Carlos Martins, presidente da Roche Diagnóstica no Brasil, fala com entusiasmo sobre os projetos da companhia. E ele tem bons motivos para isso. Primeiro, porque seu trabalho carrega um propósito importante: promover a evolução do setor de saúde. Segundo, porque os negócios no mercado brasileiro têm evoluído bem. A divisão liderada pelo executivo português fechou 2024 com um faturamento de pouco mais de R$ 1 bilhão, 14% superior ao registrado no período anterior. Para este ano, a projeção é alcançar entre R$ 1,6 bilhão e R$ 1,8 bilhão, e, para 2026, superar os R$ 2 bilhões.
“Temos grandes projetos em andamento e muitos para serem lançados. Estamos entusiasmados com o que está por vir”, disse Martins ao BRAZIL ECONOMY.
A operação brasileira é a sétima mais importante do mundo para a Roche, que apresentou receita de US$ 68,6 bilhões no ano passado, sendo US$ 52,4 bilhões provenientes do segmento farmacêutico (76,4%) e US$ 16,2 bilhões do diagnóstico (23,6%).
Para se ter uma ideia da representatividade do Brasil na atuação global da Roche, dos 29 bilhões de testes dos mais variados vendidos em 2024, aproximadamente 1,7 bilhão foram comercializados no País.
Na divisão liderada por Martins, a empresa suíça, fundada em 1896 e desde 1972 no Brasil, desenvolve soluções de diagnóstico laboratorial, com importação e distribuição de testes e equipamentos para as áreas de sorologia, hematologia, biologia molecular, point of care e pesquisa. O portfólio contempla doenças nas áreas de cardiologia, doenças infecciosas, oncologia, saúde da mulher, neurologia, entre outras.

Os contratos da Roche Diagnóstica no Brasil são distribuídos em 65% no setor privado e 35% no público. Martins, praticante de hiking – caminhadas na natureza, em parques naturais, florestas e montanhas –, pretende “escalar” os negócios com o governo brasileiro.
“Temos investido em muitas pesquisas para criar novos produtos e tecnologias e aperfeiçoar as que já temos. Nosso potencial é tremendo”, afirmou o presidente, que está no cargo há quase quatro anos, dos 17 anos em que atua na companhia.
INOVAÇÃO EM DIAGNÓSTICOS
Uma das iniciativas que geram otimismo no executivo é o teste de DNA-HPV para diagnóstico precoce e prevenção do câncer de colo de útero. A Roche Diagnóstica, em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Prefeitura de Indaiatuba (SP), realizou um estudo ao longo de cinco anos, que apontou um aumento de detecção em até quatro vezes de lesões pré-cancerosas.
O Ministério da Saúde incorporou o teste ao SUS (Sistema Único de Saúde), substituindo o papanicolau. A expectativa é que o investimento público nesse teste varie entre R$ 300 milhões e R$ 500 milhões anualmente.
Outro projeto, voltado ao setor privado e ao consumidor final (B2C), está relacionado ao diabetes. A Roche Diagnóstica está em fase final de desenvolvimento de um dispositivo de medição dos níveis de açúcar no sangue. A inovação está na forma de uso: o sensor, colocado no braço, será capaz de prever como o paciente passará a próxima noite. O lançamento está previsto para outubro.
“Não será necessário o uso de agulha, pois o dispositivo será conectado ao celular. Um algoritmo, equipado com Inteligência Artificial, fará a previsibilidade das condições do corpo para as próximas oito horas. Assim, os pacientes saberão quais medidas tomar antes de dormir. Isso proporcionará tranquilidade tanto para eles quanto para suas famílias”, explicou Martins.
Nos Estados Unidos, esse conceito é conhecido como peace of mind, ou seja, a sensação de estar “livre de preocupações”.
Essas são apenas duas das inovações que impactam tanto a saúde da população quanto os negócios da Roche Diagnóstica.
PARCERIA COM HOSPITAIS
A Roche Diagnóstica mantém parcerias estratégicas com diversos hospitais no Brasil, fornecendo soluções avançadas e equipamentos de última geração.
No fim do ano passado, a companhia equipou o novo laboratório do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, com tecnologia de ponta voltada para análises clínicas. O hospital recebeu um software que consolida todos os dados laboratoriais em uma única plataforma, outro que aumenta a produtividade com monitoramento em tempo real e um terceiro que fornece dados para aprimorar a eficiência operacional.
Entre as inovações, destaca-se um tubo pneumático que transporta amostras do pronto-socorro e do centro cirúrgico até o laboratório do hospital. Esse sistema reduz o tempo de entrega para apenas 10 a 25 segundos, permitindo análises quase imediatas. O Sírio-Libanês é o primeiro hospital da América Latina a contar com essa tecnologia, que liga diretamente a coleta do paciente ao equipamento da Roche.
“É um dos laboratórios mais evoluídos do mundo, com automação total de ponta a ponta. A amostra é colhida, colocada no tubo e, sem intervenção humana, passa por uma máquina que realiza o exame. O resultado sai diretamente no final do equipamento”, descreveu Carlos Martins.
Já no Hospital Albert Einstein, a Roche Diagnóstica implementou uma tecnologia inédita no Brasil para acelerar a emissão de laudos sobre câncer de mama. O equipamento Ventana DP600 escaneia lâminas coradas e, com a ajuda de algoritmos, realiza a análise de forma automatizada. Com isso, um processo que poderia levar até uma hora é concluído em apenas 30 segundos.
“O sistema funciona como um microscópio conectado a uma base de dados com milhões de exames. Por meio de reconhecimento de padrões, ele oferece um diagnóstico altamente preciso”, explicou o executivo.

Outro case de sucesso da Roche Diagnóstica no Brasil é a parceria com o Grupo Sabin, que adotou uma plataforma da companhia para melhorar a eficiência operacional, a qualidade e a sustentabilidade dos processos laboratoriais. A planta do Sabin, em Brasília (DF), implementou um sistema automatizado que reduz as etapas de manuseio dos tubos, elevando os níveis de segurança, qualidade e rastreabilidade das amostras.
UM OLHAR PARA O FUTURO DA SAÚDE
Martins defende que essas inovações deveriam estar disponíveis para toda a população, e não apenas para hospitais privados – ainda que alguns deles ofereçam atendimento via SUS.
“De maneira geral, ainda se cuida da doença e não da saúde das pessoas. O ideal seria um programa preventivo mais eficiente”, enfatizou.
Além da questão conceitual do investimento, Martins destaca que, segundo estudo da Roche, a cada R$ 1 aplicado em saúde, R$ 1,61 retorna para a economia. Esse retorno se dá pelo aumento da produção de bens e serviços, maior geração de empregos e melhores condições para o consumo, impulsionando investimentos privados.
“As famílias deixam de gastar tanto com saúde e podem investir em outras áreas. O impacto econômico positivo é evidente”, afirmou Martins.
Apesar do entusiasmo ao falar sobre o futuro da empresa, o tom do executivo se torna mais firme ao discutir a necessidade de um novo modelo de investimentos em saúde no Brasil. Afinal, interfere tanto no propósito quanto nos negócios da companhia, que segue seu crescimento no País independentemente da mudança do paradigma dos investimentos.