2026 será mais um ano de desafios para a economia brasileira, com alguns ingredientes que prometem temperar ainda mais o caldo, como a eleição — que tende a ter ânimos acirrados —, a Copa do Mundo de futebol, o início de um novo modelo tributário, a expectativa por redução dos juros e as incertezas em torno da política fiscal. Mesmo diante de toda essa receita, a Eucatex vai pisar no acelerador dos investimentos para crescer neste ano e colher ainda mais frutos em 2027, segundo a análise de José Antonio Goulart de Carvalho, vice-presidente e diretor de Relações com Investidores da companhia, uma das maiores fabricantes de pisos, divisórias, portas, tintas, chapas e painéis de madeira do País.
A previsão é de investimentos da ordem de R$ 500 milhões em 2026, pouco mais de 40% acima dos cerca de R$ 350 milhões registrados no ano passado, montante que já havia sido 30% superior ao de 2024.
“O maior efeito desses investimentos deste ano será sentido com certeza em 2027, quando a gente entra com muito mais musculatura”, disse Carvalho ao BRAZIL ECONOMY.
Mais da metade dos aportes da Eucatex será destinada à expansão das áreas de reflorestamento. A companhia possui 48 mil hectares de florestas no Estado de São Paulo, que servem como matéria-prima para seus produtos.
Do total da receita, que no ano passado somou R$ 2,86 bilhões, aproximadamente 75% são oriundos dessa base florestal. “Madeira é muito estratégica”, afirmou o vice-presidente.
Ser praticamente autossuficiente em madeira reduz custos, diminui a volatilidade de preços e aumenta a eficiência operacional e produtiva, o que se reflete diretamente na última linha do balanço. Por isso, a área de plantio vem sendo ampliada ano a ano.
A média de expansão dos últimos períodos era da ordem de 6.500 hectares por ano. Em 2025, foi de 7.400 hectares. E, em 2026, deve alcançar 8.200 hectares. “Isso nos proporciona amplitude para olhar um pouco mais para as linhas primárias e pensar em incrementar o volume”, frisou Carvalho, ao classificar o plano de investimentos como “uma mistura de conservadorismo com arrojo”.
A outra parte dos investimentos, cerca de 40%, será aplicada na modernização das fábricas de produtos de madeira, na aquisição de equipamentos para aumento da produtividade da planta de tintas e na evolução dos sistemas de tecnologia da informação.
“É o que chamamos de sustentação fabril”, explicou o executivo. “As fábricas têm um ritmo muito pesado, principalmente as de painéis de madeira.” A empresa possui sete unidades fabris em Botucatu (SP), Salto (SP) e Cabo de Santo Agostinho (PE).
Desempenho financeiro
O desempenho financeiro da companhia neste ano, até setembro, foi 10,6% superior ao registrado no mesmo período de 2024, com faturamento de R$ 2,3 bilhões. O lucro líquido somou R$ 273,4 milhões, avanço de 53,7%.
“Conseguimos esse crescimento [no lucro] muito menos pela área primária, pela produção em volume, e muito mais pela diferenciação do portfólio e, obviamente, pela melhoria na gestão de custos”, avaliou Carvalho.
A melhora na performance se deve à base florestal e também aos lançamentos de produtos, além da aposta nos acessórios da Eucatex, que geram maior valor agregado.
O cliente que compra uma porta tende a adquirir também o batente. Quem leva um piso diferenciado olha para o rodapé. Esses “kits” passarão a receber mais atenção da Eucatex a partir de agora.
Ainda sobre a gestão financeira, a dívida líquida da companhia totalizou R$ 515 milhões ao final do terceiro trimestre do ano passado, redução de 8,1% em relação ao trimestre anterior, representando 0,7 vez o Ebitda recorrente anualizado.
Em 2025, o alongamento da dívida teve como principal componente duas emissões de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), que somaram R$ 600 milhões. As operações, segundo a empresa, além de estenderem o perfil da dívida, reforçaram a posição de liquidez, garantiram maior flexibilidade financeira e deram sustentação ao crescimento de longo prazo.
Exportações
Em 2025, a Eucatex enfrentou a súbita taxação de 50% de seus produtos pelos Estados Unidos — um obstáculo relevante, sobretudo diante de um cenário anterior em que a alíquota era inexistente ou não ultrapassava 5%, a depender do produto.
“Acreditamos que isso deva refluir”, disse José Antônio Goulart de Carvalho, ao destacar que tanto o empresariado quanto o consumidor americanos têm pressionado o governo para a retirada da taxação, que gera aumento de preços internos. Além disso, as conversas entre representantes do Brasil e dos Estados Unidos para o ajuste da relação comercial têm avançado.
Até que isso ocorra, a Eucatex tem “sofrido pouco” com a medida, segundo o vice-presidente. A companhia mantém uma operação relevante em território americano, com venda direta ao mercado local. Armazéns, distribuidores e uma estrutura de atendimento aos lojistas garantem a capilaridade da marca no país.
O markup ajustado no período e um estoque estratégico proporcionam “um colchão para lidar com esse tarifaço, permitindo que a gente gerencie bem essa situação”, salientou o executivo.
A expressão “sofrido pouco”, usada por Carvalho, poderia ser facilmente substituída por “passamos bem” diante do tarifaço. Nos Estados Unidos, o crescimento da receita em 2025 deve encerrar o ano na casa de 15% em relação a 2024.

