Ao longo dos meus 35 anos de carreira no mundo do vinho, acompanhei de perto muitas transformações desse planeta líquido que chamamos de mundo do vinho. Nesse período, vi previsões se confirmarem com precisão quase profética e vi outras evaporarem no ar. Vi modas que prometiam revolucionar tudo e morreram antes do primeiro gole. Vi tendências que ninguém levou a sério se tornarem forças globais.
Todo ano surgem listas futuristas: “as tendências do vinho para o próximo ano”. Eu mesmo fiz e faço anualmente matérias com “previsões” para este mercado. Mas quase ninguém faz o movimento contrário, olhar para trás e perguntar quais previsões realmente se concretizaram, quais fracassaram e, sobretudo, o que aprendemos com isso.
É com esse olhar, de quem acompanhou o vinho por mais de três décadas, que revisito as tendências anunciadas desde os anos 1980 e analiso o que se realizou, o que ficou pelo caminho e o que nunca passou de uma bela promessa no rótulo.
1980s: A GLOBALIZAÇÃO
As previsões que dominavam o discurso vinham carregadas de entusiasmo: dizia-se que a tecnologia transformaria o vinho numa bebida padronizada e perfeita, que o Novo Mundo tomaria o trono do Velho e que o gosto mundial caminharia para um estilo único, maduro, intenso e moderno, sustentado por inox, leveduras selecionadas e barricas novinhas em folha. Os anos 1980, embalados pelo avanço técnico, projetavam uma revolução permanente.
E muita coisa realmente aconteceu. O Novo Mundo cresceu como nunca, abrindo espaço para Chile, Argentina, Califórnia, Austrália e África do Sul. A modernização se tornou universal, com controle de temperatura, aço inox e higiene impecável. Durante duas décadas, boa parte do planeta se alinhou ao estilo potente, alcoólico e concentrado, tendência que seria batizada depois de parkerização. A globalização do gosto foi real, e o consumidor passou a reconhecer uvas e estilos antes confinados a fronteiras regionais.
Mas outras previsões falharam. O fim do domínio europeu não veio. Ao contrário, França, Itália e Espanha viveram um renascimento qualitativo no início dos anos 2000. A padronização absoluta também não se cumpriu. A diversidade voltou com força, e tradições antes consideradas ultrapassadas ressurgiram com vigor. E, embora se falasse em supremacia tecnológica, nas décadas seguintes o mundo redescobriu justamente o oposto, a importância dos vinhos de lugar.
1990s: A ERA DA POPULARIZAÇÃO
Nos anos 1990, as previsões anunciavam uma nova democratização: vinhos varietais substituiriam os de origem, os supermercados seriam os grandes templos do vinho, jovens abraçariam a bebida e a onda dos vinhos macios, acessíveis e fáceis de entender criaria um mercado global massificado. A década apostava também no boom do merlot e num crescimento sustentável e contínuo do consumo.
Boa parte disso se concretizou. Os varietais tornaram-se a linguagem comum do planeta, e isso vale até hoje. Cabernet, merlot, chardonnay e sauvignon blanc passaram a guiar consumidores do Brasil ao Japão. Os supermercados se firmaram como centros de compra e, em muitos mercados, formaram quem hoje é consumidor fiel. O merlot realmente viveu seu auge, especialmente antes do impacto cultural de Sideways. E a viticultura sustentável, ainda tímida, começou a ganhar terreno.
Mas nem tudo avançou. O jovem consumidor nunca se consolidou como motor do setor. Ao contrário, desde meados dos anos 2010, jovens tendem a beber menos vinho. E a ideia de que o mercado cresceria indefinidamente mostrou-se ilusória. Nos anos 2010 e 2020, vários países entraram em retração. A massificação também encontrou limite e abriu espaço, mais tarde, para movimentos de nicho, como o natural e a valorização dos vinhos de terroir.
