Anderson Rubinatto trabalhava descontente no departamento financeiro de um hospital. O ano era 2000. Um fax recebido em seu ramal mudou sua vida. E a mensagem nem era destinada a ele, naquele aparelho que hoje as pessoas com menos de 30 anos mal sabem o que é ou para que serve. As cópias das folhas que saíam do equipamento eram destinadas a um médico amigo de Rubinatto. E não tratavam de qualquer consulta ou exame. Era um contrato de patrocínio de uma estatal à Confederação de Tênis, entidade da qual o médico era conselheiro. Ao levar os papéis ao profissional de saúde, Rubinatto foi interpelado: “Você quer sair mesmo do hospital?”, indagou. A resposta foi categórica: “Com certeza”.
A tréplica mudaria a vida daquele rapaz que começava sua carreira em administração de empresas. “Então gerencie esse contrato”, ordenou o médico. Foi a saída de Rubinatto do segmento de saúde e sua entrada no esporte. Um sonho, mas para o qual não estava preparado. Ainda mais para atuar em uma instituição com dezenas de títulos protestados e um endividamento relevante. Nada disso foi obstáculo para aquele jovem recém-formado pela Universidade Nove de Julho.
Corta para 2025. Rubinatto é CEO da Goolaço, empresa que fundou naquele mesmo ano de 2000 para atuar como terceirizada no ramo esportivo. Apenas em 2025, foram 30 campeonatos, dois deles encerrando o calendário do ano: os torneios internacionais de beach tennis Sand Series Tour Finals, que reuniram as oito melhores duplas do mundo, e a Copa do Mundo de Seleções, ambos realizados em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Para se ter dimensão da operação, somados, os eventos movimentaram 450 atletas, 80 profissionais de staff, 680 diárias de hotel e 4.000 refeições fornecidas.
Esses números refletem um dos melhores desempenhos financeiros da Goolaço em duas décadas e meia de história — não em faturamento bruto, mas em rentabilidade.
Neste ano, foram R$ 40 milhões de receita, com margem entre 40% e 50%, enquanto o setor de eventos esportivos opera, em média, com margens de 15%. “Já tivemos anos em que faturamos R$ 60 milhões, R$ 80 milhões, mas não obtivemos resultados tão expressivos como os de agora”, afirmou.
Em 25 anos, a Goolaço promoveu mais de 400 eventos em diversas modalidades como futebol, tênis, golfe, corrida de rua, beach tennis, beach soccer, vôlei de praia, futevôlei e até patinação no gelo, envolvendo cerca de 100 mil atletas.
Entre os principais eventos já promovidos estão grandes nomes do calendário nacional e internacional. Além de relevantes torneios de beach tennis, realizou, nos últimos anos, o Brasil Open de Tênis, a Copa Davis, a Ladies Cup, o Campeonato Brasileiro de Beach Soccer e o Campeonato Paulista de Futevôlei, entre muitos outros.
Divisor de águas com a P&G
Entre os muitos projetos, alguns foram especiais, como um case de patrocínio junto à P&G. A Goolaço estava em negociação com a gigante de bens de consumo para formalizar um projeto especial. A companhia queria fazer algo relacionado ao tênis e já mantinha uma relação comercial global com o tenista suíço Roger Federer.
Dessas reuniões surgiu a ideia de criar o Gillette Federer Tour, que teve três edições: uma em São Paulo, uma em Buenos Aires e outra em Quito. “Virou uma loucura e cresceu também para o feminino, com a participação da americana Serena Williams, da russa Maria Sharapova e da bielorrussa Victoria Azarenka”, relembrou o executivo.
Foi essa experiência bem-sucedida que Rubinatto levou à P&G para o UFC (Ultimate Fighting Championship), a maior organização de MMA (artes marciais mistas) do mundo. Mas, nesse caso, havia um problema. A Gillette evitava associar sua imagem a um esporte de luta em que o sangue, nos atletas e no tablado do octógono, é algo corriqueiro.
Foi então que entrou na jogada (ou melhor, no ringue) a marca Duracell, também da P&G. A imagem da pilha alcalina foi estampada nas colunas do octógono. Mais um projeto bem-sucedido.
A ponto de a Gillette repensar seu posicionamento e também apoiar o UFC, já que o lifestyle do esporte, que envolve corpos atléticos e frequentadores de academia, tornou-se um atrativo de marketing. “Pegamos a popularidade do Anderson Silva (brasileiro multicampeão do UFC) e surfamos naquela onda”, destacou Rubinatto. Talvez a melhor expressão fosse “encaixamos um katagatame”, por se tratar de lutas.
Flexibilidade é peça-chave
Rubinatto observa, sem modéstia, que ajudou no desenvolvimento de modalidades que careciam de gestão e investimento. “Conseguimos recursos para elas”, afirmou.
Mas foi uma via de mão dupla, pois as próprias modalidades estavam abertas ao novo, ao diferente. Foram flexíveis para absorver projetos de apoio e patrocínios fora da caixinha.
No ano passado, por exemplo, a Goolaço arquitetou com a Stanley uma ação criativa em que um de seus produtos (um copo térmico gigante) foi instalado como cabine do árbitro em um torneio de beach tennis. Algo inimaginável em um campeonato de vôlei, por exemplo.
Parcerias foram base para voo solo a partir de 2018
Para promover esses campeonatos de expressão, Rubinatto acumulou experiências ao lado de grandes nomes do esporte brasileiro, como a agência de marketing esportivo Koch Tavares (de Thomaz Koch e Luis Felipe Tavares), a Traffic Sports (de J. Hawilla) e a Sport Promotion (de Kiko Leal e Luciano do Valle).
Esses foram os principais parceiros até 2018, quando o CEO da Goolaço optou por um voo solo, com sua própria agência assumindo o protagonismo dos torneios. A partir daí, passou a atuar em quatro pilares: organização de eventos esportivos, assessoria para marcas que pretendem investir no esporte, intermediação de patrocínios e consultoria para empresas utilizarem recursos da Lei Agnelo Piva.
Esse último pilar será um dos vetores de crescimento da companhia, na avaliação de Rubinatto. Isso porque a lei de incentivo – que permite às empresas destinarem parte de seus impostos para atividades esportivas – tem sido fortalecida.
Até o ano passado, era permitido aplicar até 1% do imposto de renda. Em 2025, o limite subiu para 2%. E, para 2026, será de 3%. “É muito difícil um setor triplicar seu mercado endereçável em apenas dois anos. Vejo, portanto, um início de ciclo muito promissor, com bons produtos para serem trabalhados na busca por esse tipo de recurso”, analisou o CEO da Goolaço.
Este ano também será de estruturação para projetos que serão executados em 2027. “Servirá para a captação de novos projetos, pois sempre trabalhamos em ciclos. Estamos idealizando produtos para novos parceiros, projetos que vão ser relevantes para nós lá na frente”, concluiu Rubinatto, hoje contente, perto das quadras, dentro do esporte, longe do hospital.

