A COP 30 na Amazônia e o grande risco de se tornar um camarote VIP climático

Realizar a conferência no coração da Amazônia é um convite para que o mundo veja de perto a urgência de proteger o maior bioma tropical do planeta. Mas quando barreiras econômicas se sobrepõem à causa, o efeito é contrário

Eliana Camejo*
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Imagens: Divulgação

Eliana Camejo é conselheira de Administração e vice-presidente da Sustentalli

Eliana Camejo é conselheira de Administração e vice-presidente da Sustentalli

Se o palco esvazia, o impacto se dissolve. Esse é o alerta que a COP 30 precisa ouvir. A conferência, marcada para este ano em Belém, promete colocar a Amazônia no centro do debate climático global, mas enfrenta um obstáculo que nada tem a ver com ideologia ou disputas diplomáticas: a logística e os preços.

Especialmente os valores da rede hoteleira, que dispararam diante da expectativa de alta demanda, ameaçam afastar líderes e delegações inteiras. Foi o que ocorreu recentemente com o presidente da Áustria, Alexander Van der Bellen, que cancelou sua participação, entre outros países. Mais do que uma decisão isolada, é um sinal de que, se o acesso ao evento se tornar restrito, o impacto simbólico e político da COP na Amazônia será enfraquecido.

Belém foi escolhida por seu valor emblemático. Realizar a conferência no coração da Amazônia é um convite para que o mundo veja de perto a urgência de proteger o maior bioma tropical do planeta. Mas quando barreiras econômicas se sobrepõem à causa, o efeito é contrário.

No caso da rede hoteleira, o comportamento de parte do setor revela um padrão recorrente no Brasil: a visão de ganho imediato prevalecendo sobre o potencial de retorno de longo prazo. Receber líderes mundiais, representantes de ONGs, empresas e especialistas é muito mais do que um evento de alguns dias, é uma chance de projetar a cidade e o país como protagonistas de uma pauta vital para o planeta. Quando o preço se torna proibitivo, o acesso se restringe, e o símbolo perde força.

Do ponto de vista internacional, isso confirma estereótipos antigos. Reforça a percepção de que o Brasil e, de forma mais ampla, o Sul Global, não estão preparados para sediar grandes encontros sem inflacionar custos. O que deveria ser manchete como “Amazônia no centro do debate climático” já virou “altos preços afastam delegações”, desviando o foco da questão essencial.

Essa barreira econômica não afeta apenas países ricos com líderes seletivos, ela impacta diretamente a participação de nações com orçamentos mais restritos, principalmente aquelas mais vulneráveis às mudanças climáticas. Ou seja, justamente quem deveria ter mais voz corre o risco de ficar de fora.

O episódio também expõe um paradoxo brasileiro: ESG, sustentabilidade, governança climática e a própria agenda da COP ainda são temas distantes para grande parte da população. Mesmo com tragédias ambientais cada vez mais frequentes como enchentes, secas, ondas de calor,  a relação entre essas crises e as discussões globais permanece abstrata para muitos. O debate, no Brasil, ainda está concentrado em nichos: diplomatas, acadêmicos, ONGs e setores empresariais mais sofisticados. Falta popularizar o assunto, traduzir conceitos técnicos e conectar a pauta climática ao cotidiano das pessoas.

Essa desconexão é perigosa. Sem compreensão popular, não há pressão social forte o suficiente para cobrar mudanças estruturais. Sem essa pressão, governos e empresas tendem a adotar apenas discursos ou ações pontuais, sem compromisso real de longo prazo.

O que fazer para mudar esse cenário? Primeiro, romper a bolha. A pauta climática não pode ser discutida apenas em fóruns de especialistas ou em linguagem inacessível. É preciso mostrar como o clima afeta a conta de luz, o preço dos alimentos, a saúde pública e o emprego. Segundo, inserir a educação ambiental de forma prática e contínua nas escolas, desde as séries iniciais, vinculando teoria à realidade local. Terceiro, usar os meios de comunicação de massa para contar histórias que conectem o drama climático global ao impacto direto na vida das comunidades. E, finalmente, garantir que eventos como a COP 30 sejam acessíveis e inclusivos, não apenas financeiramente, mas também no conteúdo e na representatividade.

A Amazônia não pode ser palco de um “camarote VIP” climático.

*Eliana Camejo é conselheira de Administração e vice-presidente da Sustentalli – Cooperativa de Especialistas em Sustentabilidade e Governança

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