Acordo UE–Mercosul como enquadramento geopolítico e o posicionamento Barcelona-Catalunha

Atualmente, Barcelona-Catalunha responde por 27,5% do total das exportações espanholas para o Brasil, indicador que confirma o seu protagonismo no relacionamento econômico entre a UE e o Mercosul

Josep Maria Buades*
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Imagens: Divulgação

Josep Maria Buades é diretor do escritório exterior de Comércio e Investimentos da Catalunha em São Paulo

Josep Maria Buades é diretor do escritório exterior de Comércio e Investimentos da Catalunha em São Paulo

O acordo entre a União Europeia e o Mercosul deve ser compreendido para além da sua dimensão estritamente comercial ou do seu calendário jurídico. Ainda que o processo de ratificação enfrente obstáculos institucionais, incluindo a recente solicitação do Parlamento Europeu de consulta ao Tribunal de Justiça da União Europeia, que poderá prolongar sua tramitação, o acordo já opera como um enquadramento geopolítico e estratégico que orienta decisões políticas, expectativas econômicas e estratégias de internacionalização em ambos os lados do Atlântico.

Em um contexto internacional marcado pela intensificação das disputas estratégicas, pela fragmentação das cadeias globais de valor e pelo enfraquecimento das regras multilaterais do comércio, o acordo representa uma afirmação política da União Europeia em favor do multilateralismo, da cooperação entre regiões e de uma ordem internacional baseada em regras. Independentemente do seu ritmo de implementação, a parceria sinaliza uma aposta clara da UE na aproximação estratégica com a América do Sul, região de crescente relevância econômica e política, composta por países que compartilham valores democráticos e objetivos de desenvolvimento compatíveis com os europeus.

Nesse sentido, o acordo consolida-se como um referencial de previsibilidade regulatória, estabilidade institucional e convergência de padrões sociais, ambientais e produtivos, reforçando o posicionamento internacional da Europa como ator comprometido com elevados níveis de governança econômica. Esse enquadramento já influencia políticas públicas, estratégias empresariais e fluxos de investimento, funcionando como uma âncora geoeconômica para as relações birregionais.

As projeções associadas ao acordo ilustram o seu potencial estruturante. Segundo relatório produzido pela LLYC, a entrada em vigor do acordo poderia resultar em um crescimento estimado de até 40% no comércio entre a UE e o Mercosul, com destaque para setores industriais, tecnológicos e de serviços de maior valor agregado. Ainda que esses efeitos dependam da ratificação formal, as expectativas geradas já moldam decisões estratégicas de médio e longo prazo por parte de governos e empresas.

Nesse contexto, a Barcelona-Catalunha destaca-se como um dos territórios europeus mais bem posicionados para capitalizar esse enquadramento estratégico. Trata-se de uma das economias mais abertas e internacionalizadas do sul da Europa, com uma base produtiva diversificada, forte vocação exportadora e elevada integração nas cadeias globais de valor. Essa preparação estrutural reflete-se nas relações econômicas consolidadas com o principal mercado do Mercosul, o Brasil, país com mais de 213 milhões de habitantes e um PIB superior a 2,1 trilhões de dólares.

Em 2024, as exportações catalãs para o Brasil ultrapassaram € 1,2 bilhão, com crescimento interanual de 8,6%, enquanto as importações superaram € 1,6 bilhão, evidenciando um intercâmbio comercial robusto e dinâmico. Atualmente, Barcelona-Catalunha responde por 27,5% do total das exportações espanholas para o Brasil, indicador que confirma o seu protagonismo no relacionamento econômico entre a UE e o Mercosul.

Esse protagonismo concentra-se em setores estratégicos alinhados às prioridades do acordo, como produtos químicos, farmacêuticos, plásticos, cosméticos e maquinário industrial, segmentos intensivos em inovação, tecnologia e valor agregado. Com a redução progressiva de barreiras tarifárias e regulatórias (a liberalização cobre mais de 90% das tarifas bilaterais) e com o potencial de expansão do comércio birregional no médio prazo, a tendência é de aceleração das vendas externas catalãs ao bloco.

Considerando que as exportações da Catalunha para o Mercosul já superaram € 1,34 bilhão, um cenário de crescimento comercial na ordem de +37% implicariam um incremento potencial adicional em torno de € 500 milhões nas exportações catalãs ao Mercosul, especialmente em autopeças, maquinário, químicos e produtos farmacêuticos.

Além do comércio, a presença empresarial catalã no Brasil evidencia um elevado grau de maturidade internacional. Atualmente, mais de 300 empresas catalãs mantêm cerca de 460 filiais no país, constituindo uma base sólida para o aprofundamento da integração produtiva, tecnológica e logística prevista no acordo. Esse contexto favorece a intensificação dos fluxos de investimento direto, com projeções que indicam que os fluxos de investimento direto europeu para o Mercosul podem mais do que dobrar após a entrada em vigor, e que, em alguns casos, o estoque de investimentos europeus poderia crescer até 177% em uma década.

No sentido inverso, empresas do Mercosul – especialmente brasileiras – também identificam a Barcelona-Catalunha como uma porta de entrada privilegiada para o mercado europeu, reforçando o seu papel como hub de investimento, inovação e internacionalização. Em termos macroeconômicos, projeções indicam que as exportações do Mercosul para a União Europeia podem crescer em torno de 17% com o acordo, ampliando o volume de importações europeias de bens estratégicos e de insumos relevantes para cadeias industriais e para a transição verde e digital. Esse movimento é particularmente relevante para matérias-primas críticas e para a diversificação de fornecedores, reforçando a resiliência econômica europeia.

Dessa forma, o acordo UE–Mercosul consolida-se como um marco estratégico de referência para a ação internacional de Barcelona-Catalunha. Mais do que um tratado comercial à espera de ratificação, trata-se de um enquadramento geopolítico que orienta políticas de internacionalização, atração de investimentos e cooperação econômica, posicionando-o como um dos principais vetores europeus da relação birregional entre a União Europeia e a América do Sul.

*Josep Maria Buades é diretor do escritório exterior de Comércio e Investimentos da Catalunha em São Paulo

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