Fim da Reag colocou sistema financeiro nacional de joelhos? Economistas opinam

BRAZIL ECONOMY ouviu especialistas para entender os impactos do fim da maior gestora independente do Brasil aos olhos do mercado

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Imagens: Divulgação

Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Reag

Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Reag

No ano passado, a operação Carbono Oculto estremeceu o sistema financeiro brasileiro ao revelar a relação entre empresas do setor e o PCC por meio de lavagem de dinheiro em postos de combustíveis.

Quando no fim do ano passado estourou o escândalo do Banco Master, veio à tona que fundos administrados pela Reag estruturaram operações fraudulentas com o banco entre julho de 2023 e julho de 2024, segundo informações repassadas pelo Banco Central (BC) ao Tribunal de Contas da União (TCU).

Já nesta semana, João Carlos Mansur, que é fundador da Reag e da Companhia Brasileira de Serviços Financeiros (Ciabrasf), se tornou alvo de mandados de busca e apreensão na segunda fase da operação Compliance Zero, que combate a emissão de títulos de crédito falsos por instituições financeiras. Já na quinta-feira (15), o BC decretou a liquidação extrajudicial da Reag.

Foram grandes baques para o setor financeiro brasileiro, mundialmente conhecido como seguro e estável apesar de qualquer instabilidade política que o Brasil atravesse.

Então, fica a pergunta: até que ponto isso manchou a credibilidade dos bancos brasileiros?

Para Otaviano Canutto, ex-diretor do FMI, o risco vem da possível percepção de investidores sobre a interferência política no mercado.

“As autoridades responsáveis devem, claro, ter sua capacidade técnica avaliada e testada de vez em quando. Decisões de liquidação bancária devem seguir parâmetros técnicos, baseando-se na avaliação de ativos e da solvência patrimonial, conforme normas estabelecidas e incluindo o exame de operações que pareçam problemáticas. O risco no caso Reag/Master é o de que o processo no Brasil possa ser visto como sensível e vulnerável diante de interesses políticos sobrepondo-se à avaliação técnica”, avaliou Canutto.

Pela evidência da companhia envolvida no escândalo, o economista Ricardo Gianetti, credita uma grande crise de imagem aos órgãos que deviam fiscalizar as ações dos players do mercado financeiro.

“Todo esse escândalo serve de alerta para que o Brasil reforce sua fiscalização. Afinal, não é possível que achavam normal o Master ter essa taxa de juros. E no caso da Reag, fraudes em postos de combustíveis já aconteciam há cerca de cinco anos”, disse Gianetti, que atuou como secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior durante o governo de Fernando Henrique Cardoso.

Este cenário colocou em xeque até o quanto as empresas financeiras brasileiras estariam respeitando o Índice de Basileia, que tem como objetivo medir a saúde financeira destas instituições.

O Índice foi desenvolvido na década de 1980 para criar um modelo de fiscalização que proteja o dinheiro dos investidores e clientes dos bancos. O Brasil passou a aderir ao índice em 1994.

Gianetti ainda critica a falta de valorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o que prejudica a fiscalização da maneira que o Índice de Basileia manda.

“Existe uma falta de valorização da CVM até em termos de salários de quem trabalha lá. É preciso investir mais no órgão, como por exemplo em inteligência artificial e outras novidades para que a CVM possa fazer seu trabalho da melhor maneira”, pontuou.

Um ponto que chama mais atenção ainda é o fato de que a Reag era, até julho do ano passado, ou seja, pouco antes da Operação Carbono Oculto estourar, a maior gestora independente do Brasil, com R$ 341,5 bi sob gestão, segundo a Associação brasileira das Entidades dos mercados Financeiros e de Capitais (Anbima). Mesmo assim, nada foi detectado.

Para o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, conselheiro do presidente Lula, as falhas de fiscalização do setor ocorreram agora no Brasil, mas isso é um fenômeno mundial. Ele lembra que desde a crise global de 2008 diversos países registraram problemas dessa magnitude, inclusive os EUA com a quebradeira de bancos importantes.

“Tudo isso requer uma reavaliação da regulação e dos processos de controle do setor. Isso incumbi várias instituições. Eu vejo que aqui no Brasil temos esse déficit de regulação, mas isso deve ser muito discutido e debatido, já que o sistema capitalista sempre apresentou incidentes frequentes”, disse.

Alguns especialistas ainda destacam que o fato de tanto a Reag quanto o Master serem pouco conhecidos do grande público foi decisivo para que não houvesse um “efeito contágio”.

“São instituições conhecidas entre investidores e pessoas mais letradas, o que acaba ajudando a se tornar um risco setorial. É diferente se aparecer bancos populares, como Santander, Bradesco, Itaú ou bancos públicos”, diz Gustavo Pêssoa, especialista em finanças e sócio da Taleb Capital, em Miami.

Ele ainda acredita que os investidores que são mais qualificados e informados vão pedir uma qualidade de informação melhor, o que fará o custo do crédito subir, tanto em instituições públicas quanto privadas.

VP do Bank of China elogia ação rápida do BC

Nem tudo são críticas. Hsia Hua Sheng construiu uma carreira acadêmica de sucesso no Brasil, onde leciona na FGV há mais de 20 anos na área de finanças internacionais. Em 2020, quando o mundo tinha acabado de entrar na pandemia, foi contratado como CFO do Bank of China e, pouco depois, se tornou vice-presidente, cargo que ocupa até hoje.

Com a visão de executivo estrangeiro que atua no mercado brasileiro há algumas décadas, ele elogia a atuação do Banco Central no processo.

“A credibilidade bancária fica mais fortalecida com atuação rápida e certeira como o BC fez neste caso do Master e Reag. A regulação de Basileia recomenda atuação pró-ativa  e preventiva e presencial, exatamente como foi feito. Posso dizer que foi uma atuação exemplar”, diz Sheng.

O executivo também lembra que os investidores foram colocados como peça-chave aos olhos das autoridades brasileiras, especialmente o BC.

“A atuação e investigação foi bem rápida e antes que qualquer sinal pudesse prejudicar o investidor, mostrando que já estava acompanhando este caso. Além disso, o BC ajudou a reunir possíveis compradores das carteiras de reagrupamento deixando claro o bom preparo técnico de fiscalização da instituição”.

 

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