Produtos da Dinda Foods estão organizados sob e sobre algumas mesas do 6º andar de um edifício icônico da Avenida Brigadeiro Faria Lima, no Itaim Bibi, um dos endereços de São Paulo mais caros e cobiçados pelo empresariado brasileiro. Os itens não são comercializados no Brasil. São produzidos e vendidos a mais de 7 mil quilômetros de distância, em Angola, onde a marca de alimentos é líder. A empresa africana pertence à brasileira Timbro Trading, que possui seu escritório na Faria Lima, onde os produtos estavam quando a reportagem do BRAZIL ECONOMY entrevistou Bruno Russo, sócio-fundador e vice-presidente da companhia brasileira. A presença dos itens da Dinda no local desperta a curiosidade de quem passa e, mais do que isso, mostra uma parte da importância da atuação da Timbro no Brasil e no mundo. Uma pequena parte, ressalte-se.
A trading, criada em 2010, apresenta crescimento meteórico, principalmente nos últimos cinco anos. Nesse período, um aumento de 10 vezes de tamanho está para ser efetivado. O faturamento passou de R$ 2,5 bilhões em 2020 para uma perspectiva de receita na casa dos R$ 25 bilhões em 2025 – após faturar R$ 18 bilhões no ano passado –, com margens entre 1% e 2%. Uma evolução poucas vezes vista em uma corporação que movimenta cifras na casa dos bilhões de reais.
“Neste ano, devemos passar de R$ 25 bilhões de faturamento. Crescemos desde a fundação em uma escala importante. Não temos concentração em nenhum dos mercados em que atuamos. Nosso maior cliente representa 7% da receita. Essa é a beleza do nosso negócio”, afirmou Russo, que atuava como estagiário em uma empresa junto com Jorg Guinle e, juntos, fundaram a Timbro 15 anos atrás – o debut oficial será em 10 de junho. Hoje, são vice e presidente da companhia, respectivamente, cada um contribuindo para a corporação especializada em exportação e importação de mercadorias.
Os tentáculos, porém, são muitos e vêm aumentando ao longo dos anos. A Timbro é uma espécie de empreendedora serial. “Temos um escopo de investimento muito grande anualmente. Estamos sempre em transformação”, disse Russo, que tem sido o porta-voz da empresa, enquanto Guinle adota um perfil mais low profile. “Procuramos negócios onde haja espaço para inovação e geração de valor.”
A empresa começou como importadora de máquinas da China para construção civil. Com a visão e disposição dos sócios, sempre vislumbrou a possibilidade de ser uma empresa que pudesse se posicionar e competir num patamar global de comércio exterior, um mercado dominado por companhias tradicionais e centenárias.
No Brasil, apesar de ser um celeiro de boas empresas e um dos maiores produtores de diversas commodities do mundo, não havia uma companhia com essa pujança. Há muitas tradings ou grupos que atuam em monoprodutos ou como grandes importadores e exportadores para terceiros. Foi com essa análise que a Timbro resolveu avançar para tornar-se relevante em multiproduto.

Com características próprias – e arrojadas, diga-se. A empresa se propôs a comprar e vender produtos para o mundo todo. E isso não é exagero, pois os negócios são feitos com a América do Norte e Latina, Europa, Oriente Médio e Ásia. São 1.000 clientes ativos.
Aqui cabe uma explicação importante: não se trata de uma intermediadora ou uma simples empresa de logística contratada para entregar produtos. A Timbro compra de um cliente e vende para outro. Parece simples, mas não é, quando se trata de encontrar e negociar com um fornecedor no Brasil e, depois, com um cliente no exterior. No meio do caminho, há o desembaraço de processos burocráticos de documentação, com regras estabelecidas em cada país, e a entrega porta a porta, utilizando os mais variados modais de transporte.
