“O cenário internacional adverso com Trump pode não ser ruim para o Brasil”, diz Troyjo

Para Marcos Troyjo, economista, diplomata e ex-presidente do Banco dos Brics, a incongruência gera tensões e provoca retaliações de grandes parceiros como China e Europa, mas potências médias como o Brasil podem encontrar oportunidades

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Imagens: World Economic Forum/Sikarin Fon Thanachaiary

Marcos Troyjo afirma que o governo brasileiro precisa ter sobriedade para lidar com Trump

Marcos Troyjo afirma que o governo brasileiro precisa ter sobriedade para lidar com Trump

Em meio às tensões comerciais globais e à guinada protecionista dos Estados Unidos, o Brasil pode estar diante de uma rara janela de oportunidades. É o que aponta o economista Marcos Troyjo, ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento — conhecido como o Banco dos Brics. Para ele, a política comercial agressiva do presidente americano Donald Trump tende a frear o crescimento da economia global. Ainda assim, Troyjo vê espaço para que países emergentes, como o Brasil, avancem em áreas estratégicas e ganhem relevância no novo tabuleiro geoeconômico. Em entrevista exclusiva ao BRAZIL ECONOMY, o diplomata analisa os impactos da nova conjuntura internacional e propõe caminhos para o Brasil se posicionar de forma mais competitiva em meio à crescente instabilidade global.

Como o senhor avalia a mudança recente no eixo político e econômico mundial, com o novo tarifaço de Donald Trump? O que esperar do futuro, especialmente diante do aumento da instabilidade global?
A geopolítica se tornou absolutamente central na definição dos rumos econômicos de governos e empresas. Podemos dizer que há eventos microgeopolíticos, de curto prazo, e macrogeopolíticos, que se estendem por uma geração, algo entre 20 e 25 anos. Hoje, o evento microgeopolítico mais relevante é a presidência de Trump. Isso importa porque os Estados Unidos iniciaram 2025 com um PIB de US$ 30 trilhões e empresas que, sozinhas, valem mais do que bolsas de valores inteiras de alguns países. O que acontece nos EUA reverbera fortemente em todo o mundo.

Não há uma incoerência entre o suposto neoliberalismo de Trump, com redução da presença do Estado, e o fechamento econômico promovido por sua política comercial?
De fato. De um lado, há um movimento claro de liberalização interna — com desregulamentação, desburocratização, busca de eficiência e cortes de impostos. De outro, vemos políticas comerciais típicas da América Latina nos anos 1960 e 1970: substituição de importações, escolha de campeões nacionais, subsídios a setores específicos e incentivos ao conteúdo local. Essa incongruência gera tensões e provoca retaliações de grandes parceiros como China e Europa. E, nesse embate, potências médias como o Brasil podem encontrar novas oportunidades.

Como o Brasil pode se beneficiar desse novo contexto global?
Há espaço para ampliar exportações de produtos do agronegócio e minerais, atrair investimentos em economia verde e até mesmo fomentar uma nova onda de reindustrialização. Um fator relevante é o processo de desindustrialização da China. Produzir lá está cada vez mais caro, e muitas fábricas estão migrando para países como México, Marrocos — ou até retornando aos próprios Estados Unidos. O Brasil pode entrar nesse movimento, mas precisa enfrentar obstáculos como a burocracia, o custo elevado da máquina pública e uma carga tributária pesada.

O que o governo brasileiro deve fazer para aproveitar essa oportunidade?
É essencial manter a sobriedade nas relações com os Estados Unidos, negociar exceções tarifárias e estreitar laços diretos com compradores de produtos brasileiros — especialmente em setores como madeira e móveis. Também é urgente acelerar a implementação do acordo entre Mercosul e União Europeia, que abre acesso a um mercado de 450 milhões de pessoas. Paralelamente, devemos fortalecer a corrente de comércio com a China. Produtos agropecuários que deixarem de ser importados dos EUA podem ser substituídos pelo Brasil. Além disso, é fundamental apresentar projetos de infraestrutura com apelo internacional, capazes de atrair capital estrangeiro.

Se houver uma onda global de retaliação contra os EUA, quais podem ser os impactos para a economia mundial?
Nesse cenário, é possível que enfrentemos uma combinação de recessão com inflação global. Os EUA têm um PIB de cerca de US$ 30 trilhões, enquanto o mundo inteiro gira entre US$ 110 trilhões e US$ 120 trilhões. A China, por sua vez, movimenta cerca de US$ 19 trilhões. Se essas duas potências entrarem em um conflito comercial mais profundo, o impacto será inevitável: retração de investimentos, redução do fluxo de comércio e perda de confiança nos mercados. No entanto, curiosamente, esse cenário adverso com Trump pode não ser tão ruim para o Brasil — tudo vai depender da nossa capacidade de diversificar mercados e criar um ambiente favorável à atração de investimentos.

 

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