Filho de um industrial italiano de origem judaica que fundou uma das marcas de eletrodomésticos mais conhecidas do país, Sergio Arno poderia ter seguido uma carreira confortável no mundo corporativo. Trabalhou desde muito cedo na empresa da família, passou por multinacionais, voltou à Arno para atuar na área de propaganda. Mas nunca se sentiu parte daquele destino. Ainda jovem, decidiu tentar a vida na Itália. Voltou cozinheiro e virou um empresário de sucesso.
A trajetória que culmina, em 2026, nos 25 anos da marca La Pasta Gialla começou longe do glamour. Na Itália, o emprego prometido por um amigo do sogro não deu certo. Arno passou então um ano carregando pneus na Pirelli, até que outra oportunidade surgiu, ainda assim frustrante. “Fui para trabalhar com vendas. Ganhava US$ 1 mil por mês e me disseram que eu seria telefonista. Peguei minhas coisas e fui embora”, recorda. Sem emprego e recém-casado, decidiu aproveitar que já estava na Itália para aprender a cozinhar profissionalmente. Conseguiu um estágio em um restaurante de Florença chamado La Vecchia Cucina, onde ficou por mais um ano. Ao se despedir, ouviu do dono que o “presente” seria um jantar para ele e a mulher. “Que presente!”, ironiza. Preferiu jantar em uma pizzaria e voltar para o Brasil.
Chegou convicto de que seu futuro estava na gastronomia. Investiu US$ 10 mil, emprestados pelo pai, em um restaurante quase falido na avenida Faria Lima. Com sua experiência, reformou a casa, rebatizada com o mesmo nome do local em que trabalhara na Itália: La Vecchia Cucina. O ano era 1987, e Sergio Arno ainda era visto como alguém brincando de chef por ser filho do dono de uma grande fábrica de eletrodomésticos. Não raro, ouvia perguntas que insinuavam sua dependência financeira. “Meu pai nunca me deu nada além daquele empréstimo, que devolvi em cinco meses”, diz. Com o tempo, os prêmios e a constância do La Vecchia Cucina trataram de encerrar as dúvidas. Em 2002, Arno recebeu, em Costigliole d’Asti, na Itália, o prêmio de melhor chef de cozinha italiana da América Latina, instituído pelo Italian Culinary Institute for Foreigners. Assim, o sobrenome Arno virou também sinônimo de boa comida.

Embalado no sucesso do restaurante, vieram outros projetos, como o Alimentare, que combinava trattoria e empório, uma bruschetteria, uma cachaçaria e a fábrica de massas que fornecia pratos e molhos prontos até para o Grupo Pão de Açúcar. Até que, em 2001, ele teve um insight decisivo. Percebeu que havia espaço em São Paulo para uma cozinha italiana com o mesmo sabor e ingredientes do Vecchia Cucina, só que sem o aparato do luxo. “Tiramos a toalha de linho, o cristal, a prata, a lagosta, o foie gras. Ficou o mesmo azeite, a mesma massa, o mesmo tomate”, afirma. “Cortamos custos, ganhamos escala e assim pudemos oferecer pratos que hoje custam menos de R$ 80, metade do que seria no Vecchia”. Nascia assim o conceito La Pasta Gialla, com tíquete médio menor e uma proposta clara: qualidade sem afetação.
A fórmula funcionou. O público mais jovem aderiu e o modelo foi sistematizado em um manual, dando origem à rede de franquias. Hoje, são 16 unidades da marca espalhadas pelo país, além de duas rotisserias em São Paulo que levam o nome do chef. Ambas vendem uma variedade de massas secas, frescas, recheadas, molhos e clássicos como frango assado, filé à parmegiana e polpetone.
Em 2026, a rede celebra um quarto de século com uma ação que traduz bem o pensamento de Arno: mais do que lançar pratos, criar memórias. A comemoração inclui um menu especial disponível por três meses em toda a rede e um prato comemorativo que ficará no cardápio ao longo de todo o ano. Um tagliatelle ao ragu de pato que presenteia o cliente com um souvenir nos moldes do Prato da Boa Lembrança, pintado com a imagem da receita. Chega à mesa em porção generosa, com muito sabor da carne de pato desfiada entremeando a massa delicada. Com ele, a ideia é que, a partir de agora, um novo prato seja lançado anualmente, construindo uma linha do tempo gastronômica.
A ação começou em 15 de janeiro, com unidades participantes em São Paulo, Salvador, Fortaleza, Curitiba, Londrina e Maringá. Na capital paulista, a experiência dos 25 anos ganha um menu exclusivo harmonizado com vinhos; nas demais cidades, adaptações regionais respeitam ingredientes e identidades locais.
“Esses 25 anos representam pessoas, histórias, mesas compartilhadas e um caminho construído com verdade”, resume Arno. Não por acaso, ele se define hoje menos como alguém à frente do fogão e mais como um guardião da cultura culinária. Visita unidades, treina equipes, cria pratos novos e acompanha a gestão, hoje conduzida pela sétima esposa, com um plano de sucessão já estruturado. O crescimento segue no radar, sobretudo no Sul e no Nordeste, onde ainda vê espaço para novas franquias.
Observador atento da gastronomia brasileira, Arno viu o país sair de um tempo em que risoto era arroz com frango e ervilha para um cenário de ingredientes importados, público viajado e exigente. Viu modismos surgirem e desaparecerem. E mantém uma convicção: “O bom é o novo com sabor antigo”. Talvez por isso uma de suas inovações mais bem-sucedidas seja simples e simbólica, a massa cor-de-rosa feita com hibisco, lançada todo mês de outubro, com parte da renda revertida para uma ONG de apoio ao tratamento do câncer de mama.
Curiosamente, Arno, nome do rio que corta Florença, não era o sobrenome da família até a geração anterior à de Sergio. Seu pai, Carlo, italiano naturalizado brasileiro, decidiu que os filhos não deveriam carregar a origem judaica dos antepassados. Assim, os Arnstein da Europa viraram Arno em São Paulo. Mas o DNA permaneceu. Mesmo sem vocação para a indústria, Sergio seguiu o exemplo de empreendedorismo do pai e construiu, à sua maneira, um legado próprio, feito de massas, histórias e sabores que deliciam gerações.