É dessa forma que a Timbro se tornou a maior exportadora de açúcar do Brasil sem produzir um pé de cana sequer. Foram mais de 2 milhões de toneladas no ano passado. O produto vai principalmente para Angola. “Somos responsáveis por cerca de 20% do açúcar refinado exportado para a África.” Essa sinergia motivou a Timbro a adquirir 70% da Dinda Foods no início de 2024.
Assim como o açúcar, o mesmo ocorre com o algodão e com itens de maior valor agregado, como aviões. No ano passado, a trading foi a que mais importou aeronaves executivas no país: 105 no total.
“Temos um braço de comércio muito forte na exportação de produtos do agro, como açúcar e algodão, mas também grãos, como café. E comercializamos minérios – ferro, manganês…”, explicou o vice-presidente. A companhia também atua com aço acabado, plano e longo, para distribuição no Brasil e em países da América do Sul, principalmente. Metais não ferrosos, como cobre, alumínio, zinco e molibdênio, são outra frente da Timbro. Proteína animal também está no portfólio da companhia.
NOVOS NEGÓCIOS
Com essa veia empreendedora – e, por consequência, inquieta –, a trading tem aberto novos flancos. Um dos investimentos mais recentes, em meados de 2024, foi em um Centro Automotivo em Cariacica, no Espírito Santo, com aporte de R$ 25 milhões. O foco está em receber os carros elétricos que têm desembarcado no Brasil vindos da China, em especial da BYD.
“Identificamos uma demanda e fizemos esse investimento no estado, que é o principal hub importador de veículos do país. Lá temos a mais moderna cabine de pintura do Brasil”, frisou Russo.
O espaço, dividido entre área alfandegada e armazém geral, pode receber até 12 mil automóveis simultaneamente e ocupa uma área de 250 mil m², otimizando a logística de distribuição e armazenamento de veículos. O terreno conta ainda com uma área de reserva técnica de mais 100 mil m² para futuras expansões.

Na sequência, a Timbro assumiu o laboratório de emissões da Jaguar Land Rover (JLR) e inaugurou recentemente um Centro Tecnológico em Itatiaia (RJ), com um aporte de R$ 12 milhões, dedicado à certificação das emissões de veículos para o Brasil e Mercosul.
O local foi contratado pelo Instituto Mauá de Tecnologia (IMT) para a realização de ensaios de medição de emissões de escapamento que fazem parte dos testes de viabilidade técnica que avaliam a possibilidade de aumentar para 30% a proporção de etanol na gasolina comercializada no Brasil. A iniciativa integra o programa Combustível do Futuro, que busca promover soluções sustentáveis para a matriz energética nacional.
A decisão de investir foi pautada nas longas filas – de 6 a 12 meses – dos clientes da Timbro, segundo o executivo, para homologar novos veículos para venda no Brasil, o que compromete o calendário de lançamentos de novos modelos.
As iniciativas se somam à entrada estratégica da Timbro, no ano passado, no mercado de etanol, após receber a autorização da ANP (Agência Nacional do Petróleo). A companhia planeja comercializar anualmente 50 milhões de litros do biocombustível neste início da operação.
E, mais uma vez, vai usar a sinergia de seus negócios para voar alto. A partir de uma rede parceira de mais de 30 usinas de açúcar nas regiões Centro-Sul e Nordeste do Brasil, a Timbro já pensa em expandir sua presença global no mercado de biocombustíveis, além de atender às demandas internas. Os mercados da Ásia e Europa estão na alça de mira.
Para este ano, o foco também estará voltado para operações logísticas. A empresa já possui um terminal próprio no Porto de Santos e pretende avançar nesse modelo.
Com tantos avanços, o mercado coloca holofotes na Timbro. IPO (oferta pública inicial) à vista? Bruno Russo tergiversa. Prefere exaltar a captação de R$ 100 milhões, no início de 2024, por meio de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), para expansão das suas operações no agronegócio. Os papéis foram negociados em poucas horas. Foi um ensaio para entrar de vez no mercado de capital aberto? Talvez.
O executivo prefere falar do presente a especular sobre o futuro. E o tempo atual tem sido frutífero para a Timbro.