A Azul Linhas Aéreas aproveitou o lançamento das novas categorias do Azul Fidelidade para marcar publicamente o que sua liderança classifica como uma virada estrutural da companhia. Durante evento em São Paulo, na noite da terça-feira (270, que apresentou o nível Diamante Unique e o grupo exclusivo Azul One, o CEO John Rodgerson conectou as novidades a um ciclo recente de reestruturação financeira conduzido sob o Chapter 11, nos Estados Unidos, mecanismo jurídico utilizado por empresas para reorganizar dívidas e preservar a operação.
“Foi um processo difícil e duro. Mas agora estou bem animado, porque estamos saindo muito mais leves e muito mais fortes. Na história da Azul, nunca estivemos nesse nível de fortaleza. Agora podemos voltar a investir no que importa, que são as pessoas”, afirmou o executivo a convidados.
O Chapter 11 é um instrumento da legislação de falências dos Estados Unidos voltado à reorganização empresarial, e não à liquidação. Diferentemente de processos de falência que encerram atividades, o modelo permite que a companhia continue operando enquanto renegocia obrigações financeiras com credores, alonga prazos, reestrutura contratos e ajusta sua estrutura de capital sob supervisão judicial.
Na prática, o objetivo é reduzir pressão de caixa no curto prazo, dar previsibilidade à estrutura de dívidas e criar condições para a empresa voltar a investir e competir de forma sustentável. O instrumento é amplamente utilizado por companhias aéreas globais, setor historicamente exposto a alta volatilidade cambial, custo de combustível, leasing de aeronaves e choques externos como crises sanitárias ou geopolíticas.
Ao mencionar a saída do processo, Rodgerson sinalizou que a Azul concluiu uma etapa de desalavancagem e reorganização de passivos, o que, segundo ele, abre espaço para uma agenda mais ofensiva.
“Eu sei que não éramos o nosso melhor nos últimos anos, porque estávamos lutando contra algo bem maior. Mas agora, saindo do Chapter 11, vamos focar muito mais em vocês. Queremos ouvir o feedback de vocês e, a cada dia, ficar mais fortes”, disse.
Embora o discurso tenha ocorrido em um evento de fidelidade, a fala do CEO delineia três eixos estratégicos do pós-reestruturação. O primeiro, a retomada do investimento. Rodgerson afirmou que a companhia volta a ter capacidade de investir, com foco tanto em cliente quanto em equipe interna. “Isso vai permitir investir no cliente e no nosso pessoal interno”, declarou.
A segunda, a renovação e padronização de produto. O executivo destacou a chegada de novas aeronaves Embraer E2, equipadas com Wi-Fi e sistema de entretenimento a bordo, como parte da modernização da experiência. A padronização de frota e a incorporação de aviões mais eficientes também têm impacto em custos operacionais, consumo de combustível e manutenção.
A terceira, o reforço da proposta de valor baseada em serviço. Rodgerson reforçou o posicionamento cultural da companhia. “Nosso produto são as pessoas. Nossos concierges, nossos comissários, nossos pilotos. Nós não somos uma empresa aérea, somos uma empresa de pessoas”, afirmou, associando a recuperação financeira à possibilidade de elevar novamente o padrão de atendimento.
Fidelidade como peça da nova fase
Nesse contexto, a reformulação do Azul Fidelidade funciona como um instrumento de retenção de receita recorrente e fortalecimento do relacionamento com passageiros de maior valor — segmento estratégico para rentabilidade em aviação.
O vice-presidente de Marketing e Pessoas, Jason Ward, descreveu as mudanças como reflexo da maturidade do vínculo com clientes frequentes. “As novidades evidenciam a evolução do relacionamento que desenvolvemos e reafirmam o compromisso de colocá-los no centro de tudo o que fazemos”, afirmou.
Já o vice-presidente Comercial e de Negócios, Daniel Bicudo, ressaltou a escala do programa, que alcançou 20 milhões de clientes no fim de 2025, reforçando o peso da base fidelizada na estratégia da companhia.
A criação do Azul One introduz uma camada de relacionamento que foge à lógica tradicional de acúmulo de pontos. Segundo a diretora do programa, Cristina Yoshida, trata-se de um grupo acessado exclusivamente por convite anual.
“O Azul One não pode ser atingido por voos ou pontos. É um grupo exclusivo, nominal, com experiência feita sob medida a partir das preferências de cada integrante”, explicou.
A proposta aproxima o programa de modelos de hospitalidade premium e clubes de relacionamento, com benefícios comunicados de forma reservada, atendimento dedicado e experiências personalizadas.
O Diamante Unique passa a ser o nível mais alto dentro da estrutura pública do Azul Fidelidade. Para alcançá-lo, o cliente deve cumprir 26 trechos voados e 26 mil pontos qualificáveis ou R$ 50 mil em gastos aéreos na Azul
O nível oferece benefícios de conforto e flexibilidade, além de vantagens para acompanhantes, como cotas para marcação de assentos Espaço Azul e Economy Xtra e isenções de taxas de alteração e cancelamento. O serviço de Concierge também será ampliado para o aeroporto de Confins.
Sinalização ao mercado
Ao atrelar o lançamento a uma narrativa de fortalecimento financeiro, a Azul usa o programa de fidelidade como vitrine de sua nova fase. Em termos estratégicos, a mensagem é dupla:
internamente, de retomada de capacidade de investimento;
externamente, de recuperação de padrão de serviço e foco em clientes de alta recorrência.
“Agora podemos voltar a investir”, resumiu Rodgerson, posicionando a reestruturação como ponto de inflexão para crescimento, experiência e diferenciação competitiva.
