Caberá aos especialistas no assunto (e às futuras gerações) responder se o planeta Terra ganhou algo de bom com a tão aguardada COP30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Anunciada com antecedência de dois anos, a 30ª edição da COP movimentou a cidade de Belém e o estado do Pará bem antes de receber as delegações estrangeiras, entre os dias 10 e 21 de novembro de 2025. Não faltaram vaticínios de que a escolha do local era imprópria, de que não havia estrutura, de que o Brasil daria mais um vexame aos olhos do mundo. Enquanto isso, muita gente achou que ficaria rica com a COP. Não foi bem assim. Nem para um lado, nem para o outro. Houve erros e acertos, mas é inegável que Belém, apesar de todas as críticas, saiu no lucro.
Passados três meses desde o encerramento daquele que foi seu maior evento internacional, os sinais de que a capital paraense avançou estão por toda parte, principalmente para o turismo. Quem visita a cidade hoje tem uma percepção bem melhor do que teria até pouco tempo atrás. E mesmo quem vive por lá ou nos arredores se beneficia enormemente da requalificação que a COP fomentou. A começar pela região que engloba o Boulevar da Gastronomia e a Estação das Docas, colada ao Mercado Ver-o-Peso, que é uma visita obrigatória.

Funcionando desde 1625, ainda com o nome, o Ver-o-Peso é o maior mercado a céu aberto da América Latina, ocupando 25 mil m2 e dividido em diversos setores: roupas, artesanato, comida, temperos, garrafadas, produtos industrializados. Para a COP, cerca de R$ 64 milhões foram destinados à reforma completa do Complexo do Ver-o-Peso que, além das tendas, engloba duas construções em ferro forjado. Uma delas, chamada de Mercado Bolonha, foi inteiramente trazida da Escócia e é dedicada ao comércio de carnes. A outra, também trazida da Europa e pintada em azul, funciona desde 1901 como principal entreposto dos pescados da região. Logo ao lado, a Praça do Relógio, onde atracam barcos de pescadores, é outro ponto turístico, mas requer cuidado com a segurança, especialmente o uso de celular. “Ninguém rouba, mas às vezes o vento leva”, diz um guia local, em tom de brincadeira. Vale a dica.
A antiga área portuária de Belém estava em estado de abandono até ser revitalizada como um complexo de lazer, cultura e turismo entregue no ano 2000. Ela passou por uma nova reforma às vésperas da COP30. Os galpões agora são ocupados por atrações como o Museu das Amazônias, inaugurado com uma magistral exposição fotográfica de Sebastião Salgado, e uma nova unidade da Caixa Cultural. Há ainda espaços dedicados à gastronomia que sintetizam bem o que de melhor se come na capital paraense. Funcionam, lado a lado, uma versão reduzida do restaurante Puba, do chef Thiago Castanho, uma unidade da famosa sorveteira Cairu, com seus mais de 50 sabores, o bar Muamba, especializado em coquetéis à base de insumos regionais, e a loja de chocolates Gaudens, com criações premiadas até na Inglaterra. Uma dica: a degustação servida na matriz da Gaudens é algo extraordinário. Não perca.

Em outro módulo da Estação das Docas, uma microcervejaria e pequenas lojas de artesanato colocam ainda mais sabores e cores do Pará nas vitrines. Do lado de fora, mesas e cadeiras se espalham pelo passeio à beira do rio, convidando a passar o tempo de forma descontraída, sem frescura. E isso tudo é só uma pequena parte do que Belém ganhou com a COP.
Basta andar 100 metros pela Avenida Getúlio Vargas para chegar ao recém-inaugurado Tivoli Maiorana Belém Pará Hotel. Além do Wine Bar & Trattoria, contíguo ao lobby, a cobertura abriga o badalado SEEN Belém, oitava unidade global do conceito criado pelo chef e empreendedor português Olivier da Costa. Ocupando o 17º andar, proporciona uma vista majestosa do centro da cidade e da Baía do Guajará, incluindo os guindastes que permanecem decorando a orla das Docas. A vista do por do sol é incrível. À noite, a cidade iluminada fica belíssima.
A inauguração do SEEN marcou um novo capítulo para a cena gastronômica e de entretenimento da capital paraense. Como em todo Seen, o de Belém funciona com música alta e serve um menu que combina cozinha internacional e sushi bar. A fórmula deu certo em Lisboa, São Paulo e em países da Ásia. Na capital do Pará, nem se fala. Está cheio quase toda noite – e não só de hóspedes do hotel. Tanto assim que a partir de uma certa hora um dos três elevadores passa a servir exclusivamente quem vai ao SEEN, não parando nos demais andares.

