Novo CEO da ABAG defende biocompetitividade após acordo com UE e critica politização

Para Ingo Plöger, que assumiu em janeiro o comando da Associação Brasileira do Agronegócio, vantagens do tratado vão muito além do comércio de alimentos

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Imagens: Divulgação

Ingo Plöger, novo presidente da ABAG: agronegócio não deve ser visto como inimigo do meio ambiente

Ingo Plöger, novo presidente da ABAG: agronegócio não deve ser visto como inimigo do meio ambiente

O engenheiro Ingo Plöger é membro dos conselhos de grandes empresas, como Sonda, Bosch, Volkswagen e Editora Melhoramentos. Desde janeiro deste ano, se tornou presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), uma entidade com mais de 80 companhias associadas que atuam em todos os elos da cadeia produtiva, do campo à indústria, distribuição e serviços.

Ele chega exatamente na iminência da assinatura do tratado de livre-comércio do Mercosul com a União Europeia que, depois de mais de duas décadas de negociações, finalmente será formalizado neste sábado (17) em cerimônia no Paraguai.

“Agora não basta comemorar, é preciso reforçar nossa visão para os próximos 25 anos. Fizemos um golaço e teremos dificuldades geopolíticas daqui em diante, como mostra os EUA e suas tarifas”, disse o executivo em entrevista ao BRAZIL ECONOMY.

Para acertar os últimos detalhes, o presidente Lula se encontrou esta semana com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, no Rio de Janeiro. Quando entrar em vigor por completo, serão 720 milhões de consumidores contemplados e um PIB de US$ 22 trilhões de dólares, somando União Europeia e Mercosul.

Ele acredita que a sociedade discute muito sobre como o acordo vai mexer com o comércio de produtos agrícolas, mas esquece de outras áreas que serão impactadas, especificamente a biocompetitividade, um conceito que vem ganhando tração no mercado por meio da produção de alimentos com base no uso inteligente de recursos naturais, unindo produtividade, sustentabilidade e investimentos tecnológicos.

“O cenário global atual é de protecionismo e o acordo faz com que tenhamos a chance de trabalhar nossa biocompetitividade em relação aos países europeus”. Para Ingo, a biomassa brasileira é altamente estratégica, especialmente na produção de combustível sustentável nos setores aéreos e marítimo, que são grandes demandas do mercado.

Ou seja, a cana e o milho produzido no Mercosul não podem ser vistos apenas como alimentos que chegarão na Europa, mas também nos derivados em termos de energia. “Teremos novos capítulos na mobilidade urbana, onde o Brasil e Argentina se tornaram referência em veículos flex, e a União Europeia tem muito o que aprender conosco”, disse Plöger.

O executivo se queixa da visão que o brasileiro têm da relação do agronegócio com meio ambiente. “É um setor que em muitos pontos ainda não foi entendido. A gente atua ao lado do meio ambiente, mas somos vistos como inimigos”, afirmou.

Ao mesmo tempo, o executivo acredita que o agronegócio sul-americano tem muito a aprender com a experiência europeia. “As máquinas e equipamentos europeus, como colheitadeiras, tem ótimas potencialidades e agora o mercado brasileiro terá maior acesso a eles. Sem falar que o agronegócio deles é referência em termos de logística fluvial e isso pode ser ensinado para os países do Mercosul.”

Críticas à politização

O agronegócio é um dos setores mais “politizados” da economia brasileira, especialmente nos últimos anos. Entre os principais motivos, o apoio de artistas sertanejos, representantes de empresas da área, ao então presidente Jair Bolsonaro. Porém, até o mais bolsonarista dos empresários sabe que o acordo com a União Europeia é favorável aos seus negócios.

“Essa história de que o agro como um todo é contrário ao presidente Lula é uma ficção. Qualquer brasileiro tem suas opções políticas e no agronegócio a gente tem pessoas com opiniões diferentes. Essa ideia de que todos os empresários do setor são anti-Lula tem a ver com a distribuição regional onde o setor está, já que a maior parte atua no centro e no sul, com populações mais bolsonaristas. Quando o agronegócio conquistar mais o norte e o nordeste, isso pode mudar”, disse.

Por mais que o presidente Lula queira trazer para si o rótulo de responsável pela assinatura do acordo, o presidente da ABAG lembra que ele teve grande importância, até por estar no terceiro mandato, mas dos últimos 30 anos para cá todos os presidentes do Brasil tiveram participação nas negociações.

“Esse acordo já passou por diversos governos. Eu pessoalmente entreguei em 1999 um documento ao presidente Fernando Henrique Cardoso na Cúpula das Américas, no Rio de Janeiro. De lá para cá, todos os presidentes sustentaram essa ideia, alguns mais outros menos”, disse.

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