“O varejo caminha para o maior salto de modernização em décadas”, diz Galassi

Farmácias em mercados, vale-refeição mais barato e nova regra de validade para os produtos são as principais mudanças lideradas pela Associação Brasileira de Supermercados

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Imagens: Divulgação

João Galassi, presidente da Abras, prevê crescimento de 3,5% a 4% para o setor neste ano

João Galassi, presidente da Abras, prevê crescimento de 3,5% a 4% para o setor neste ano

O setor supermercadista deve encerrar o ano com crescimento entre 3,5% e 4%, em linha ou ligeiramente acima do PIB. Mas, para João Galassi, presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), o que realmente pode chacoalhar o varejo alimentar brasileiro são três frentes em curso em Brasília: a reforma do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), a abertura do mercado de farmácias dentro dos supermercados e a mudança na forma de comunicar a data de validade dos produtos, com foco em redução de desperdício. Em entrevista ao BRAZIL ECONOMY, Galassi comenta o papel do governo Lula nessas pautas, critica o “oligopólio” das grandes empresas de vale-refeição, explica o modelo de operação de farmácias nos supermercados e detalha por que defender a expressão “consumir preferencialmente até” pode significar menos comida no lixo e mais racionalidade na relação com o consumo. Confira, a seguir:


Como o setor supermercadista deve fechar o ano em termos de faturamento e crescimento?
Vamos fechar um ano positivo. O setor continua crescendo, se desenvolvendo, e boa parte desse crescimento vem das políticas públicas e dos incentivos fiscais que foram sendo adotados ao longo do ano. Nossa projeção é encerrar com algo entre 3,5% e 4% de crescimento real, ou seja, em linha com o PIB ou um pouco acima. Para um mercado tão competitivo e com margens apertadas como o nosso, é um resultado importante.

A reforma do Programa de Alimentação para o Trabalhador, o PAT, é uma pauta antiga do varejo. O que, na prática, muda com o novo decreto?
Essa é uma luta de muitos anos. No modelo antigo, quatro empresas dominavam cerca de 80% do mercado de vale-alimentação e vale-refeição. É um oligopólio claro. No governo anterior, abriu-se uma brecha para o chamado ‘arranjo aberto’, mas, na prática, esse sistema não conseguiu se desenvolver porque o poder de fogo do ‘arranjo fechado’ era enorme. Chegamos ao ponto de haver representação no Cade [Conselho Administrativo de Defesa Econômica], com acusações de práticas anticompetitivas. Agora, com o novo decreto do governo Lula, houve uma mudança de postura. Vários ministros se sensibilizaram com a pauta e entenderam que era preciso agir de forma mais decisiva, olhando para três eixos: o interesse do consumidor, o interesse do comércio e dos serviços e a necessidade de abrir mercado de verdade, promovendo competição.

O que muda, na prática?
Na prática, o decreto traz três ganhos concretos: redução de taxa, redução de prazo de reembolso e interoperabilidade. Todas as maquininhas vão poder aceitar todos os cartões. Isso facilita a vida do comércio, porque ele deixa de ficar preso a uma única empresa, e, principalmente, muda a vida do consumidor, que passa a poder usar seu benefício em muito mais lugares.

Quem mais ganha com esse novo desenho do PAT? Os pequenos estabelecimentos, de fato, entram no jogo?
Esse é o ponto central. Hoje, ou o pequeno aceita vale-refeição e alimentação e é esmagado por taxas e prazos de reembolso abusivos, ou simplesmente não aceita e fica fora de um mercado de cerca de R$ 200 bilhões. De qualquer forma, ele perde. Estamos falando de padarias, restaurantes de bairro, lanchonetes, hot foods, mercadinhos, cantinas. Só no Simples, temos em torno de 300 mil empresas que hoje estão praticamente alijadas desse processo. Com o decreto, a projeção é sair de 800 mil pontos de venda para algo perto de 1,8 milhão. É uma revolução de acesso para o consumidor e uma correção de rota para o varejo de menor porte.

O sr. tem falado em “oligopólio” e citado que o Brasil é tratado como a “galinha dos ovos de ouro” por algumas dessas empresas. Como assim?
Há reportagens internacionais apontando que duas dessas grandes companhias, entre as quatro que dominam o mercado, são francesas. E, segundo a imprensa francesa, o Brasil é chamado de ‘galinha dos ovos de ouro’ dessas empresas. Elas atuam em quase 50 países, mas algo em torno de 30% do lucro global vem daqui. Isso diz muito sobre o desequilíbrio que vivemos por tantos anos. O modelo social do PAT, bancado por renúncia fiscal da sociedade, se transformou em um negócio financeiro extremamente lucrativo para poucas empresas, com reserva de mercado na prática. O que o decreto faz é começar a corrigir isso.

