Ainda no vermelho, Urbia investe R$ 400 mi no Ibirapuera e planeja expansão nacional

Após cinco anos administrando o parque urbano mais famoso do Brasil, apesar de disputas com o MP, companhia tornou-se modelo de gestão no País

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Imagens: Divulgação

Ao completar 70 anos em 2020, o Ibirapuera foi concedido à iniciativa privada, e sua administração foi para a Urbia

Ao completar 70 anos em 2020, o Ibirapuera foi concedido à iniciativa privada, e sua administração foi para a Urbia

Durante as comemorações do IV Centenário de São Paulo, em 1954, uma das grandes iniciativas da prefeitura da época foi a inauguração de um grande parque inspirado no Bois de Boulogne, em Paris, Hyde Park, em Londres, e o Central Park, em Nova York. Com essas referências internacionais, foi inaugurado o Parque Ibirapuera, um dos grandes cartões postais da capital paulista.

Sete décadas depois, o espaço de 1.584.000 m² foi concedido à iniciativa privada, em 2020, e sua administração ficou por conta da Urbia Gestão de Parques de São Paulo, uma Sociedade de Propósito Específico (SPE) criada para cuidar da gestão de seis parques paulistanos que pertenciam à prefeitura: Ibirapuera, Tenente Brigadeiro Faria Lima, Jacintho Alberto, Jardim Felicidade, Eucaliptos e Lajeado.

Samuel Llyod diretor da Urbia responsável pelo Parque Ibirapuera: exemplo de gestão para outros estados
Samuel Llyod, diretor da Urbia e responsável pelo Parque Ibirapuera: exemplo de gestão para outros estados

Como a renda do Ibirapuera é muito maior que dos demais, a concessionária fez um compromisso público de usar parte do montante para reinvestir nos outros parques menores que atendem populações periféricas.

“Para nós o resultado é muito positivo. Começamos um projeto muito desafiador e inovador já que foi a primeira vez que um parque público foi concedido à iniciativa privada sem cobrança de bilheteria. Cabe à concessionária equilibrar receitas comerciais e investimentos sem dinheiro público”, disse Samuel Llyod, diretor da Urbia e principal executivo responsável pela administração do parque, em entrevista ao BRAZIL ECONOMY.

Atualmente, a operação está no vermelho, até por conta do início da concessão que se deu em plena pandemia. Porém, para Llyod, isso não tira os méritos destes cinco primeiros anos, quando a Urbia já investiu R$ 400 milhões em obras de melhorias.

“É um projeto que começou na pandemia, então é muito desafiador já que os parques foram abrindo gradualmente. Não se podia fazer eventos, restaurantes, até mesmo o bebedouro era desligado. Após a pandemia, ele finalmente desabrochou”, afirmou.

Desde a concessão, a Urbia alcançou um dos mais altos níveis de aprovação já registrados entre seus frequentadores. Pesquisa do instituto Datafolha realizada com usuários do parque entre novembro e dezembro de 2025 apontou nota média de 9,1, em uma escala de 0 a 10, sendo que 50% dos entrevistados atribuíram nota máxima ao espaço. Além disso, sete em cada dez frequentadores (72%) afirmam que o Ibirapuera está melhor hoje do que há cinco anos, período que coincide com o início da concessão do parque.

O Ibirapuera é palco de grandes eventos, como a Bienal Internacional de Arte de São Paulo e a SP Fashion Week, além de receber shows, festivais e exposições de relevância nacional e internacional. Por isso, a Urbia investiu ainda na parte gastronômica e trouxe grandes marcas, como o Inter Café, sorveteria Frida & Mina e os restaurantes Bottega Bernacca e o Fazenda Churrascada.

O lazer ganhou destaque com a recuperação do Espelho d’Água da Praça Burle Marx e a revitalização de caminhos secundários, restauração da Ponte de Ferro e renovação dos decks do lago e melhorias paisagísticas no cachorródromo. O famoso Planetário também ganhou mais acessibilidade e novos instrumentos para atender melhor aos visitantes. Nas alamedas do parque, os carrinhos de vendedores autônomos foram padronizados com uma melhor organização do espaço.

