O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, enfrenta um cenário cada vez mais complexo na condução da política monetária americana. A divulgação de dados econômicos contraditórios nas últimas semanas embaralhou as expectativas do mercado e deve levar o banco central dos Estados Unidos a manter a taxa básica de juros inalterada na próxima reunião.
O ponto de inflexão foi o relatório de emprego divulgado recentemente, que mostrou a criação de 130 mil vagas não agrícolas em janeiro. O número superou expectativas e contrariou a narrativa predominante entre economistas de que a economia americana estaria desacelerando de forma mais consistente.
Antes da divulgação, investidores avaliavam em cerca de 40% a probabilidade de um corte de 25 pontos-base na reunião de março do Federal Open Market Committee, o FOMC, segundo o indicador FedWatch, da CME. Após o dado de emprego, a probabilidade de manutenção dos juros saltou para mais de 92%, refletindo a leitura de que o mercado de trabalho ainda não justifica estímulos adicionais.
O mandato duplo do Fed, que envolve controlar a inflação em torno de 2% e assegurar o máximo emprego, explica essa dinâmica. Caso o mercado de trabalho demonstrasse enfraquecimento, um corte poderia ser usado para sustentar a atividade econômica. Com o emprego ainda resiliente, o banco central tende a adotar cautela.
O cenário, no entanto, está longe de ser linear. Economistas têm observado ao longo de 2025 que o consumo vinha sendo sustentado sobretudo por famílias de maior renda. Sem esse grupo, a atividade poderia perder força e até flertar com recessão.
Nesse contexto, os números de dezembro frustraram expectativas. O Departamento de Comércio reportou crescimento praticamente nulo nas vendas durante o período de festas, tradicionalmente forte para o varejo americano. O dado surpreendeu negativamente e reacendeu dúvidas sobre a solidez da demanda interna.
A combinação de mercado de trabalho forte e consumo mais fraco gera o que analistas descrevem como um quebra-cabeça para o Fed. A tendência, diante dessa ambiguidade, é evitar movimentos precipitados.
Inflação arrefece e mantém cortes no radar
O índice de preços ao consumidor, o CPI, trouxe novo elemento ao debate. Em janeiro, o indicador subiu 0,2% na comparação mensal, acumulando alta de 2,4% em 12 meses, patamar relativamente próximo da meta de 2%.
A moderação inflacionária reforça o argumento de que há espaço para cortes ao longo do segundo semestre, ainda que o Fed opte por aguardar maior clareza nos próximos meses.
Relatório do banco suíço UBS indica que o ciclo de flexibilização pode começar em meados do ano. Segundo Mark Haefele, diretor de investimentos da área de gestão de fortunas do grupo, a combinação de inflação em desaceleração e crescimento mais moderado deve ganhar peso nas decisões do Fed ao longo dos próximos meses.
A instituição projeta dois cortes de 25 pontos-base entre junho e setembro, cenário considerado favorável para ativos de risco, como ações, além de títulos públicos e ouro.
Transição no comando do Fed
O debate sobre os próximos passos também envolve o futuro da liderança do banco central. O indicado para assumir a presidência do Fed, Kevin Warsh, tem sinalizado preferência por uma postura monetária mais flexível, argumentando que tendências recentes de produtividade podem exercer efeito desinflacionário estrutural.
Mesmo com incertezas sobre a transição, analistas observam que os membros permanentes com direito a voto no FOMC tendem a adotar postura levemente mais dovish (descreve uma postura de bancos centrais ou autoridades monetárias que prioriza o crescimento econômico e o emprego em detrimento do controle rígido da inflação) do que a mediana das projeções de mercado.
Para economias emergentes, como o Brasil, o ritmo de cortes nos Estados Unidos é variável-chave. Uma flexibilização gradual tende a aliviar pressões sobre o dólar, abrir espaço para fluxos em direção a mercados de maior rendimento e influenciar decisões do Banco Central brasileiro.
Por ora, o cenário mais provável é de manutenção dos juros americanos na próxima reunião, enquanto o Fed aguarda sinais mais consistentes sobre o rumo da atividade e da inflação.
