A indústria está desacelerando – e o risco é repetir o ciclo de arrancada e freada

Com juros elevados, investimento represado e gargalos estruturais persistentes, a produção industrial brasileira perde fôlego e reacende o risco de o país repetir o histórico ciclo de expansão curta seguido de nova desaceleração

Antonio Toledo*
Compartilhe:

Imagens: Divulgação

Toledo: "A desaceleração reflete condições estruturais e conjunturais que dificultam a competitividade"

Toledo: "A desaceleração reflete condições estruturais e conjunturais que dificultam a competitividade"

Os números sobre a produção industrial em 2025 são um alerta de que estamos repetindo ciclos que já custaram caro ao país. A queda de 1,2% na passagem de novembro para dezembro, a mais intensa desde julho de 2024, não é um ponto fora da curva. É a consolidação de um movimento negativo que se arrasta desde setembro e que já acumula 1,9% de perda no período. Quando 17 dos 25 ramos pesquisados recuam simultaneamente, não é um soluço conjuntural, mas um padrão.

E padrões importam – especialmente quando são reincidentes.

É verdade que a indústria fechou 2025 com um crescimento de 0,6%, o terceiro ano seguido de alta. Mas é crescimento que perde força: começamos com 1,2% e terminamos com variação nula. A explicação do IBGE é direta: política monetária mais restritiva, juros altos e investimentos represados, fatores que comprimem decisões produtivas em praticamente todos os segmentos. E aqui entra um ponto incontornável: quando o custo de capital sobe, o erro deixa de ser apenas “investir menos”. O erro passa a ser investir mal – o que gera atrasos, retrabalho, CAPEX pressionado e produtividade que não se materializa.

Quando o dinheiro fica caro, o país entra em modo defensivo – e a indústria sente primeiro. A taxa básica de juros segue elevada e é um dos principais freios ao investimento e ao consumo. A partir de meados de 2025, quando a indústria começa a perder tração, o impacto da Selic alta fica evidente – projetos são adiados, financiamentos encarecem, empresas reduzem planos de expansão e consumidores seguram gastos.

Não é coincidência que a queda industrial se intensifique nesse período. O setor produtivo tem sido explícito: o custo de capital determina o CAPEX. E as sinalizações recentes do Banco Central sobre a trajetória futura da política monetária importam porque afetam diretamente a confiança, a alocação de capital e o apetite por investimento de longo prazo.

Mesmo após três anos de alta, a produção industrial segue 16,3% abaixo do pico de 2011. Esse dado revela menos uma falha isolada das empresas e mais a dificuldade histórica do país em sustentar ciclos longos de expansão em um ambiente marcado por volatilidade macroeconômica, custo de capital elevado e incerteza regulatória recorrente. A incerteza prolongada empurra as empresas para um modo defensivo. Em vez de investir para crescer, inovar ou modernizar processos, priorizam caixa, reduzem riscos e alongam decisões. Isso cria um círculo vicioso: juros altos reduzem investimento, limitam produtividade e restringem o crescimento.

O contraste aumenta quando olhamos para fora. Segundo o FMI, a produção industrial global manteve em 2025 um ritmo de crescimento moderado e contínuo, com destaque para as economias emergentes, que avançaram mais de 3% ao longo do ano até outubro. Já as economias avançadas, mesmo sob juros elevados, registraram crescimento industrial entre 1,0% e 1,3% em outubro de 2025 ante dezembro do ano anterior, conforme dados consolidados pelo FMI e pela OCDE.

Ou seja: o mundo está avançando – devagar, mas avançando. No Brasil, a desaceleração reflete uma combinação de condições estruturais e conjunturais que dificultam a transformação de investimento em competitividade. Os dados mostram riscos que a indústria brasileira sempre enfrenta em períodos de aperto financeiro e desaceleração do investimento.

O primeiro deles é a dependência excessiva de poucos setores. O extrativo, puxado pelo petróleo, cresceu 4,9% e praticamente sustentou o resultado agregado, enquanto a indústria de transformação caiu 0,2%. Trata-se menos de um problema de estratégia empresarial isolada e mais do reflexo de diferenças estruturais de competitividade e acesso a capital entre setores. O segundo é a baixa diversificação e a vulnerabilidade estrutural. Bens de capital – que deveriam ser o motor da modernização industrial – recuaram 1,5%, enquanto bens de consumo semi e não duráveis caíram 1,7%, indicando um ambiente de investimento e demanda pressionados por condições financeiras restritivas.

O terceiro é a persistência de gargalos sistêmicos de competitividade. Quando 17 atividades recuam ao mesmo tempo, não se trata apenas de flutuações setoriais, mas de fatores transversais que afetam produtividade, logística, custo de financiamento e previsibilidade de longo prazo. E, por fim, reaparece o conhecido ciclo brasileiro de “arrancada e freada”. Crescemos 3,1% em 2024. Crescemos 0,6% em 2025. Sem avanços estruturais relevantes, o risco de nova desaceleração permanece no horizonte.

O futuro da indústria depende de como atravessaremos esse ambiente. O país dispõe de setores com enorme potencial – energia, alimentos, mineração, infraestrutura e tecnologia industrial –, mas transformar potencial em produtividade exige condições macroeconômicas favoráveis e, ao mesmo tempo, estratégias empresariais cada vez mais disciplinadas.

Não faltam oportunidades, mas o ambiente econômico impõe ciclos curtos e exige mais planejamento e execução para preservar competitividade. Nesse cenário, a gestão estratégica dos investimentos torna-se uma das principais alavancas para mitigar volatilidades, aumentar eficiência operacional e sustentar ganhos de produtividade mesmo em períodos mais adversos. Na prática, isso significa elevar a régua do investimento: priorizar CAPEX por retorno, definir escopo com rigor, controlar mudanças e usar dados para antecipar desvios – porque desvio tardio vira custo exponencial.

Se quisermos romper o ciclo histórico, três movimentos ganham relevância: investir com foco em produtividade, não apenas em expansão de capacidade; aumentar a eficiência da execução, reduzindo atrasos, desperdícios e retrabalhos; e fortalecer a continuidade estratégica, independentemente das oscilações do ciclo econômico.

A indústria brasileira precisa romper padrões históricos. Isso exige combinar avanços estruturais no ambiente econômico com disciplina crescente na forma como investimentos são planejados e executados. O mundo está acelerando. A tecnologia está acelerando. A competição está acelerando. A pergunta é: conseguiremos transformar os próximos ciclos em trajetórias mais longas e sustentáveis de crescimento?

*Antonio Toledo é CEO da Timenow, quarta maior empresa de gestão de projetos e engenharia do Brasil

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ASSINE NOSSA NEWSLETTER E
FIQUE POR DENTRO DAS PRINCIPAIS NOTÍCIAS DO MERCADO

    Quer receber notícias pelo Whatsapp ou Telegram? Clique nos ícones e participe de nossas comunidades.