Nos próximos cinco anos, o setor de finanças corporativas poderá não se parecer em nada com o que conhecemos hoje. De acordo com um novo estudo da consultoria global Gartner, a função financeira está diante de uma transformação profunda, impulsionada por forças tecnológicas, regulatórias e organizacionais. A Inteligência Artificial (IA) aparece no centro desse cenário, mas, junto com promessas de ganhos em eficiência e automação, surge um risco inédito: a chamada “empresa solitária”.
A Gartner prevê que, até 2030, um terço das aplicações corporativas já terá agentes autônomos de IA embutidos. Mais do que isso: 15% das decisões diárias nos departamentos financeiros serão tomadas automaticamente por essas ferramentas. O papel dos profissionais humanos, portanto, será redesenhado: em vez de executar tarefas repetitivas, eles passarão a supervisionar algoritmos, colaborar com sistemas e até mesmo atuar como “coaches” de agentes digitais.
Esse movimento não é algo distante. Já em 2028, 70% das funções financeiras deverão usar análises baseadas em IA combinadas a dados de dispositivos conectados para decisões em tempo real, principalmente em áreas como custos operacionais e gestão de caixa. “Essa automação permitirá menos tempo gasto em trabalhos rotineiros e mais foco em questões estratégicas”, explica Brian Stickles, executivo da Gartner Finance.
Mas há um alerta. A Gartner chama de “lonely enterprise” (empresa solitária) o risco de que essas mudanças, se não forem bem conduzidas, resultem em um ambiente de trabalho mais isolado para os profissionais de finanças. Isso porque a especialização crescente, somada às tecnologias de trabalho remoto, pode gerar desconexão entre equipes e reduzir a interação humana.
Ferramentas de autosserviço e automação, apesar de aumentarem a produtividade, criam silos e distanciam a área financeira do contexto mais amplo dos negócios. Na prática, isso pode comprometer a qualidade dos conselhos estratégicos que os CFOs e suas equipes oferecem às empresas.
Um artigo publicado na Harvard Business Review reforça o mesmo ponto: em meio à corrida pela eficiência com IA, as organizações não podem esquecer que seu maior ativo ainda são as pessoas. Preservar relacionamentos, conexões interpessoais e colaboração entre equipes será crucial para manter a saúde das empresas e de seus funcionários.
Escassez de talentos: um risco adicional
A transformação tecnológica se soma a outro desafio: a iminente crise de talentos em finanças. A maioria dos contadores (CPAs) está próxima da aposentadoria, e menos profissionais jovens têm escolhido seguir nessa carreira. O resultado será uma base de talentos reduzida, forçando as empresas a buscar perfis híbridos, que combinem finanças e tecnologia.
“Esse movimento deve acelerar a demanda por profissionais com habilidades em dados, IA e TI, além de competências financeiras tradicionais”, destaca o relatório.
Outras forças transformadoras
Além da IA e da escassez de talentos, a Gartner identifica outras tendências que remodelarão a área até 2030:
- Do-it-yourself tech (tecnologia faça-você-mesmo): maior autonomia dos funcionários para configurar e usar sistemas financeiros.
- Fim da customização: softwares padronizados substituirão soluções altamente personalizadas, forçando adaptação.
- Complexidade das organizações matriciais: estruturas mais interconectadas exigirão habilidades de navegação política e técnica.
- Regulação em constante mutação: acompanhar normas globais e locais será um desafio permanente.
O papel dos CFOs: gestão da mudança
Para a Gartner, o futuro da função financeira dependerá da capacidade dos CFOs de liderar a gestão da mudança. O desafio não será apenas tecnológico, mas também humano: como garantir que os profissionais se sintam preparados, engajados e apoiados nesse processo?
Um relatório recente do LinkedIn mostrou que metade dos profissionais entrevistados considera que aprender sobre IA é como assumir um segundo emprego. A pesquisa também revelou um aumento de 82% nas postagens sobre sobrecarga e estresse em 2025. Um terço dos trabalhadores admitiu sentir vergonha por não dominar o tema, e 35% disseram ter medo de falar sobre IA no trabalho para não parecerem desinformados.
Esses dados reforçam que, sem uma estratégia de comunicação clara, capacitação contínua e valorização das pessoas, a adoção da IA pode gerar desengajamento e insegurança, mesmo em um ambiente de maior eficiência.
Os próximos anos prometem ser os mais transformadores da história recente das finanças corporativas. A IA trará novas oportunidades de produtividade, mas também exigirá liderança empática e visão estratégica por parte dos CFOs.
A grande questão não é apenas como automatizar processos, mas como preservar o fator humano em um ambiente cada vez mais digital. Para a Gartner, o futuro do setor dependerá da capacidade de equilibrar eficiência e conexão humana, evitando que a “empresa solitária” se torne realidade.