2000s: A ERA DOS PONTOS E DAS BARRICAS
A chamada parkerização, iniciada lentamente nos anos 1980, entrava no novo milênio com força total. O discurso dos anos 2000 previa que o vinho caminharia para um estilo hegemônico, superextraído, alcoólico, denso e amante de barricas novas. Falava-se que os vinhos de garagem seriam a expressão máxima do luxo, que o consumo global continuaria crescendo sem interrupções, que a biotecnologia criaria novas uvas e que os críticos, especialmente Parker, moldariam paladares e mercados de forma irreversível.
Muitas previsões se realizaram, ao menos por um tempo. A parkerização foi um fenômeno histórico. Durante cerca de 20 anos, notas altas moldaram estilos, influenciaram preços e elevaram ao estrelato vinhos musculosos. Ícones turbinados surgiram e dominaram críticas e leilões. O consumo global cresceu vigorosamente. E o ideal tecnológico, vinhos perfeitos, limpos e potentes, se impôs com força.
Mas os limites apareceram. O consumo não subiu para sempre. A partir de 2018, começou a cair. Os vinhos de garagem perderam relevância e deixaram de ser sinônimo de luxo. E a biotecnologia não produziu a esperada revolução em escala comercial. Acima de tudo, a crença na hegemonia absoluta de um estilo se mostrou equivocada. A década seguinte veria seu declínio. Já nessa década surge o movimento do vinho natural e muitas críticas ao estilo parker, com produtores mudando de rumo.
2010s: A REVOLUÇÃO DO TERROIR
A década de 2010 veio marcada por previsões ousadas: os vinhos naturais aboliriam o sulfito, tomariam conta do mercado e derrubariam o estilo parkerizado. Acreditava-se que o rosé era uma moda efêmera, que a tecnologia poderia criar vinhos sem intervenção e que novas microrregiões dominariam o discurso. Também se projetava que as redes sociais seriam o novo árbitro do gosto.
E muito disso aconteceu, ainda que de modo diferente do esperado. O natural explodiu culturalmente, mas não comercialmente, e influenciou profundamente o estilo contemporâneo, com menos madeira, mais frescor e mais pureza. As redes sociais, de fato, se tornaram o principal meio de influência do universo do vinho. O rosé, que deveria ser passageiro, ganhou status e virou categoria permanente. E a crítica tradicional perdeu parte de seu poder para novos comunicadores.
Mas os exageros não se cumpriram. O natural não substituiu o clássico. Hoje convivem, frutificam juntos e dialogam. O sulfito não desapareceu. Ao contrário, a ciência recente reforçou sua importância sanitária. E os vinhos sem intervenção não dominaram o mercado, até porque intervenção mínima não significa ausência de técnica. A década abriu espaço, mas não destruiu o passado.
2020s: CHOQUE DE REALIDADE
Quando a década de 2020 começou, atravessada por pandemia, ruptura logística, inflação global, guerra, crise climática e mudança geracional, as previsões assumiram um tom quase apocalíptico. Falava-se no fim do varejo físico, na migração definitiva para o e-commerce, no domínio dos formatos alternativos, na ascensão irreversível da China como potência máxima do vinho, na substituição das regiões clássicas por novas latitudes frias e no avanço acelerado de uvas híbridas como única resposta viável ao aquecimento global. O discurso era de ruptura total: nada do que existia antes sobreviveria intacto.
Algumas dessas previsões se concretizaram, mas quase nunca da forma linear imaginada. O e-commerce explodiu entre 2020 e 2021, não apenas como canal de compra, mas como ferramenta de educação, relacionamento e descoberta. Muitos consumidores deram seus primeiros passos no vinho comprando online, participando de lives, clubes e degustações virtuais. O impacto climático deixou de ser abstrato. Colheitas mais precoces, teores alcoólicos mais altos, mudanças de perfil aromático e desafios inéditos em regiões tradicionais tornaram-se rotina. Regiões frias antes marginais ganharam espaço real, como Inglaterra, Canadá, partes da Escandinávia, áreas mais ao norte da Alemanha, Oregon e até zonas elevadas no sul da Europa. O debate sobre híbridos e PIWIs, novas castas resistentes a fungos, amadureceu e saiu do papel para a prática.
