Fernando Henrique Cardoso e o alicerce da estabilidade brasileira

A consolidação do Plano Real, a estruturação do tripé macroeconômico e o fortalecimento das instituições sob FHC moldaram a estabilidade econômica e democrática do Brasil contemporâneo

Agostinho Turbian*
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Imagens: Gabriela Bil/Divulgação

FHC foi o arquiteto de uma mudança de paradigma, intelectual respeitado, professor e sociólogo

FHC foi o arquiteto de uma mudança de paradigma, intelectual respeitado, professor e sociólogo

Há momentos na história de uma nação em que a liderança política transcende o seu tempo e passa a estruturar o próprio futuro do país. No Brasil contemporâneo, é impossível falar de estabilidade econômica, consolidação democrática e inserção internacional sem reconhecer o papel decisivo de Fernando Henrique Cardoso.

Mais do que um presidente, Fernando Henrique foi o arquiteto de uma mudança de paradigma. Intelectual respeitado internacionalmente, professor e sociólogo, construiu sólida trajetória parlamentar antes de chegar ao Palácio do Planalto. Antes de assumir o Ministério da Fazenda e posteriormente a Presidência da República, exerceu mandato como senador por São Paulo, após ter sido também senador suplente nos anos 1980. No Senado, destacou-se pelo equilíbrio, pela capacidade de diálogo e por uma visão moderna de Estado. Foi nesse ambiente que consolidou sua atuação como formulador de políticas públicas e defensor da estabilidade institucional. A experiência legislativa lhe proporcionou compreensão profunda da importância dos consensos e da negociação política, habilidade que mais tarde seria fundamental para viabilizar reformas estruturais. Como observa Agostinho Turbian, outro legado subestimado de FHC foi seu compromisso com as instituições democráticas.

Quando assumiu o Ministério da Fazenda em 1993, o Brasil vivia uma das mais longas e traumáticas crises inflacionárias do mundo. A corrosão diária da moeda atingia especialmente os mais pobres, destruindo renda, planejamento familiar e previsibilidade econômica. Foi nesse contexto que nasceu o Plano Real. Mais do que uma simples troca de moeda, o plano representou uma engenharia econômica sofisticada, baseada em responsabilidade fiscal, âncora cambial inicial e construção de credibilidade. O resultado foi imediato e histórico: a hiperinflação foi debelada e o país voltou a ter moeda estável. O impacto social foi profundo, pois estabilizar preços significou devolver dignidade ao salário do trabalhador e previsibilidade ao ambiente de negócios, dois pilares essenciais para qualquer projeto consistente de desenvolvimento.

Agostinho Turbian: "Outro legado subestimado de Fernando Henrique Cardoso foi seu compromisso inequívoco com as instituições democráticas"
Agostinho Turbian: “Outro legado subestimado de FHC foi seu compromisso com as instituições democráticas”

Durante seus dois mandatos presidenciais, entre 1995 e 2002, Fernando Henrique conduziu uma agenda de reformas que reposicionou o Brasil no cenário interno e externo. Consolidou-se o tripé macroeconômico sustentado pela responsabilidade fiscal, pelo regime de metas de inflação e pelo câmbio flutuante. Houve modernização do sistema de telecomunicações, fortalecimento das agências reguladoras, ampliação da inserção internacional do país e avanço de programas sociais estruturantes, como o Bolsa Escola, que posteriormente daria origem ao Bolsa Família. Essas medidas criaram um ambiente de previsibilidade institucional e econômica que permitiu ao Brasil atravessar crises internacionais posteriores com maior resiliência.

Outro aspecto frequentemente subestimado de sua trajetória foi o compromisso inequívoco com as instituições democráticas. Seu governo contribuiu para amadurecer práticas republicanas, fortalecer a autonomia de órgãos de Estado e normalizar a alternância de poder, elemento essencial de democracias maduras. O Brasil que hoje debate, diverge e se posiciona com liberdade é, em parte, herdeiro desse período de consolidação institucional.

O verdadeiro teste de uma liderança pública é sua capacidade de permanecer relevante após o exercício do poder. Nesse sentido, a trajetória de Fernando Henrique oferece um exemplo singular. Após deixar a Presidência da República, criou a Fundação Fernando Henrique Cardoso, posteriormente transformada no Instituto Fernando Henrique Cardoso. A instituição consolidou-se como uma das mais respeitadas plataformas de diálogo e reflexão do país, reunindo acadêmicos, lideranças empresariais, representantes da sociedade civil e formuladores de políticas públicas para discutir temas estratégicos do Brasil e do cenário internacional. Ali se debatem democracia, inovação, sustentabilidade, desenvolvimento econômico, governança global e desafios institucionais contemporâneos, sempre com pluralidade e abertura intelectual. Trata-se de um espaço que reafirma o compromisso com a civilidade, com o pensamento estruturado e com a construção de pontes, valores que marcaram sua trajetória pública.

O Brasil de hoje enfrenta novos desafios fiscais, sociais, tecnológicos e geopolíticos. Ainda assim, parte de uma base muito mais sólida do que aquela existente nos anos 1980 e no início dos anos 1990. Reconhecer o papel de Fernando Henrique Cardoso não é um exercício de nostalgia, mas de honestidade histórica e de tributo à construção institucional do país. Nações que compreendem seus próprios pontos de inflexão planejam melhor o futuro. Se hoje a economia brasileira apresenta fundamentos mais robustos e a democracia demonstra resiliência mesmo sob pressão, parcela relevante desse alicerce foi lançada na década de 1990 por um líder que transitou entre a academia, o Parlamento, a Presidência da República e, posteriormente, o pensamento estratégico de longo prazo. Alicerces bem construídos continuam sustentando a obra muito tempo depois que o engenheiro deixa o canteiro.

*Agostinho Turbian é empresário, conselheiro e sócio do BRAZIL ECONOMY

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