O mundo acordou perplexo com o ataque de Donald Trump à Venezuela e a captura de Nicolás Maduro. E não deve parar por aí.
Na visão de Gunther Rudzit, ex-conselheiro da Embaixada Brasileira em Washington e da missão do Brasil na OEA, os regimes de esquerda em Cuba e na Nicarágua podem ser sufocados economicamente com a interrupção do fornecimento de petróleo venezuelano agora que Maduro saiu do poder.
Para entender o impacto da invasão norte-americana na Venezuela, o BRAZIL ECONOMY conversou com Gunther, uma das principais autoridades do País quando o assunto é Segurança Internacional e que atualmente leciona na ESPM.
Confira:
O ataque norte-americano à Venezuela tem o poder de afetar politicamente ou economicamente a América Latina?
Se olharmos hoje o mapa político da região, a grande maioria dos novos governos são de centro-direita ou direita. Eu vejo, por exemplo, o novo governo da Bolívia, Chile e Peru que vai tentar se aproximar dos EUA, enquanto a Argentina e Equador já se aproximaram.
Acredito que essa intervenção econômica não afetará a América Latina como um todo, primeiro por esse quadro político, segundo porque o maior parceiro comercial de quase toda a região é a China e os EUA não conseguem substitui-los. Esse é o maior desafio do governo Trump. Então, vejo que intervenção econômica vai ter baixo impacto aqui na região.
O senhor acredita que o preço do petróleo deve disparar após o ataque de hoje?
O preço do petróleo não deve subir, já que a Venezuela não é grande fornecedora global do produto. Ela é a principal fornecedora em relação a China que é hoje o maior parceiro comercial e comprador do petróleo venezuelano.
Mas, as perspectivas são de que o mercado está com uma produção acima do consumo e portanto não deve ter uma variação muito grande do preço do petróleo e sim algumas pequenas variações. Não vejo a possibilidade de voltar para a casa dos US$ 70 muito menos dos US$ 80.
Em 2002 houve um golpe de Estado na Venezuela que foi mediado pelo governo brasileiro. O senhor acha que agora o governo Lula consegue mediar a crise instaurada entre Trump e Maduro?
Não consegue até por conta do total interesse americano, principalmente de Marco Rubio, de tirar Nicolas Maduro. Então, não vejo qualquer governo tendo capacidade e interesse de mediar esse conflito. A prova disso é que o governo dos EUA não iria recuar enquanto Maduro estivesse no poder.
O senhor acha que Maduro poderia ter negociado uma outra saída que evitasse o ataque?
Eu não via espaço para negociação. Trump e Maduro tiveram uma conversa amena recentemente, mas Trump não deu opções ao venezuelano.
A China é o grande fator chave da invasão norte-americana?
Sim. A doutrina de Trump mostra que não vão deixar setores estratégicos sob controles de potências extrarregionais. Não fala diretamente em China, mas é direcionada a ela.
E como a Venezuela se encaixa nessa doutrina?
No caso da Venezuela, as pessoas estão olhando muito quais serão as reações de Vladmir Putin, mas estão esquecendo de Xi Jinping. Para ele, se o próximo governo no lugar de Maduro mantiver as vendas do petróleo para a China, não tem qualquer problema. Mas, nem China ou Rússia têm capacidade de interferir militarmente neste conflito.
Então, passa em primeiro lugar sim pela presença chinesa na economia venezuelana e do acesso das petroleiras americanas ao petróleo da Venezuela já que muitas refinarias nos EUA foram feitas para refinar o petróleo ultra pesado do país latino.
Não é essencial para os EUA, ainda mais hoje que eles são até um pequeno exportador de petróleo, mas ter acesso à maior reserva do mundo, dentro da estratégia de segurança nacional norte-americana, é fundamental.
A condenação de Lula e do governo brasileiro ao ataque na Venezuela pode fazer Trump retomar as tarifas contra o Brasil?
As posturas do presidente Lula foram previsíveis e protocolares. Até como vários governos europeus também fizeram. Se ele não escalar o discurso contra os EUA, não vejo uma mudança de relação entre Casa Branca e Planalto por causa da Venezuela.