Com ícones arquitetônicos de Oscar Niemeyer e paisagismo de Burle Marx, o Ibirapuera é tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (CONPRESP) e pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (CONDEPHAAT). Samuel Llyod explica que isso atrasa um pouco alguns dos projetos importantes previstos no contrato da concessão:

“Para 2026 continuaremos investindo e existe uma série de projetos que ainda estão em fases de aprovação pelos órgãos de tombamento. Inclusive, a conclusão do restauro do pavilhão das esculturas brasileiras. Uma outra prioridade é melhorar a exposição e experiência dos outros parques que fazem parte desta rede, mesmo que o Ibirapuera seja a força motora do ponto de vista de receita de captação de patrocinadoras”, disse.

Muito além de São Paulo

Apesar de criada para administrar parques paulistas, a Urbia vem se expandindo para diversas regiões do País e quer reforçar ainda mais essa estratégia. Atualmente é responsável também pelos Parques Nacionais de Aparados da Serra e da Serra Geral, as áreas do Cânion Fortaleza, Cânion Itaimbezinho e Rio do Boi, pontos turísticos localizados em Cambará do Sul (RS) e Praia Grande (SC), além do Parque Nacional do Iguaçu, em Foz do Iguaçu (PR), concessão em parceria com o Grupo Cataratas.

Saindo do eixo sul-sudeste, recentemente a Urbia também venceu a licitação do Parque Nacional de Jericoacoara (CE), mas ainda não iniciou a administração. “É um projeto que ganhamos a concessão há dois anos, mas existe uma questão jurídica envolvida e ainda não temos a ordem de início pelo ICMBio”, afirmou Llyod.

Briga com o Ministério Público

Nem tudo são flores na concessão do parque, mesmo com os bons índices de aprovação. O promotor Silvio Marques vem sendo a grande pedra no sapato da Urbia ao investigar uma possível superexploração financeira do espaço. Ele chegou a declarar que o parque está quase um “centro comercial” e que a concessão foi muito mal feita pelo poder público que quis apenas “se livrar” da administração.

Marques também é crítico das taxas pagas à Urbia por empresas que frequentam o parque, como as organizadoras de corridas. Para ele, a concessionária não pode cobrar para oferecer exclusividade de espaços no parque, algo feito de maneira recorrente. Samuel Llyod, por outro lado, acredita que Silvio Marques deve ter “motivos pessoais” para causar empecilhos ao trabalho da Urbia e a concessionária já notificou o Ministério Público alegando que o promotor vem causando danos reputacionais à empresa.

A atuação de Silvio Marques é mais um capítulo em algumas críticas que a concessão vem sofrendo pela sociedade civil, principalmente pelos preços cobrados no parque. Em entrevista ao BRAZIL ECONOMY, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, destacou que lida bem com as críticas, como no caso do promotor, e também de partidos políticos contrários ao processo de concessão do Ibirapuera.

“A gente nunca vai ter 100% de concordância, mas o que pesa é a avaliação da população. Se mais de 90% das pessoas avaliam como ótimo e bom demonstra que é uma política pública eficaz. Mas, tem gente que critica tudo, como o PSOL. Aí a gente nem considera”, afirmou.

Nunes destacou ainda o quanto a prefeitura economizou desde o início da concessão, feita ainda na gestão de seu antecessor, Bruno Covas.

“Tenho recebido prefeitos e governadores de todo canto do Brasil que querem copiar o modelo do Ibirapuera. E a estrutura da prefeitura está à disposição. Afinal, gastávamos R$ 23 milhões por ano com serviços de limpeza e segurança. Hoje não gastamos mais e resolvemos a outorga fixa e variável. Ele continua público e a avaliação é melhor do que quando era a prefeitura que administrava”, disse.

Samuel Llyod reitera as falas do prefeito sobre o modelo de concessão que a Urbia criou:

“É comum que governos peçam para vir ao Ibirapuera com o objetivo de conhecer nosso modelo. Recentemente o Tesouro Nacional encomendou um curso sobre modelos de concessões e ele aconteceu exatamente lá como um exemplo de projetos entre o poder público e a iniciativa privada. Por isso é que temos avaliado investir em projetos de várias naturezas, não só parques, em todo o País”.

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