Vinhos e Poder: o que está por trás da investida brasileira sobre a Verallia

O mercado de embalagens de vidro, por vezes invisível aos olhos do consumidor final, é um dos pilares silenciosos da indústria de bebidas — especialmente do setor vitivinícola

Marcelo Copello
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Imagens: Divulgação

A Verallia, segunda maior produtora mundial de embalagens de vidro, deve receber uma oferta de aquisição neste mês

A Verallia, segunda maior produtora mundial de embalagens de vidro, deve receber uma oferta de aquisição neste mês

Por que uma gestora brasileira quer assumir o controle de uma das maiores fabricantes de garrafas de vidro do mundo? A pergunta pode parecer técnica demais para o leitor comum, mas basta lembrar da taça que você ergue ao brindar com um bom vinho para entender a dimensão da questão. O mercado de embalagens de vidro, por vezes invisível aos olhos do consumidor final, é um dos pilares silenciosos da indústria de bebidas — especialmente do setor vitivinícola, que não apenas depende das garrafas para escoar sua produção, como também encontra nelas um elemento simbólico de tradição, elegância e valor agregado.

A francesa Verallia, segunda maior produtora mundial de embalagens de vidro para alimentos e bebidas, deve receber uma oferta formal de aquisição durante a primeira quinzena de abril de 2025 por parte da BWGI – Brasil Warrant Gestão de Investimentos, braço da holding Brasil Warrant (BWSA), que gere o patrimônio da família Moreira Salles. A proposta, noticiada pelo portal Glass International (2025), causou impacto não apenas nos bastidores da indústria vidreira, mas também na cadeia de valor do vinho, da cerveja, de azeites e de outras bebidas e alimentos premium.

O momento da investida não poderia ser mais significativo. Durante a pandemia de COVID-19, o setor de vinhos enfrentou uma crise logística sem precedentes: a falta de garrafas de vidro paralisou ou atrasou o envase de milhões de litros de vinho ao redor do mundo. No Brasil, o consumo doméstico de vinho cresceu 27,8% apenas no primeiro semestre de 2020. Ao mesmo tempo, a produção de vasilhames caiu 5%, de acordo com o IBGE. Resultado: vinícolas com estoques cheios, barricas ocupadas por mais tempo do que o desejado e o temor de um desabastecimento iminente.

Com a redução da produção de vidro e a escassez de insumos como papelão, rótulos e rolhas, o setor foi obrigado a buscar soluções alternativas. Algumas vinícolas apostaram nos vinhos em lata, em bag-in-box ou em garrafas reutilizadas. Mais do que nunca, ficou evidente que o vidro é um ativo estratégico.

Nesse contexto, o interesse da BWGI pela Verallia deve ser lido como um movimento de antevisão. A gestora brasileira, que administra os ativos da tradicional família Moreira Salles, está longe de ser um investidor oportunista. Seu histórico inclui participações relevantes em empresas como a CBMM (Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração), Alpargatas e outras marcas consolidadas. Com um portfólio estimado em cerca de US$ 6 bilhões em ativos sob gestão, a BWGI possui um perfil de investimento de longo prazo, voltado à preservação e expansão patrimonial por meio de setores considerados estratégicos.

A Verallia, por sua vez, é uma gigante discreta. Com sede na França, a empresa produz cerca de 16 bilhões de embalagens de vidro por ano, com operações em mais de 10 países, incluindo o Brasil. Entre seus clientes estão vinícolas, cervejarias, produtores de azeite e marcas de alimentos que utilizam embalagens de vidro não apenas como recipiente, mas como elemento de marketing e identidade.

A eventual aquisição da Verallia por uma gestora brasileira pode ter impactos relevantes em três frentes:

Para o setor de bebidas

Uma das maiores dores do setor é a dependência de poucos fornecedores de garrafas, muitas vezes localizados em outros países ou com pouca flexibilidade produtiva. A presença de um grupo brasileiro no controle da Verallia pode abrir caminho para uma articulação mais fluida entre produtores e fornecedores locais, fortalecendo a cadeia e dando mais segurança logística a vinícolas e cervejarias nacionais e latino-americanas. Em um mercado que cada vez mais busca diferenciação por meio de storytelling e origem, garantir a consistência e a qualidade das embalagens é um diferencial competitivo.

Para a indústria brasileira

O Brasil possui um mercado consumidor robusto, mas ainda enfrenta gargalos industriais, especialmente na produção de insumos básicos como o vidro. Uma gestora brasileira assumindo uma multinacional do setor pode representar uma alavanca de desenvolvimento industrial, incentivando novos investimentos em infraestrutura fabril, tecnologia de reciclagem e processos mais sustentáveis. Além disso, pode contribuir para reduzir a dependência externa e impulsionar a exportação de garrafas made in Brazil

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