No entanto, o que mais marcou a década até aqui foi o retorno do equilíbrio. O e-commerce, que parecia ter decretado o fim do varejo físico, recuou após a pandemia. O consumidor voltou a valorizar a experiência presencial. Bares de vinho, restaurantes, enotecas e eventos retomaram protagonismo. A compra online permaneceu, mas como canal complementar. Os formatos alternativos, como latas, bag-in-box premium e garrafas PET melhoradas, cresceram em visibilidade, mas sem ameaçar a garrafa tradicional.
A China, talvez a maior aposta da década passada, não cumpriu as previsões mais ambiciosas. O consumo interno retraiu, o vinho perdeu espaço para outras bebidas e o segmento premium perdeu tração. O país segue relevante, mas deixou de ser o motor do crescimento global que muitos anunciavam. Da mesma forma, as regiões clássicas, como Bordeaux, Borgonha, Piemonte, Rioja e Champagne, não foram substituídas. Elas se adaptaram, ajustaram estilos, anteciparam colheitas, reduziram extração e madeira, investiram em sombra, altitude, diversidade de castas e pesquisa. O Velho Mundo não caiu, se reinventou.
Outro ponto crucial foi a mudança no comportamento do consumidor. Falava-se em uma geração jovem disposta a romper com tudo, mas o que se viu foi um público que bebe menos, escolhe melhor e questiona origem, sustentabilidade e propósito. O vinho deixou de ser símbolo de status e passou a disputar atenção com outras bebidas, experiências e narrativas. Isso forçou o setor a abandonar certezas antigas e a comunicar de forma mais honesta, menos dogmática e mais plural.
Se alguma previsão falhou de forma clara foi a ideia de que o mundo caminharia para uma única solução, um único canal, um único formato, um único estilo ou uma única resposta ao clima. A década de 2020 mostrou exatamente o contrário. O futuro do vinho está sendo construído como um mosaico, em que tradição e inovação convivem, o clássico se ajusta sem se descaracterizar e não há respostas universais. O vinho saiu da ilusão da ruptura total e entrou na era da adaptação contínua.
PREVISÕES PARA 2026: O QUE PODE OU NÃO ACONTECER
Se minha experiência de décadas me ensinou algo, foi a desconfiar de previsões absolutas. Ainda assim, alguns vetores parecem claros ao olharmos para 2026.
A tendência mais sólida é a consolidação de um vinho menos dogmático. A polarização entre natural e clássico já perdeu muita força, dando lugar a uma linguagem mais técnica, transparente e menos ideológica. O consumidor aceitará estilos diferentes, desde que bem feitos, honestos e coerentes com sua proposta.
A mudança climática continuará sendo o grande motor de transformação. Veremos mais experimentação com castas alternativas, ajustes de estilo, migração para altitude e latitude e maior aceitação de vinhos com perfis menos previsíveis. Híbridos e PIWIs avançarão, mas não dominarão. Serão parte do portfólio, não o todo.
O consumo on-trade deve ganhar ainda mais relevância como espaço de descoberta e educação. Restaurantes, bares de vinho e eventos estão voltando a ser grandes formadores de gosto, enquanto o e-commerce se estabiliza como ferramenta de conveniência e aprofundamento.
No campo da comunicação, a tendência é de menos influência concentrada e mais vozes distribuídas. Críticos, jornalistas, influenciadores, produtores e consumidores dividirão o protagonismo. A autoridade virá menos do cargo e mais da consistência ao longo do tempo.
Por fim, talvez a maior tendência para 2026 seja a mais simples: o vinho voltará a ser tratado menos como promessa de futuro e mais como expressão do presente. Menos futurologia, mais realidade. Menos slogans, mais conteúdo. Menos certezas absolutas, mais curiosidade.
E agora, falando especificamente do Brasil, nestes meus 35 anos de carreira, uma única tendência sempre foi firme e crescente, o aumento do interesse do brasileiro pelo vinho. O Brasil é imenso e o vinho ainda não chegou a milhões de pessoas que estão descobrindo esta minha, a nossa, paixão.
