Desde o ano passado, o que não falta nas redes sociais é guru do mercado financeiro prevendo a catástrofe da economia brasileira. Eles têm disseminado o caos para vender a solução: a dolarização do patrimônio. Ao estilo do ex-ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmaram que o Brasil caminha para o colapso. “Seis meses para virar a Argentina e um ano e meio para ser uma Venezuela”, afirmou Guedes em seus últimos meses como titular da Economia.
Os números mostram, no entanto, que aqueles que acreditam no ex-ministro ou que seguem as cartilhas de investimentos dos profetas do apocalipse nas redes sociais estão perdendo dinheiro. Muito dinheiro. Ontem, quarta-feira (11), o principal termômetro do mercado acionário brasileiro voltou a operar em território histórico. O Ibovespa encerrou o dia aos 189.699,12 pontos, alta de 2,03%, registrando o 11º recorde nominal de fechamento em 2026. Durante o pregão, o índice chegou a tocar 190.561,19 pontos, superando também a máxima intradiária anterior.
Criado em 1968, o índice reúne as ações mais líquidas e representativas listadas na B3 e funciona como um termômetro da percepção de risco e das expectativas sobre a economia brasileira. O movimento recente combina fundamentos corporativos, diferencial de juros elevado e, sobretudo, fluxo estrangeiro consistente.
Em janeiro, a bolsa brasileira registrou entrada superior a R$ 26 bilhões de investidores estrangeiros. Fevereiro começou na mesma direção, com cerca de R$ 4 bilhões na primeira semana. Para Lilian Linhares, sócia e head da Rio Negro Family Office, o vetor central do movimento está no capital internacional. “O mercado brasileiro tem sido mais guiado por fluxo e fundamentos do que por ruídos eleitorais”, afirmou a especialista. “Esse movimento ajuda a explicar o Ibovespa próximo das máximas recentes”, disse.
No câmbio, o real permanece relativamente firme, sustentado pelo ingresso de capital externo e pelo diferencial de juros elevado no Brasil. O dólar comercial encerrou o dia a R$ 5,18, com queda de R$ 0,032 (-0,62%). A cotação recuou ao longo de toda a sessão, chegando a R$ 5,17 por volta das 13h. Depois, houve recomposição parcial de posições, mas a moeda permaneceu em baixa. Trata-se do menor nível desde 28 de maio de 2024, quando estava em R$ 5,15. Em 2026, a divisa acumula desvalorização de 5,47%.
Segundo Lilian, “o risco eleitoral segue secundário neste momento, enquanto a principal preocupação continua sendo a trajetória fiscal no próximo mandato, independentemente de quem vença a eleição”. Ela ressalta ainda que “o ponto de atenção é a continuidade do fluxo estrangeiro: se mantido, pode dar suporte adicional à bolsa e ao real; se desacelerar, pode abrir espaço para realização”.
Blue chips lideram ganhos
O avanço do índice foi puxado principalmente pelas blue chips, movimento típico de pregões com maior participação estrangeira. A Petrobras teve papel central, com alta de 3,01% nas ações ordinárias e cerca de 2% nas preferenciais, após divulgar crescimento de 19% na produção no fim do ano passado, mesmo em um ambiente global de petróleo pressionado por excesso de oferta.
Suzano e TIM subiram mais de 5%, enquanto Klabin avançou acima de 3%, impulsionadas por balanços acima das expectativas. Vale e grandes bancos acompanharam o movimento. Na ponta negativa, a Totvs recuou, em linha com a desvalorização do dólar, já que a companhia possui operações relevantes atreladas à moeda americana.
Para Nicolas Gass, estrategista de investimentos e sócio da GT Capital, o ambiente externo é variável determinante. “Nos Estados Unidos, o payroll veio muito acima do esperado, com criação de mais de 100 mil vagas, ante projeção próxima de 40 mil”, disse. “Os salários vieram pressionados, e a taxa de desemprego ficou abaixo do esperado. Esse conjunto praticamente elimina a possibilidade de corte de juros pelo Federal Reserve em março.”
Com o mercado de trabalho americano ainda aquecido, as apostas majoritárias indicam que o primeiro corte de juros pelo Fed deve ocorrer apenas no fim do primeiro semestre, possivelmente em junho. Esse adiamento reforça a atratividade de mercados emergentes com prêmio elevado, como o Brasil.
O diferencial de juros, somado à percepção de ativos ainda descontados em termos relativos, cria um ambiente favorável para o fluxo estrangeiro. O desafio estrutural, contudo, permanece doméstico: a consolidação fiscal e a previsibilidade das regras econômicas no próximo ciclo político.
O patamar de 189 mil pontos simboliza mais do que um recorde nominal. Ele reflete uma combinação de liquidez internacional, fundamentos corporativos resilientes e expectativa de que o Brasil possa atravessar o período eleitoral com estabilidade institucional. Se o fluxo externo continuar a entrar, a bolsa pode sustentar novas máximas. Muito longe do que acontece na Argentina ou na Venezuela.
