O nicho religioso se tornou a mais recente aposta do cooperativismo de crédito para ampliar a base de clientes no Brasil. A convergência de valores como proximidade com a comunidade, atuação social e relacionamento de longo prazo tem impulsionado parcerias entre cooperativas financeiras e instituições religiosas, sobretudo em cidades do interior. Estados como São Paulo, Paraná e Mato Grosso concentram exemplos dessa estratégia, com destaque para municípios como Ourinhos (SP), Santo Antônio da Platina (PR) e Colniza (MT).
Nessas localidades, o Sicredi desponta como uma das instituições que mais avançaram nesse modelo de relacionamento. Responsáveis por paróquias relatam se sentir parte do negócio ao se associarem à cooperativa, uma percepção que reforça a lógica do cooperativismo. Para o padre José Antonio Campos, pároco da Paróquia Santo Antônio, em Santo Antônio da Platina, a parceria segue uma dinâmica de benefício mútuo. Segundo ele, o relacionamento é desburocratizado, acessível e baseado na confiança. “É transparente, ágil e um serviço de total verdade”, afirmou ao BRAZIL ECONOMY.

A avaliação confirma a estratégia adotada pela cooperativa. No Sicredi, o cliente é tratado como associado, com participação direta nas decisões e nos resultados da instituição. Essa lógica favorece a personalização do atendimento e estimula a prática cooperativista, aproximando a cooperativa dos objetivos sociais e econômicos das comunidades onde atua, um ponto de convergência com as instituições religiosas.
De acordo com Givian Vinicius Gaspar Santos, gerente de meios de pagamento da base Sicredi Norte Sul, que atende Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro, os resultados desse movimento são expressivos. No Paraná, cerca de 35% da base de clientes é formada por entidades religiosas católicas, segundo levantamento interno da cooperativa.
“O Sicredi tem presença muito forte junto às entidades religiosas católicas no Paraná, com mais de 140 contas vinculadas a esse nicho. Em visitas às paróquias, ouvimos relatos de que agora elas têm com quem contar. É um relacionamento construído por pessoas, porque ninguém quer se relacionar com um robô”, afirmou.
Esse modelo de atendimento personalizado dialoga diretamente com o perfil dos associados. Para Alex Henrique Possi, diretor de negócios do Sicredi Norte Sul, trata-se de um público que dedica a vida ao desenvolvimento humano e comunitário. “São pessoas que abriram mão da vida pessoal para servir à comunidade. Isso exige atenção, respeito e cuidado diferenciados”, disse.
Segundo Possi, essa proximidade reforça o objetivo social da cooperativa. “Estar próximo das pessoas, levando equilíbrio e sustentabilidade, faz parte da nossa essência”, afirmou.
Na prática, essa relação faz com que o Sicredi atue quase como uma extensão da paróquia. Adriano Guarini, gerente da agência do Sicredi em Santo Antônio da Platina, explica que a parceria local existe desde 1985. “O nicho religioso é visto como estratégico. Trabalhamos com atendimento personalizado e em condições de igualdade”, disse.
O movimento, segundo Guarini, não se limita ao Paraná. “É uma estratégia nacional”, afirmou. Em São Paulo, o município de Ourinhos ilustra esse avanço. O Santuário Nossa Senhora de Guadalupe mantém parceria consolidada com o Sicredi. O padre Paulo Sérgio Rodrigues, da Congregação Oblatos de São José (OSJ) e pároco entre 2024 e 2025, conta que a associação ocorreu por indicação da Diocese, mas foi reforçada pelo modelo de trabalho da cooperativa.

