessoas e planeta”, completou.
No pano de fundo, a plataforma aposta em uma mudança de mentalidade: tratar risco tecnológico como investimento estratégico, não como aposta. Em um país com biodiversidade singular e produção científica relevante, o desafio não é apenas inventar mais, mas construir as pontes econômicas, industriais e regulatórias para que o invento vire solução, receita, acesso e, no limite, competitividade global.