Um projeto apresentado no Senado propôs anular as novas regras do PAT. Como o sr. reagiu a esse movimento?
O autor é o senador Carlos Viana e o projeto foi retirado da pauta. A minha leitura é que ele deve ter ouvido apenas um lado da história, justamente o lado do oligopólio. No momento em que ele entendeu que o decreto beneficia a imensa maioria dos pequenos comércios, dos prestadores de serviço e toda a população brasileira, acredito que não ficou insensível a isso.

Outra agenda importante para o setor é a abertura de farmácias nos supermercados. Em que pé está esse tema no Congresso e no governo?
No Congresso, há muita turbulência, e isso acaba atrasando pautas que poderiam avançar mais rápido. Mas, no Senado, fizemos um movimento muito importante: construímos um entendimento com todos os setores envolvidos, inclusive com a própria representação das farmácias. O texto que levamos foi assinado pela entidade que representa as farmácias. Elas compreenderam o nosso direito de disputar esse mercado, e nós reconhecemos o papel das farmácias e dos farmacêuticos, inclusive a exigência de presença técnica na venda de medicamentos dentro dos supermercados. Esse clima de harmonia é positivo para o País e para o consumidor.

O que muda, concretamente, para o varejo alimentar e para o consumidor com a entrada das farmácias nos supermercados?
Do ponto de vista dos supermercados, essa agenda está alinhada a uma estratégia maior: transformar o ponto de venda em uma verdadeira unidade de saúde e bem-estar. Não se trata apenas de vender remédio. O medicamento é um componente. Queremos integrar suplementos, vitaminas, alimentos voltados para saúde, programas de prevenção. Para o consumidor, o benefício mais evidente é a conveniência. No mesmo lugar em que ele faz a compra do mês, poderá resolver questões de saúde, com estrutura farmacêutica presente e dentro de regras rígidas. E, hoje, o maior valor para o consumidor é o tempo. Se ele puder resolver tudo em um só lugar, com mais competição, preços melhores e segurança, a sociedade inteira ganha.

Esse modelo segue experiências de outros países?
Sim. Não estamos inventando a roda. Estados Unidos, Itália, China, entre outros, já operam modelos parecidos. Eu diria que o americano é a melhor referência: você tem uma parte de medicamentos de venda livre e uma parte fechada, controlada. No nosso caso, o projeto é até mais cuidadoso. Haverá uma área de farmácia determinada dentro do supermercado, com controle desde o estoque até o checkout, sistemas lacrados, processos bem desenhados do ponto de vista sanitário e regulatório. Do lado da competição, cria-se um ambiente mais justo entre varejo alimentar e redes de farmácia. É um projeto equilibrado.

A operação será feita pelos próprios supermercados ou aberta para redes já existentes de farmácias dentro das lojas?
As duas opções estão na mesa, e isso é uma inteligência do projeto. Ele permite que a própria rede de supermercados opere sua farmácia, mas também possibilita que uma drogaria independente ou uma rede farmacêutica já existente opere dentro do supermercado. Na prática, isso abre espaço inclusive para farmacêuticos empreendedores de bairro. Já me peguei pensando: aqui vou abrir uma farmácia própria, ali vou convidar um farmacêutico local para entrar comigo na loja. É um modelo de ganha-ganha, que pode fortalecer pequenos e médios negócios da cadeia farmacêutica.

Já existem projeções de quanto essa abertura pode movimentar em receita, investimentos e empregos?
Estamos exatamente nessa fase de levantamento de dados. O que já está claro é que haverá aumento da contratação de farmacêuticos, porque a presença deles será obrigatória nas unidades. Novas oportunidades de trabalho vão surgir, sem dúvida. Do ponto de vista de estrutura de mercado, também haverá desconcentração. Parece que há uma farmácia em cada esquina, mas, na prática, 29 empresas concentram cerca de 60% desse mercado. No setor supermercadista, para chegar a 60% do faturamento, são necessárias em torno de 1.250 empresas. Isso mostra como o nosso setor é muito menos concentrado. A nossa visão é que esse mercado não será simplesmente dividido entre farmácias e supermercados. Ele deve crescer. Temos uma população envelhecendo, acima de 60 anos, com uso mais intenso de medicamentos. Temos uma geração jovem que bebe menos álcool, se preocupa mais com saúde, consome mais suplementos e vitaminas. É um mercado em expansão, que comporta todos.