“O Sicredi atua em parceria, com competência técnica e apoio administrativo. Não há hierarquia nessa relação, somos associados”, afirmou.
No Mato Grosso, a cidade de Colniza seguiu caminho semelhante, embora motivada por outro fator. Durante anos, o Sicredi foi a única instituição financeira da região, marcada por difícil acesso e entraves ao desenvolvimento econômico. A agência local foi inaugurada em 2002 e, hoje, integra a base Sicredi Univales MT/RO. Mesmo com a chegada de novos bancos, a Paróquia Sagrada Família permanece associada à cooperativa.
Para o padre Orestes Monteiro de Melo, da OSJ, pároco entre 2007 e 2008, o cooperativismo é o elo central dessa relação. “A cooperação é um princípio bíblico, é apoiar o outro sem medo. O Sicredi oferece um serviço que nos faz sentir sócios de um negócio real”, afirmou. Ele destaca ainda a participação ativa da paróquia nas assembleias e a presença constante da cooperativa nas atividades religiosas.
Apoio e educação financeira como diferenciais
O suporte operacional e a educação financeira aparecem como os principais diferenciais apontados pelas paróquias. Em Ourinhos, o coordenador do Conselho Econômico do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe entre 2023 e 2025, Reginaldo Alves Moreira, afirma que a aproximação com a cooperativa trouxe ganhos práticos à gestão financeira.
“Após uma conversa clara e segura, o Sicredi ofereceu Pix isento para dízimos, ofertas e doações, além da redução das taxas das máquinas de cartão”, disse. Segundo ele, a paróquia também participa ativamente das assembleias da cooperativa.
Para Givian Santos, esse modelo de atuação explica o avanço junto ao segmento católico. “As comunidades exercem um papel social relevante e precisam de parceiros que valorizem o coletivo, respeitando a individualidade e o bem comum”, afirmou. “Esse trabalho contribui para o desenvolvimento local e sustentável e para a melhoria da qualidade de vida.”
Entre os efeitos práticos da parceria estão a profissionalização dos eventos religiosos, como quermesses, com o uso de máquinas de cartão e cardápios digitais, além do maior controle financeiro. As paróquias também recebem orientações para aprimorar arrecadação, realizar investimentos e estruturar reservas financeiras, dentro da vertente de educação financeira da cooperativa.
Em Colniza, desde outubro de 2023, as quermesses da Paróquia Sagrada Família deixaram de utilizar fichas de papel. Após resistência inicial, o sistema foi incorporado à rotina. “Hoje, só recebemos elogios pela agilidade e pelo controle”, afirmou o padre Nelson Federovicz, da OSJ. “É resultado de uma parceria sólida e confiável.”

Do ponto de vista estratégico, ter paróquias como associadas amplia a visibilidade da cooperativa junto às comunidades e reforça atributos como confiança e segurança. O Sicredi também atua como patrocinador de eventos religiosos, fornecendo apoio material e institucional.
“As quermesses atraem públicos diversos e acabam se tornando um canal de aproximação com novos associados”, afirmou Guarini.
Para Possi, a parceria valoriza pessoas envolvidas em causas sociais e fortalece o engajamento interno da cooperativa. “Gera orgulho e aumenta o envolvimento dos colaboradores”, disse.
Resgate às origens do cooperativismo
A aproximação com o segmento religioso também dialoga com a história do Sicredi. A primeira cooperativa de crédito da América Latina foi fundada em 1902, em Nova Petrópolis (RS), pelo padre Theodor Amstad, sob o nome de Sparkasse Amstad. Inspirado no modelo Raiffeisen, o sistema baseava-se na solidariedade e no crédito mútuo entre comunidades rurais.
Esse modelo sustenta até hoje os valores do Sicredi, como cooperação, ética, desenvolvimento local e transparência, princípios que ajudam a explicar a afinidade com as instituições religiosas.
“Se o Sicredi fosse uma pessoa, seria alguém simples, próximo e ativo, que faz diferença na vida das pessoas”, afirmou Ludymilla Dias Machado Cabral, gerente de marketing e comunicação do Sicredi Norte Sul. “Nosso papel vai além dos negócios. É transformar comunidades.”
Sinergia de valores
Especialistas avaliam que cooperativas de crédito e instituições religiosas operam em sinergia por compartilharem valores estruturais. “Solidariedade, ética, comunidade e bem comum são pilares do cooperativismo e da Doutrina Social da Igreja”, afirmou a economista Jacqueline Cristiane de Oliveira Silva.
Segundo ela, a associação com a Igreja Católica agrega credibilidade social à cooperativa e cria um efeito multiplicador de fidelização. “A cooperativa passa a ser vista como aquela que apoia a paróquia da comunidade”, disse.
A estrategista digital Maria Carolina Avis reforça que a estratégia vai além de um público específico. “O mais relevante é construir um ecossistema de públicos conectados por valores comuns”, afirmou. Para ela, a diversificação fortalece a marca, amplia pontos de contato com a sociedade e reduz riscos em um mercado financeiro cada vez mais competitivo.
Vale lembrar que, assim como os bancos tradicionais, as cooperativas de crédito são reguladas pelo Banco Central e oferecem os mesmos serviços financeiros. A diferença está no modelo. Na cooperativa, o associado é também dono do negócio e participa das decisões e dos resultados. Nos bancos tradicionais, é apenas cliente.
