Autoridades russas alertam Putin sobre risco iminente de colapso financeiro

Queda da receita do petróleo, déficit fiscal e inflação pressionam a economia; bancos e empresários falam em derrocada em poucos meses

Jaqueline Mendes
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Imagens: Sergei Ilnitsky/Pool/AFP

Vladimir Putin tem sido alertado sobre a possibilidade de uma crise financeira ainda neste verão no Hemisfério Norte

Vladimir Putin tem sido alertado sobre a possibilidade de uma crise financeira ainda neste verão no Hemisfério Norte

Autoridades do alto escalão do governo russo vêm alertando o presidente Vladimir Putin sobre a possibilidade de uma crise financeira ainda neste verão no Hemisfério Norte, em meio ao agravamento das contas públicas e à manutenção da guerra na Ucrânia. Segundo reportagem do The Washington Post, fontes próximas ao Kremlin relatam crescente apreensão com a queda da arrecadação do petróleo e com a ampliação do déficit orçamentário, mesmo após o aumento de impostos sobre os consumidores.

Os números recentes reforçam o sinal de alerta. A receita do petróleo, principal fonte de recursos do Estado russo, caiu cerca de 50% em janeiro na comparação anual. Ao mesmo tempo, os gastos seguem elevados, sobretudo com despesas militares e incentivos financeiros para atrair novos recrutas ao Exército, enquanto o déficit fiscal continua se ampliando.

Um executivo do setor empresarial em Moscou afirmou ao jornal americano que a crise pode se materializar em “três ou quatro meses”, em um cenário de inflação persistente, fechamento de restaurantes e demissões em larga escala. Segundo ele, milhares de trabalhadores já enfrentam cortes de jornada, atrasos salariais ou suspensão temporária de contratos.

As pressões econômicas se acumulam desde a invasão da Ucrânia, há quatro anos. As sanções internacionais, combinadas à mobilização da economia para sustentar um conflito prolongado, resultaram em um mercado de trabalho apertado e inflação elevada. Diante desse quadro, o banco central russo manteve juros altos por um período prolongado. Mesmo com uma flexibilização recente, o consumo segue enfraquecido em diversas categorias.

O impacto já é sentido no sistema financeiro. Com empresas pressionadas pelo custo do crédito e pela retração da demanda, cresce o número de inadimplentes, elevando o risco de uma crise bancária. Em junho, instituições financeiras russas já haviam sinalizado a possibilidade de um problema de endividamento mais amplo. No mesmo período, o presidente da União Russa de Industriais e Empresários alertou que muitas companhias se encontravam em “situação pré-default”.

Um centro de estudos macroeconômicos ligado ao governo russo avaliou, em dezembro, que o país pode enfrentar uma crise bancária até outubro caso os problemas nos empréstimos se agravem e haja retirada de depósitos. Em nota citada pelo Financial Times, o economista Dmitry Belousov afirmou que a economia russa entrou “à beira da estagflação pela primeira vez desde o início de 2023”.

O cenário pode se deteriorar ainda mais caso a Europa avance com novas sanções contra a chamada “frota sombra” usada para escoar o petróleo russo, somando-se às penalidades recentes impostas pelos Estados Unidos a gigantes do setor como Rosneft e Lukoil. As restrições têm forçado a Rússia a vender seu petróleo com descontos mais elevados, enquanto a queda dos preços internacionais reduz ainda mais a principal fonte de divisas do país.

Para cobrir o rombo nas contas públicas, Moscou vem recorrendo ao fundo soberano, cujos recursos, segundo analistas, estão se esgotando rapidamente. Ao mesmo tempo, as perdas humanas no conflito são descritas como severas. De acordo com estimativas recentes, cerca de 1,2 milhão de soldados russos teriam sido mortos ou feridos desde o início da guerra. O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, afirmou que mais de 30 mil militares russos morreram apenas em dezembro, para ganhos territoriais mínimos.

Autoridades europeias também destacam que, do ponto de vista estratégico, a Rússia acumula perdas. A Ucrânia avança no processo de integração à União Europeia, a Otan ampliou seu número de membros e os países europeus aceleram investimentos em defesa. Para o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, a continuidade do conflito não se explica pela busca de território, mas pela impossibilidade política de uma derrota. “Essa guerra se tornou grande demais para Putin fracassar”, afirmou, durante o World Economic Forum.

Apesar de negociações intermitentes, a Rússia mantém ataques com mísseis e drones contra a infraestrutura energética da Ucrânia. Rodadas recentes de conversas entre representantes russos, ucranianos e americanos terminaram sem avanços significativos. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky afirmou que os Estados Unidos defendem o encerramento do conflito até junho e já articulam uma nova etapa de negociações.

Enquanto isso, a combinação de estagnação econômica, inflação em dois dígitos, juros elevados e esgotamento de reservas reforça o diagnóstico de que a economia russa caminha para um ponto crítico. Para analistas ouvidos pela imprensa internacional, a grande incógnita não é mais se a pressão financeira vai aumentar, mas quando ela se tornará insustentável. (com agencias internacionais)

 

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