Uma ideia, um ideal e R$ 53 mil: como a Linus se tornou referência em moda sustentável

Com monoproduto (sandálias), o negócio cresceu 700% na pandemia. Entre 2022 e 2023, o aumento do faturamento foi de 88%. E de 2023 para 2024, 40%

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Imagens: Divulgação

Isabela Chusid, fundadora e CEO da Linus, primeira sandália de plástico vegana nacional

Isabela Chusid, fundadora e CEO da Linus, primeira sandália de plástico vegana nacional

Isabela Chusid sempre teve interesse por sustentabilidade. Desde criança, quando escovava os dentes e fechava a torneira para não desperdiçar água. Era a “ecochata” da família. E antes que alguém critique o autor desta reportagem, a expressão foi usada pela própria Isabela, em uma conversa com o BRAZIL ECONOMY sobre negócios, com conteúdo e bem descontraída. A família, aliás, é de empreendedores. Mas não basta estar ou entender do mundo empresarial. “Tem que ter uma boa ideia”, defende Isabela. E ela veio em 2017, quando buscou no mercado uma sandália que unisse conforto — para ajudar em seu pequeno problema de sobrecarga nas articulações — e sustentabilidade, para auxiliar em seu propósito inato. Não encontrou um produto com essas características. Com empreendedorismo no sangue e uma ideia na cabeça, lançou em 2018 a Linus, a primeira sandália de plástico vegana nacional, que se tornou sinônimo de categoria – como Havaianas – e uma marca de lifestyle sustentável. Pronto! Era o que Isabela queria.

Antes de contar a trajetória de Isabela até aqui – contenha a ansiedade, caro leitor, vai valer a pena! –, é importante destacar outras conquistas da Linus e de Isabela – obviamente, uma está intrinsecamente ligada à outra.

Em fevereiro de 2022, as sandálias começaram a ser vendidas na Europa por meio do e-commerce regional. Em 2023, a marca expandiu para o Uruguai por meio de parceiros. Na sequência, os passos da sandália vegana cheia de estilo ingressaram nos mercados do Chile, Peru, Emirados Árabes, Austrália e Nova Zelândia. No Brasil, estão em mais de 450 pontos de venda físicos, além do site da marca, que acaba de ser modernizado.

Na pandemia, o negócio cresceu 700%. Entre 2022 e 2023, o aumento do faturamento foi de 88%. E de 2023 para 2024, 40%. Os números da receita em reais, Isabela não revela. Mas a gente compensa destrinchando a história da Linus, que tem empreendedorismo puro em seu DNA.

A HISTÓRIA

Isabela tinha uma ideia na cabeça e pouco dinheiro no bolso. Exatos R$ 53 mil. Estava cansada de seu trabalho em multinacionais como General Electric, BRF e Red Bull, nos quais, na maioria das vezes, fazia home office, usava roupas confortáveis e, quando precisava sair, “colocava um chinelinho de dedo ou, no máximo, um Vans ou um All Star”.

Cansada talvez não seja a palavra certa. Talvez desestimulada seja o adjetivo mais adequado. Durante seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Administração na Fundação Getulio Vargas (FGV), fez uma pesquisa sobre sandálias sustentáveis, já pensando em seu negócio. Com 300 questionários em mãos, teve a certeza de que seu conceito viraria realidade. “Minha amostra é confiável”, concluiu, ao observar que havia demanda para o produto. “A galera tinha se interessado de fato.”

Casa Linus tem arquitetura assinada pelo escritório H2C: destaque na publicação ArchDaily
Casa Linus tem arquitetura assinada pelo escritório H2C: destaque na publicação ArchDaily

Sem nunca ter trabalhado com moda, muito menos com calçado ou química, começou a averiguar como funcionava a cadeia produtiva do setor. Ninguém entendia muito bem o que Isabela queria. Não era só usar restos de material. Tinha que ter valor e funcionalidade. Nem ela sabia direito o que estava procurando, na verdade. Injetor, matrizeiro, composteiro e outros termos eram quase um aprendizado de “japonês em braile”, com o perdão da citação da composição de Djavan.

Mas na busca incessante, Isabela encontrou o que queria. Uma empresa de material reciclável, cuja executiva também estava em busca de projetos sustentáveis. Uma achou a outra. E vice-versa.

Enfim, a sandália foi desenvolvida em um PVC “mais sustentável”, como gosta de dizer Isabela. O primeiro pedido foi de 900 pares, em três cores diferentes. O lançamento da Linus foi programado para o dia 20 de dezembro de 2018. “Próximo ao Natal, quando o consumo é mais alto”, vislumbrou a empreendedora, que investiu R$ 53 mil e um sonho no projeto.

