Acordo Mercosul–UE avança e coloca indústria, agro e varejo em novo jogo global

Assinatura do tratado após 26 anos de negociações cria a maior área de livre comércio do mundo, amplia acesso ao mercado europeu e impõe novos desafios regulatórios a empresas brasileiras

Jaqueline Mendes
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Imagens: Ilustração gerada por IA

Tratado negociado desde 1999, o acordo cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo

Tratado negociado desde 1999, o acordo cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo

O sinal verde político dado pelos países da União Europeia nesta sexta-feira, 9 de janeiro, para a formalização do acordo de livre comércio com o Mercosul recolocou o tema no centro do debate econômico brasileiro e acelerou a reação de entidades setoriais, especialistas e agentes públicos. A assinatura está prevista para segunda-feira, 12 de janeiro, em Assunção, no Paraguai, mas o percurso até a entrada em vigor ainda depende de ratificações internas e pode enfrentar turbulências políticas na Europa, inclusive com ameaça de judicialização e resistência organizada de setores agrícolas.

Tratado negociado desde 1999, o acordo cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, integrando um mercado potencial estimado em cerca de 718 milhões de consumidores e um PIB aproximado de US$ 22 trilhões. Na prática, prevê liberalização tarifária escalonada para bens industriais e agrícolas, além de capítulos considerados modernos, como sustentabilidade, compras governamentais, propriedade intelectual e novas tecnologias. A repercussão no Brasil, porém, vai além do entusiasmo com o tamanho do mercado: a discussão passa a ser sobre quem captura os ganhos e quais setores terão de correr para adaptar processos, rastreabilidade, conformidade e padrões ambientais a um dos ambientes regulatórios mais exigentes do mundo.

A aprovação política europeia, segundo noticiários internacionais, foi obtida por maioria qualificada, apesar de votos contrários relevantes e de um movimento liderado pela França para ampliar salvaguardas e controles de importação em produtos sensíveis. Esse desenho, ao mesmo tempo em que destrava a assinatura, também deixa claro que a implementação do acordo tende a ser acompanhada de forte vigilância política e regulatória, sobretudo em temas ambientais.

No Brasil, uma das reações mais imediatas veio da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), que classificou a conclusão do acordo como um marco estratégico para o setor. A entidade argumenta que o tratado amplia o acesso a um dos maiores mercados consumidores do mundo, estimula investimentos e fortalece a inovação, com destaque para bioeconomia, química de base renovável e energia limpa.

“O acordo representa uma oportunidade concreta de reposicionar a indústria química brasileira em cadeias globais de maior valor agregado. Ele amplia o acesso a mercados, incentiva o intercâmbio tecnológico e cria um ambiente mais previsível e moderno para investimentos”, afirmou André Passos Cordeiro, presidente executivo da Abiquim, ao defender que a convergência regulatória e a incorporação de temas como sustentabilidade, propriedade intelectual e comércio leal elevam padrões de governança e aproximam o setor das exigências europeias.

Na leitura da Abiquim, o acordo chega em um momento em que o Brasil tenta combinar inserção internacional, diversificação exportadora e reindustrialização baseada em inovação e baixo carbono. Para um setor intensivo em tecnologia e integrado a cadeias globais, a perspectiva é que o pacto funcione como uma espécie de passaporte regulatório. Empresas que dominarem certificações, rastreabilidade e critérios ESG podem ganhar espaço não apenas como exportadoras, mas também como fornecedoras em cadeias produtivas europeias. Em contrapartida, o custo de adaptação tende a ser elevado, com exigência crescente de conformidade ambiental e transparência de dados de produção.

Têxtil e confecção miram cooperação

A cadeia têxtil e de confecção também reagiu de forma positiva. A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT) declarou satisfação com a aprovação política europeia, afirmando que o avanço abre caminho para assinatura e posterior ratificação, após mais de duas décadas de negociações.

A entidade lista oportunidades em cinco frentes: expansão do comércio de manufaturados e têxteis, aumento de investimentos e cooperação tecnológica, cooperação em sustentabilidade com aproximação do bloco europeu em debates regulatórios do setor, diálogo cultural e fortalecimento de setores criativos, além de qualificação e desenvolvimento de pessoas. A ABIT também ressalta que participou do processo de negociação e construiu entendimentos com a Euratex, sua contraparte europeia, em especial sobre regras de origem e cronogramas de desgravação, desenhados produto a produto.

O setor, porém, enxerga o acordo com pragmatismo. A abertura do mercado interno a itens de maior valor agregado pode elevar a competição doméstica, especialmente em segmentos em que a Europa tem tradição industrial e marcas consolidadas. Por isso, o ganho para o Brasil tende a depender de investimento em produtividade, design, materiais técnicos e sustentabilidade, agenda que já vem sendo puxada por regulamentos europeus em economia circular e rastreabilidade.

Varejo e consumo

Para o varejo, a repercussão se concentra na redução tarifária e no efeito direto nos preços ao consumidor. Especialistas apontam um movimento em duas direções. De um lado, produtos europeus tendem a ficar mais competitivos no Brasil ao longo do cronograma de desgravação, ampliando oferta e pressionando preços em categorias como vestuário, cosméticos, perfumaria, eletrônicos e bens duráveis. De outro, o aumento da facilidade de exportação pode levar parte da produção nacional a ser direcionada ao mercado externo, reduzindo a oferta doméstica de determinados itens e pressionando preços em nichos específicos.

“Por um lado, a redução tarifária tende a tornar os produtos europeus mais competitivos no varejo brasileiro. Por outro, a maior facilidade de exportação pode levar fornecedores a direcionarem parte da produção ao mercado externo”, avaliou Ricardo Inglez de Souza, sócio do IW Melcheds Advogados e especialista em Comércio Internacional e Direito Econômico.

