Powell enfrenta dilema com dados contraditórios e deve manter juros inalterados em março

Relatório robusto de empregos reduz apostas em corte imediato, enquanto inflação moderada e consumo instável mantêm cenário aberto para flexibilização no segundo semestre

Jaqueline Mendes
Compartilhe:

Imagens: Reprodução/YouTube

Jerome Powell, presidente do Fed, enfrenta um cenário cada vez mais complexo na condução da política monetária

Jerome Powell, presidente do Fed, enfrenta um cenário cada vez mais complexo na condução da política monetária

O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, enfrenta um cenário cada vez mais complexo na condução da política monetária americana. A divulgação de dados econômicos contraditórios nas últimas semanas embaralhou as expectativas do mercado e deve levar o banco central dos Estados Unidos a manter a taxa básica de juros inalterada na próxima reunião.

O ponto de inflexão foi o relatório de emprego divulgado recentemente, que mostrou a criação de 130 mil vagas não agrícolas em janeiro. O número superou expectativas e contrariou a narrativa predominante entre economistas de que a economia americana estaria desacelerando de forma mais consistente.

Antes da divulgação, investidores avaliavam em cerca de 40% a probabilidade de um corte de 25 pontos-base na reunião de março do Federal Open Market Committee, o FOMC, segundo o indicador FedWatch, da CME. Após o dado de emprego, a probabilidade de manutenção dos juros saltou para mais de 92%, refletindo a leitura de que o mercado de trabalho ainda não justifica estímulos adicionais.

O mandato duplo do Fed, que envolve controlar a inflação em torno de 2% e assegurar o máximo emprego, explica essa dinâmica. Caso o mercado de trabalho demonstrasse enfraquecimento, um corte poderia ser usado para sustentar a atividade econômica. Com o emprego ainda resiliente, o banco central tende a adotar cautela.

O cenário, no entanto, está longe de ser linear. Economistas têm observado ao longo de 2025 que o consumo vinha sendo sustentado sobretudo por famílias de maior renda. Sem esse grupo, a atividade poderia perder força e até flertar com recessão.

Nesse contexto, os números de dezembro frustraram expectativas. O Departamento de Comércio reportou crescimento praticamente nulo nas vendas durante o período de festas, tradicionalmente forte para o varejo americano. O dado surpreendeu negativamente e reacendeu dúvidas sobre a solidez da demanda interna.

A combinação de mercado de trabalho forte e consumo mais fraco gera o que analistas descrevem como um quebra-cabeça para o Fed. A tendência, diante dessa ambiguidade, é evitar movimentos precipitados.

Inflação arrefece e mantém cortes no radar

O índice de preços ao consumidor, o CPI, trouxe novo elemento ao debate. Em janeiro, o indicador subiu 0,2% na comparação mensal, acumulando alta de 2,4% em 12 meses, patamar relativamente próximo da meta de 2%.

A moderação inflacionária reforça o argumento de que há espaço para cortes ao longo do segundo semestre, ainda que o Fed opte por aguardar maior clareza nos próximos meses.

Relatório do banco suíço UBS indica que o ciclo de flexibilização pode começar em meados do ano. Segundo Mark Haefele, diretor de investimentos da área de gestão de fortunas do grupo, a combinação de inflação em desaceleração e crescimento mais moderado deve ganhar peso nas decisões do Fed ao longo dos próximos meses.

A instituição projeta dois cortes de 25 pontos-base entre junho e setembro, cenário considerado favorável para ativos de risco, como ações, além de títulos públicos e ouro.

Transição no comando do Fed

O debate sobre os próximos passos também envolve o futuro da liderança do banco central. O indicado para assumir a presidência do Fed, Kevin Warsh, tem sinalizado preferência por uma postura monetária mais flexível, argumentando que tendências recentes de produtividade podem exercer efeito desinflacionário estrutural.

Mesmo com incertezas sobre a transição, analistas observam que os membros permanentes com direito a voto no FOMC tendem a adotar postura levemente mais dovish (descreve uma postura de bancos centrais ou autoridades monetárias que prioriza o crescimento econômico e o emprego em detrimento do controle rígido da inflação) do que a mediana das projeções de mercado.

Para economias emergentes, como o Brasil, o ritmo de cortes nos Estados Unidos é variável-chave. Uma flexibilização gradual tende a aliviar pressões sobre o dólar, abrir espaço para fluxos em direção a mercados de maior rendimento e influenciar decisões do Banco Central brasileiro.

Por ora, o cenário mais provável é de manutenção dos juros americanos na próxima reunião, enquanto o Fed aguarda sinais mais consistentes sobre o rumo da atividade e da inflação.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ASSINE NOSSA NEWSLETTER E
FIQUE POR DENTRO DAS PRINCIPAIS NOTÍCIAS DO MERCADO

    Quer receber notícias pelo Whatsapp ou Telegram? Clique nos ícones e participe de nossas comunidades.