O evento foi em um bar em São Paulo, para amigos e familiares. Um e-commerce já estava no ar. E, paralelamente, Isabela tinha uma barraquinha que montava nas tradicionais feirinhas da capital paulista. Uma amiga a ajudou a vender os primeiros pares em um desses comércios de rua.

“O negócio se pagou super rápido. Em dois meses atingimos o break even, com metade do lote vendido”, relembra Isabela. Essa é a parte boa da história. A outra parte é que algumas sandálias apresentavam rebarbas e outros inconvenientes para os usuários. E, mais uma vez, entrou em jogo o espírito empreendedor de Isabela. Ela atendeu pessoalmente cada uma das demandas.

Anotou no caderninho – caneta e papel, no método raiz mesmo – cada uma das reclamações, com nome, telefone e endereço dos clientes. Ajustou o produto, mandou fazer mais Linus e distribuiu para cada uma das pessoas que estavam em sua lista. Algumas receberam das próprias mãos dela.

Isabela continuou indo para as feirinhas por três anos. Embalava os pedidos, despachava para entrega, organizava as planilhas. Fazia o marketing, atendimento ao cliente, os contatos comerciais com fornecedores. Se algum consumidor ligava para reclamar de algo, ela passava para outro setor. “Um momento que eu vou checar com o financeiro.” E apenas tirava o telefone de uma orelha para colocar na outra. Assim, passava a imagem de uma empresa bem maior”, relata, aos risos.

Apesar da brincadeira, tratava cada contato como coisa séria. Em setembro de 2019, quase um ano após o lançamento da Linus, contratou a primeira funcionária para auxiliar no negócio. Uma profissional freelancer, na época, que hoje é a head of branding da empresa. Depois vieram mais colaboradores para atuar na logística, na relação B2B com os atacados e em outras áreas. Hoje o time é de 40 pessoas que atuam na Linus – nome da empresa e da sandália também. “Uma estratégia muito boa para o fortalecimento da marca”, discorre Isabela.

Ah, é bom frisar: Isabela não está mais na barraquinha das feirinhas.

Além da sandália, meias e bonés são comercializados pela Linus
Além da sandália, meias e bonés são comercializados pela Linus

Com a companhia mais estruturada, o monoproduto virou três. Além da sandália, meias e bonés são comercializados pela Linus. Mas o carro-chefe é mesmo a sandália, responsável por 90% das vendas da empresa – ou da marca?

Pelo e-commerce passam 65% da receita. O restante vem das vendas da operação internacional e das duas lojas e meia – sim, essa é a conta de Isabela. Uma unidade na Casa Linus, na Rua Joaquim Antunes, em Pinheiros, outra no Shopping Cidade Jardim e uma “meia-loja” no São Paulo Catarina Aeroporto Executivo.

Aqui é preciso abrir um parênteses sobre a Casa Linus. Sua arquitetura, assinada pelo escritório H2C, foi destaque na publicação ArchDaily, uma das plataformas do setor mais acessadas do mundo. “É um exemplo perfeito do diálogo harmonioso entre o espaço de trabalho e a identidade visual da marca. A fachada foi pensada como uma caixa contínua de vidro, que, através da transparência, revela a estrutura metálica do mezanino, que não faz nenhum ponto de contato com as fachadas. O efeito é flutuante”, descreve a ArchDaily. Fecha parênteses.

LIÇÃO DE CASA

Se a Linus tem pegada sustentável, a lição de casa tem de ser bem feita. Uma parceria com a Playpiso transforma sandálias usadas em pisos esportivos. “O material triturado foi utilizado no playground do Clube Paulistano, o que evitou o uso de material virgem. Uma logística reversa que agrega”, afirma Isabela.

Outra iniciativa é a parceria com a Operação Amazônia Nativa (OPAN), organização que atua pelo fortalecimento dos povos indígenas. A instituição recebe 100% do lucro obtido a partir da venda da cor Linus Amazônia.

Além disso, há a iniciativa com a organização ambiental Seven Clean Seas para retirar uma tonelada de plástico dos oceanos.

E onde a Linus e a Isabela querem chegar com a marca e com os projetos ambientais? “Nós incomodamos os concorrentes e fazemos com que eles se desenvolvam. Meu grande objetivo é continuar melhorando como empresa, continuar nos diferenciando dos concorrentes, mas também os desafiando a fazerem melhor”, diz a empreendedora, ao buscar uma “mudança estrutural no mercado de bens de consumo”.

Com uma boa ideia, que transforma o pouco em muito, mas com grande potencial de impacto — assim se descreve a Linus.

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