Esse efeito pode ser mais evidente em cadeias com capacidade exportadora já estruturada e em produtos cuja demanda externa pague prêmio, sobretudo quando combinada à valorização de padrões ESG e certificações ambientais. O risco, no curto prazo, é o varejo enfrentar volatilidade de oferta e um choque competitivo em segmentos em que a indústria local é mais sensível à concorrência externa.

Agro comemora, mas teme barreiras

No agronegócio, o avanço do acordo é visto como positivo e, ao mesmo tempo, cercado de cautela. O economista chefe da Ecoagro, Antonio da Luz, afirmou que a criação de uma grande zona de livre comércio tende a ser um movimento grandioso para as duas partes, porque nada gerou mais progresso ao longo da história do que o comércio entre nações. Mas ele chama atenção para riscos políticos na etapa europeia seguinte e para o protecionismo ambiental, com salvaguardas em itens agrícolas e exigências sanitárias e ambientais mais rigorosas.

O ponto sensível é que parte da resistência europeia ao acordo está concentrada exatamente no temor de concorrência agrícola do Mercosul, com debates que misturam renda do produtor europeu, subsídios, padrões de defensivos e a agenda ambiental. A imprensa europeia e agências internacionais destacaram que França e outros países contrários seguem mobilizados, enquanto a Comissão Europeia buscou amortecedores, incluindo medidas de controle de importação e instrumentos de mitigação para agricultores.

Na prática, o risco não é apenas tarifário. Mesmo com tarifas reduzidas, barreiras não tarifárias podem ganhar peso, como requisitos de rastreabilidade, regras de desmatamento, padrões de resíduos e mecanismos ligados à política climática europeia. O acordo, portanto, pode ampliar o mercado, mas também elevar o custo de conformidade e a necessidade de organização documental e operacional para exportadores brasileiros.

ApexBrasil projeta salto diplomático

A leitura do governo e de instituições de promoção comercial é de que o acordo se tornou peça estratégica em um mundo de fragmentação do comércio e disputas geopolíticas. A ApexBrasil afirmou que o pacto cria um mercado de quase US$ 22 trilhões e pode gerar aumento de US$ 7 bilhões nas exportações brasileiras para a União Europeia, com potencial de ampliar a participação do bloco europeu na pauta exportadora e impulsionar investimentos.

O presidente da ApexBrasil, Jorge Viana, e o chefe de assuntos estratégicos da ApexBrasil Europa, Aloysio Nunes, destacaram o caráter político e institucional do resultado, atribuindo protagonismo ao governo brasileiro e à atuação em Bruxelas. Segundo a agência, além do agronegócio, haverá oportunidades para segmentos industriais com redução de tarifas em itens como máquinas, equipamentos de transporte e outros produtos de maior valor agregado, além de insumos relevantes para a indústria.

A mensagem é clara: o acordo não é apenas sobre exportar mais. É também sobre atrair investimento produtivo, elevar padrões, ampliar densidade tecnológica e integrar cadeias com maior valor agregado.

O acordo muda o jogo, mas não de forma imediata

Embora a assinatura prevista para 12 de janeiro aumente a sensação de desfecho, a fase decisiva tende a ser a de ratificação e implementação. A Reuters registrou que, apesar do aval dos países da UE para assinar o tratado, a aprovação pelo Parlamento Europeu ainda será necessária, e o tema deve seguir enfrentando oposição política e pressão de setores sensíveis.

Essa etapa importa porque define o calendário real de entrada em vigor. Na própria arquitetura do acordo, existe a possibilidade de aplicação bilateral quando as partes concluírem seus processos internos, o que abre espaço para uma implementação em ritmos diferentes entre os países do Mercosul, conforme avancem as ratificações.

Do lado empresarial, a repercussão está migrando rapidamente do debate macro para a agenda prática. O que muda na origem do produto. Como comprovar rastreabilidade. Quais certificações serão exigidas. Como se preparar para auditorias e padrões europeus. Quais cadeias têm maior potencial de ganho imediato, como frutas e alimentos específicos, e quais devem sentir mais rapidamente a pressão competitiva, como automotivo e química em segmentos mais expostos.

Uma nova disputa por competitividade

Em síntese, a repercussão do avanço do acordo Mercosul União Europeia no Brasil tem dois níveis. No nível político e estratégico, ele é tratado como símbolo de reinserção internacional, diversificação de parcerias e resposta a um comércio global mais tenso, com blocos buscando reduzir dependências e redesenhar cadeias. No nível microeconômico, ele acelera uma corrida por eficiência, conformidade e capacidade de competir em um mercado onde tarifa é apenas parte do jogo.

Para a indústria química, o acordo é visto como chance de reposicionamento e de integração a cadeias de maior valor, com ESG como vetor competitivo. Para o têxtil, ele combina oportunidade comercial com exigência de inovação, regras de origem bem definidas e alinhamento a padrões ambientais. Para o varejo, traz importados mais baratos e um choque de concorrência que pode remodelar preços e oferta. Para o agro, abre acesso, mas sob a sombra de salvaguardas e barreiras ambientais que podem limitar a captura plena dos ganhos.

O consenso possível, por ora, é que o acordo inaugura uma janela relevante, mas não automática. A assinatura na segunda-feira, em 12 de janeiro, deve consolidar um marco político. A materialização econômica, porém, será definida por quem conseguir traduzir o texto do tratado em capacidade operacional, produtividade, conformidade e estratégia de inserção em cadeias globais.

 

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