A vitrine está montada, o fluxo de pessoas entra na loja, os vendedores abordam, os produtos são provados, testados e comparados. No fim, porém, boa parte dessas interações termina do mesmo jeito: o cliente vai embora sem comprar. É nesse “vazio”, onde o varejo perde conversão e margem sem entender exatamente por quê, que a Aliado (se escreve Alia.do) quer atuar.
Em fase inicial de estruturação, a startup liderada por André Franco desenvolveu um sistema de inteligência artificial voltado a otimizar vendas em lojas físicas a partir de um diagnóstico objetivo do atendimento: a proposta é capturar e organizar sinais do processo comercial, identificar padrões de “não venda” e gerar recomendações práticas para treinar vendedores, corrigir abordagens e ajustar a estratégia no ponto de venda.
O projeto também começou a chamar atenção de investidores. Segundo informações de fontes ligadas à negociações, obtidas com exclusividade pelo BRAZIL ECONOMY, Romero Rodrigues, empreendedor, fundador do site Buscapé, managing partner da Headline na América Latina e head de venture capital da XP, está se envolvendo com a companhia como um dos principais nomes do time de investidores, num movimento que reforça o apetite do mercado por teses que resolvam dores estruturais do varejo com uso aplicado de IA. Procuradas, as partes não comentaram a negociação, conduzida em sigilo. O valor do investimento também não foi revelado.
A ambição da Aliado é simples de explicar e difícil de executar: entender, com granularidade, o motivo pelo qual o cliente não fecha a compra. Em vez de depender apenas da percepção do gerente, do “feeling” do vendedor ou de relatórios genéricos, o sistema busca transformar a operação de loja em um ciclo contínuo de melhoria: detectar falhas recorrentes, apontar onde a conversa se rompe e sugerir ajustes imediatos.
Na prática, a lógica passa por organizar o atendimento com perguntas orientadas por IA: o cliente entrou por preço, por dúvida técnica, por insegurança, por falta de variedade ou por desalinhamento entre expectativa e oferta? A partir desse mapeamento, a ferramenta indica onde aprimorar o discurso comercial, ajustar scripts, reforçar treinamentos e lidar melhor com objeções recorrentes. A Aliado é reconhecida por programas líderes em tecnologia, como Cubo do Itaú, Nvidia e AWS.
Ainda em estágio inicial, a Aliado já começa a se aproximar de grandes players do varejo. A rede Pernambucanas está entre as empresas que irão experimentar a nova tecnologia, em um movimento que pode servir como vitrine relevante para a validação do modelo em escala.
Por se tratar de uma startup em fase inicial, fontes próximas ao projeto indicam que os testes devem ocorrer de forma gradual, com escopo controlado, justamente para comprovar ganhos reais de conversão, produtividade dos vendedores e qualidade do atendimento antes de uma eventual expansão.
O discurso da empresa aponta para um benefício direto: acelerar o aprendizado dos times de loja e reduzir desperdício operacional. Em vez de treinamentos genéricos e espaçados, a IA promete orientar uma capacitação contínua, baseada no que efetivamente acontece no atendimento diário.
Esse tipo de aplicação ganha relevância num momento em que o varejo físico volta ao centro da estratégia omnicanal. Com o custo de capital elevado e a pressão por eficiência, melhorar conversão e extrair mais valor de cada interação em loja virou agenda prioritária para grandes redes.
O que o movimento sinaliza
A aproximação de Romero Rodrigues e o interesse de grandes varejistas apontam para dois vetores claros no mercado. Primeiro, a de IA aplicada, com retorno mensurável (soluções que atacam diretamente conversão, produtividade e margem tendem a ganhar tração mais rápido) e a do varejo físico como nova fronteira de dados – depois da maturidade do e-commerce em analytics, as lojas passam a ser revisitadas como ambientes ainda pouco explorados em inteligência operacional.
Para a Aliado, o desafio agora é transformar testes em casos concretos de sucesso, provar impacto econômico e escalar sem perder consistência. Para o mercado, o recado é direto, a de que próxima onda de Inteligência Artificial pode não estar apenas no digital, mas, cada vez mais, no balcão da loja.