Assim como no PAT, há resistência de grandes grupos no varejo farmacêutico. Como você enxerga esse embate?
A diferença em relação ao PAT é fundamental. No caso do vale-refeição e alimentação, nós não estávamos competindo de igual para igual. Estávamos sendo esmagados por empresas que se beneficiavam de um programa social financiado pela sociedade. Na farmácia, vamos disputar o consumidor no varejo. Aí é mercado: que vença quem oferecer melhor serviço, preço, conveniência. A resistência existe, claro. Mas o modelo foi construído com diálogo, com salvaguardas sanitárias, com espaço para todos. A minha leitura é que, com o tempo, o próprio mercado vai mostrar que há espaço para mais atores sem destruir o que já existe.

E a proposta de mudar a informação sobre a data de validade dos produtos? O que, exatamente, está sendo defendido?
O debate é mal compreendido. Às vezes se fala em ‘produto vencido’, quando, na verdade, não é isso. A ideia é alinhar o Brasil ao que já acontece em boa parte do mundo, diferenciar o que é prazo de segurança, quando o produto realmente não pode mais ser consumido, do que é prazo de qualidade, em que o produto ainda é seguro, mas pode perder alguma característica de sabor, textura etc. Na prática, é informar melhor o consumidor. Algo como: ‘consumir preferencialmente até tal data’. Depois disso, o produto pode ser consumido, mas talvez não esteja na sua melhor forma. Isso já faz parte da regulamentação da Anvisa, aparece em produtos importados, é comum na Europa e em vários países da Ásia. Aqui ainda tratamos tudo igual, o que leva a um volume absurdo de descarte.

Qual é a dimensão do problema do desperdício hoje no varejo?
Estamos falando de bilhões em mercadorias jogadas fora todos os anos, só na ponta dos supermercados. Se somarmos o que é desperdiçado pelo consumidor em casa e o que se perde ao longo da cadeia, o impacto econômico e ambiental é gigantesco. Em países como França e Espanha, por exemplo, você não pode simplesmente jogar no lixo alimentos que ainda estão dentro da janela de ‘melhor consumir até’. Nesses lugares, o varejo é obrigado a adotar uma de três alternativas: reduzir drasticamente o preço, doar ou enviar para compostagem. É uma abordagem muito mais responsável, que reduz lixões, emissões e desperdício. O nosso debate aqui não é só rotulagem. É também ambiental. O consumidor tem o direito de saber se um produto ainda pode ser consumido com segurança, mesmo depois da data de melhor qualidade. E o varejo precisa ser chamado a assumir responsabilidades com práticas de desconto, doação e reaproveitamento.

Em que estágio está esse projeto sobre a nova forma de comunicar a validade?
O texto foi apresentado na Câmara, com apoio de entidades do comércio e de serviços. Não é uma iniciativa isolada da Abras. Houve uma primeira discussão na frente parlamentar do comércio que foi muito rica. Falta agora encontrar o melhor nome e a melhor forma de comunicação para evitar ruídos. Um termo que aparece na própria regulação da Anvisa é ‘consumir preferencialmente até’. Pode ser um caminho. O importante é que a lei deixe claro para o consumidor a diferença entre risco sanitário e perda de qualidade. E que, paralelamente, se construa um marco para obrigar o encaminhamento correto desses produtos, sem simplesmente empurrar tudo para o lixo.


Diante de tantas frentes abertas, com PAT, farmácias nos supermercados e data de validade, qual é a prioridade imediata da Abras em Brasília?

As três agendas caminham juntas porque dialogam com um objetivo maior, de modernizar o varejo alimentar brasileiro, aumentar a competição, melhorar a vida do consumidor e reduzir desperdícios. No curto prazo, é crucial garantir a implementação do decreto do PAT, evitar retrocessos e fazer o novo modelo funcionar na prática, com entrada massiva dos pequenos. Ao mesmo tempo, vamos seguir trabalhando pela regulamentação das farmácias nos supermercados, com o apoio que já temos no governo federal, e pela evolução do debate sobre data de validade. O varejo brasileiro caminha para o maior salto de modernização das últimas décadas. São temas que mexem com interesses grandes, mas, se olharmos pela lente do consumidor e do País, o caminho está muito claro.

 

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