Vestida com trajes de festa (não se pode entrar ali de shorts nem de chinelo), a clientela que disputa as mesas e a varanda do Seen é quase toda da cidade. Pessoas que estão ali para ver e serem vistas, como o nome sugere, e que até pouco tempo não tinham uma opção à altura. “Nosso desejo é conectar o melhor da energia Seen ao espírito da cidade, criando experiências onde gastronomia, música, coquetelaria e vista se encontram em perfeita harmonia”, afirmou Olivier da Costa. O menu combina criações do chef, como o arroz de frutos do mar e o penne com camarão, às opções do Sushi Bar, caso do hot rool e do nigiri shake trufado.
MORDOMIA 24 HORAS
Adaptado a partir de um retrofit completo do edifício de arquitetura brutalista que abrigava a Receita Federal, o hotel Tivoli Maiorana Belém nasceu de uma parceria entre a bandeira de origem portuguesa (hoje pertencente à rede Minor Hotels) e o empresário Rômulo Maiorana Jr., cuja família é proprietária de diversos negócios nas áreas de comunicação e turismo na cidade. O hotel tem 176 acomodações, incluindo duas suítes presidenciais de 220 m2 cada, ambas com sala de estar e de jantar, banheira e serviço de mordomia 24 horas.
“A chegada do Tivoli Maiorana Belém Pará Hotel representa um marco importante para a nossa presença no Brasil e para a valorização da região Norte”, disse Marco Amaral, vice-presidente de Operações e Desenvolvimento da Minor Hotels na América do Sul. “Belém é hoje uma cidade em evidência no cenário global, e estamos orgulhosos de trazer a hospitalidade atemporal da Tivoli para um destino tão singular, que une cultura, história e natureza de forma única”. Durante a COP, o hotel hospedou diversas delegações internacionais e até o Príncipe William, do Reino Unido. O herdeiro do trono britânico não ocupou uma das suítes presidenciais e sim um quarto comum, no nono andar.
Por ter sido inaugurado há tão pouco tempo, o Tivoli Maiorana Belém ainda carece de alguns ajustes operacionais para se enquadrar na proposta de luxo que a marca pressupõe. Mas nenhuma falha tira dele o status de melhor hotel da cidade. No primeiro andar, ao lado do restaurante Must, onde é servido um ótimo café da manhã com muitos sabores regionais, as piscinas são um convite ao relaxamento do corpo e da alma – algo que em breve ficará ainda melhor, quando o Anantara Spa estiver funcionando.
A localização do hotel, vizinho de algumas das principais atrações turísticas da cidade e a cerca de 700 metros da Praça da República e de seu imponente Theatro da Paz, faz dele uma opção privilegiada para quem precisa ir a Belém a trabalho ou como turista. E a cidade reúne motivos de sobra para ser visitada. Entre os passeios imperdíveis estão o Mangal das Garças, com seu educativo borboletário; o Forte do Presépio, onde a cidade nasceu; a vizinha Ilha do Combu, com praia de rio, restaurantes de alto nível, trilhas para observar a flora amazônica e até chocolates produzidos com cacau de cultivo próprio.
Mas nenhuma visita a Belém fica completa sem uma imersão na culinária local. A rota gastronômica deve incluir A Casa do Saulo, instalada na histórica Casa das Onze Janelas; o Celeste, que fica logo ao lado na mesma praça; e qualquer uma das três unidades da rede Amazônia na Cuia. Em qualquer um deles, será servido um autêntico banquete paraense.

Além do onipresente açaí batido na forma de um creme (sem açúcar) que acompanha o peixe frito, a base da alimentação paraense é a mandioca, da qual se aproveita tudo. Poder vir à mesa frita, cozida ou assada, e são extraídos da raiz a farinha d’água, a goma de tapioca e o tucupi – sumo amarelado que vai em muitas receitas, como o clássico pato. O tacacá, cantado pela paraense Joelma, é um caldo quente que leva tucupi, goma de tapioca, camarões secos e jambu, planta nativa da Amazônia com sabor picante e efeito anestésico peculiar. As folhas moídas da mandioca (ou maniva) entram na receita da maniçoba, uma feijoada dos paraenses.
Peixes como tambaqui, tucunaré, pacu e dourada são preparados de diversas formas: assados, fritos ou em moquecas e caldeiradas. Todos são saborosos, mas um que se sobressai é o filhote. Apesar do nome, ele pode chegar a 75 kg e, quando adulto, passa a se chamar piraíba. Para petiscar, um dos favoritos é o gó, sempre empanado e embebido no açaí. Já o pato, que dá origem a uma saborosa receita local com arroz, entra no menu do Wine Bar & Trattoria, do Tivoli, como recheio de lasanha. O queijo marajoara é outra iguaria que deve ser provada.
As frutas típicas da região, como cupuaçu, taperebá (ou cajá) e bacuri aparecem nas sobremesas, assim como o cumaru, de aroma e sabor semelhantes à baunilha. O cacau, fruto que tem no Pará o maior produtor do Brasil atualmente, também encontra usos criativos nas receitas dos chefs locais. Na Casa do Saulo (com filiais em Santarém, Alter do Chão, Rio de Janeiro e São Paulo), a sobremesa Na Selva combina creme de cupuaçu e creme de chocolate com farofa de biscoito de castanha do Pará. Um riquíssimo sabor amazônico para deixar Belém na lembrança por muito tempo.
(O jornalista viajou a Belém (PA) a convite da rede Tivoli)
