Furioso, Skaf enquadra Galípolo e questiona moralidade da Selic a 15%, citando “asfixia”

Em carta obtida com exclusividade pelo BRAZIL ECONOMY, o presidente da entidade industrial afirma que já existem condições para iniciar um ciclo de afrouxamento monetário

Jaqueline Mendes
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Imagens: Flávio Florido/Sebrae-SP

Skaf afirma que empresas consideradas sólidas estão sofrendo desvalorização, enquanto a inadimplência avança

Skaf afirma que empresas consideradas sólidas estão sofrendo desvalorização, enquanto a inadimplência avança

O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, encaminhou uma carta ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em que faz um apelo direto pela revisão da política monetária e questiona a manutenção da taxa Selic em patamar elevado. No documento obtido com exclusividade pelo BRAZIL ECONOMY junto a fontes ligadas ao Banco Central, datado de 28 de janeiro, o dirigente industrial afirma que o Brasil teria atingido um “limite exaustivo” sob o atual nível de juros e sustenta que o custo do dinheiro impõe um “prejuízo severo ao povo brasileiro”.

Adotando um tom pessoal e visivelmente contrariado com a decisão do BC de manter a Selic em 15% ao ano, Skaf ressalta a relação de respeito com Galípolo e elogia sua trajetória e “espírito público”, mas argumenta que o momento exigiria ética e moral com o bem-estar social e do ambiente de negócios, além de mais “sensibilidade” por parte da autoridade monetária. Para o presidente da Fiesp, o prolongamento de juros elevados vem produzindo um quadro de “asfixia” na economia real, com efeitos diretos sobre empresas, famílias e o investimento produtivo.

Entre os pontos centrais levantados está o impacto do custo financeiro sobre o setor produtivo. Skaf afirma que empresas consideradas sólidas estão sofrendo desvalorização, enquanto a inadimplência avança “em níveis alarmantes”. Na avaliação dele, o ambiente de juros altos elimina o incentivo à expansão dos negócios. “Por que empreender, inovar ou expandir operações se o capital é mais bem remunerado na inércia da renda fixa?”, questiona na carta, ao criticar a atratividade dos investimentos financeiros frente ao risco produtivo.

Skaf também chama atenção para a diferença entre a taxa básica e o crédito efetivamente pago por empresas e consumidores. Segundo ele, o mercado e as famílias não operam à Selic, mas sim com juros acrescidos de prêmios e spreads, que tornariam o crédito “proibitivo” na ponta final. O efeito, diz, é particularmente duro para pequenos comerciantes e para o cidadão comum, que enfrentam condições restritivas para financiar capital de giro, consumo e investimentos.

Skaf sustenta ainda que as condições para iniciar um ciclo de afrouxamento monetário já estariam dadas. Na carta, afirma ser difícil encontrar justificativas para adiar cortes de juros e argumenta que a inflação brasileira não decorreria de excesso de demanda. Para ele, o atual cenário representaria uma “punição ao setor produtivo”, com o custo de capital entre os mais altos do mundo.

Outro argumento apresentado envolve as contas públicas. O presidente da Fiesp avalia que, com juros elevados, o ajuste fiscal corre o risco de se tornar uma “ficção contábil”, uma vez que as despesas financeiras pressionam o orçamento ao mesmo tempo em que o crescimento econômico e a geração de empregos são sacrificados. A leitura é que a política monetária restritiva acabaria dificultando, indiretamente, a própria consolidação fiscal.

Na parte final do documento, Skaf lança uma comparação internacional. Ele questiona como, em um ambiente global de maior estabilização, o Brasil figuraria entre os poucos países com inflação próxima de 5% e taxa real de juros em torno de 10%. A indagação, segundo ele, ecoaria em diversos setores da sociedade e reforçaria a percepção de descompasso entre o controle inflacionário e a viabilidade da atividade produtiva.

A carta termina com a oferta de um encontro institucional para discutir os rumos da economia e levar ao Banco Central a visão dos setores produtivos. A manifestação da Fiesp se soma à pressão de entidades empresariais por juros mais baixos e explicita o contraste entre a estratégia da autoridade monetária, centrada na ancoragem das expectativas de inflação, e a demanda da indústria por um ambiente de crédito menos restritivo.

Leia abaixo a carta na íntegra:

1 | Brazil Economy

2 | Brazil Economy

 

 

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