A autorização do Conselho da União Europeia para a assinatura do acordo comercial com o Mercosul reacendeu as expectativas de uma transformação estrutural no mercado brasileiro de vinhos, hoje fortemente concentrado na oferta sul-americana. Para Alexandre Magno, CEO do Grupo Wine, o maior grupo de vinhos do Brasil e líder em importação, o principal beneficiado será o consumidor, que tende a encontrar maior diversidade de rótulos europeus e um ambiente de concorrência mais equilibrado. A queda de preços, no entanto, não deve ocorrer no curto prazo, já que a eliminação das tarifas será feita de forma progressiva e ao longo de muitos anos.
Segundo o executivo, o acordo precisa ser analisado com perspectiva histórica. Foram cerca de 25 anos de negociação até que ele se tornasse realidade. Para o setor de vinhos, o impacto mais relevante está no aumento da concorrência. Hoje, aproximadamente dois terços do vinho importado consumido no Brasil têm origem na América do Sul, com o Chile liderando de forma isolada, seguido por Argentina e Uruguai. A Europa responde por pouco mais de 30% das importações, percentual que chega a 37% dentro do portfólio da Wine, reflexo de uma estratégia deliberada de fortalecimento das cadeias de suprimento no Velho Mundo.
A competitividade do vinho sul-americano sempre esteve associada à escala de produção e à estrutura de custos mais enxuta, além da proximidade geográfica. Com o acordo, países como Portugal e Espanha, grandes produtores em volume, passam a ter condições de disputar espaço de forma mais agressiva no mercado brasileiro. Atualmente, o vinho europeu paga uma alíquota de importação de 27%, que será reduzida gradualmente até chegar a zero em um horizonte estimado entre oito e doze anos.
Na avaliação de Magno, não haverá impacto imediato nos preços ao consumidor. O processo de assinatura, regulamentação e implementação do acordo exige tempo, assim como a transição tarifária. O primeiro movimento esperado é estratégico, com importadores revisando contratos, fortalecendo parcerias com vinícolas europeias e ajustando suas cadeias logísticas para capturar oportunidades no médio e longo prazo.
Esse redesenho do mapa de importações ocorre em paralelo a uma mudança relevante no perfil do consumo brasileiro. O mercado começa a mostrar sinais claros de premiumização. Em 2025, os vinhos de entrada apresentaram retração, enquanto rótulos de maior valor agregado registraram crescimento. Trata-se de uma tendência observada também em outras categorias, como cerveja e chocolate, em que o consumidor passa a consumir menos volume, mas com mais qualidade.
Esse movimento orienta a estratégia da Wine, que historicamente esteve posicionada no segmento de entrada, mas vem elevando gradualmente o nível do seu portfólio. A empresa ampliou a oferta de rótulos europeus premium, como Fontanafredda e Frescobaldi, buscando não apenas reforçar sua imagem, mas também melhorar margens. Esses produtos tendem a ser os maiores beneficiados pelo acordo com a União Europeia, já que o imposto de importação tem peso proporcionalmente maior sobre vinhos de preço elevado.
O Brasil segue como um mercado emergente em termos de consumo de vinho, com cerca de 2,5 litros per capita por ano, muito distante dos mais de 40 litros observados em países europeus tradicionais. Essa diferença indica um amplo espaço de crescimento, não apenas em volume, mas também em sofisticação e valor agregado.
A mudança de foco estratégico da Wine ficou evidente em 2025. Após um ciclo de expansão acelerada entre 2019 e 2024, período em que a companhia triplicou de tamanho e se aproximou de R$ 1 bilhão em faturamento, a prioridade passou a ser rentabilidade e geração de caixa. O cenário macroeconômico, marcado por forte volatilidade cambial e juros elevados, acelerou essa inflexão.
Os resultados financeiros do terceiro trimestre de 2025 confirmam essa virada. O Grupo Wine registrou lucro líquido de R$ 7,6 milhões no período, revertendo o prejuízo de R$ 18,3 milhões apurado no mesmo trimestre de 2024. No acumulado do ano, o lucro chegou a R$ 21,9 milhões. O EBITDA atingiu R$ 34,3 milhões no trimestre, com crescimento de 129,6% em relação ao ano anterior e margem de 17,7%, avanço de 10,8 pontos percentuais.
Nos nove primeiros meses de 2025, o EBITDA somou R$ 92,8 milhões, alta de 49,1% na comparação anual. Já o EBITDA ajustado avançou 40,9% no terceiro trimestre, alcançando R$ 21 milhões. O desempenho reflete uma estratégia focada na redução de custos, ajustes nas políticas comerciais e revisão de preços. As despesas operacionais caíram 27,7% no trimestre, para R$ 68,7 milhões, com destaque para a redução dos custos de vendas e a reversão de uma provisão relacionada ao ICMS DIFAL após decisão do STF.
A receita líquida acumulada do ano apresentou retração de 3,7%, movimento considerado intencional pela companhia, alinhado à decisão de priorizar a qualidade dos resultados em detrimento do crescimento acelerado.
Paralelamente, a Wine consolidou um modelo de atuação omnicanal. A empresa deixou de depender exclusivamente do e-commerce e do clube de assinatura para ampliar sua presença no varejo físico. Hoje, cerca de metade do faturamento já vem do B2B, com atuação em supermercados, empórios e lojas especializadas, canais responsáveis por mais de 80% das vendas de vinho no Brasil.
O clube de assinatura segue como pilar estratégico por resolver uma das principais dores do consumidor brasileiro, a dificuldade de escolha diante de uma gôndola ampla e pouco familiar. Ainda assim, a empresa aposta na ampliação da disponibilidade do vinho em todos os canais, com sortimento adequado, qualidade consistente e preços mais equilibrados.
No debate global sobre álcool e saúde, Magno avalia que o impacto no Brasil ainda é limitado. O menor consumo observado entre a geração Z está mais associado à preocupação com exposição nas redes sociais do que a uma rejeição definitiva ao álcool. Nesse contexto, o vinho tende a se beneficiar por estar culturalmente associado ao consumo moderado, a refeições e a ocasiões sociais mais maduras.
Para 2026, a expectativa é de um mercado ainda cauteloso, com crescimento moderado e foco contínuo em eficiência operacional. O acordo Mercosul União Europeia surge como um fator de estímulo ao planejamento de longo prazo, sem alterar de forma imediata a realidade econômica do setor. Segundo Magno, as empresas que se prepararem desde já, com portfólio bem posicionado, parcerias sólidas e disciplina financeira, estarão em vantagem quando os efeitos do acordo começarem, de fato, a se materializar.

